A saga de dois Brasis

Idéias/ Jornal do Brasil – 18 de outubro de 1986
Sonia Salomão

Capas de Balada da infância perdida

A coerência do projeto ficcional de Antônio Torres se comprova mais uma vez numa sugestiva balada sobre mais uma perda: a infância. Mas que balada e que infância são estas? As do narrador e de seu primo Calunga, emigrantes nordestinos perdidos na cidade grande? Ou esta balada é uma saga familiar a contrapor cidade e sertão no vaivém da memória entre os tempos vividos na roça e aqueles passados nos heróis anos 60 e 70, na grande Sampa ou no delicioso balneário do sun sex and sea, Rio de Janeiro no alto de um espigão de 23 andares? É tudo isso e mais alguma coisa, segundo o delírio do personagem publicitário.

Desde Um cão uivando para a lua (72), o autor de Esta terra (76) desenvolve a temática do Brasil subdesenvolvido, com uma face agrária e outra industrial, dificilmente absorvidas pelas relações interpessoais. Seus personagens são exemplares, ou seja, são heróis paradigmáticos, culturalmente falando: o reporte, o publicitário, a mãe de família numerosa, o pai solitário e solidário com o sertão.

Em Balada da infância perdida o diálogo com várias temporalidades se dá a partir de intervalos de lucidez, quando o personagem-narrador desperta preocupado com o horário do trabalho. Lucidez profundamente comprometida com a bebedeira da véspera que o faz lembrar obsessivamente dos caixõezinhos azuis dos anjinhos de sua Infância. Lembrança logo entrelaçada com a da prole familiar: 23 irmãos.

O narrador em primeira pessoa possibilita uma colagem autobiográfica, responsável pela cumplicidade com o leitor. Ele é o típico emigrante nordestino que veio tentear a sorte na cidade grande. Está em plena crise dos 40 e a crise não tem conotações puramente existências, já que visceralmente ligada á crise social dos últimos 20 anos no Brasil. Aqui reside o aspecto mais relevante do romance. No meio de um tremendo porre, o Brasil é passado a limpo na desincronia própria da descontinuidade de nosso processo histórico. O narrador, em seu delírio onírico, conversa com parentes mortos, fragmentos de realidades sociais bem conhecidas.

A morte e a bebedeira são altamente alegóricas, sugerindo que a história brasileira dá forma à estrutura romanesca. Como se o autor quisesse nos dizer que só a bebedeira poderia salvar (matando) as pessoas dilaceradas por um sistema desumano que as obriga a enfrentar a disputa selvagem por um lugar ao sol contra todos os seus princípios ético. Daí, a valorização do pai, não mais o super-ego opressor da nação, mas um indivíduo desconhecido que, embora humilhado pelas forças sociais, mantém-se altivo na persistência do viver com as suas crenças.

Este é um romance dos anos 80 que se permite debruçar não só sobre a infância pré-capitalista do Nordeste, como sobre a experiência traumática dos anos 60-70. A ironia, a denúncia e a nostalgia temperada pelo ceticismo, livram o romance do tom piegas que o ameaçaria. Como no comentário do narrador sobre a conclusão de “um dos nossos”: “Até os vinte, acreditei na Santa Madre Igreja. Dos vinte aos trinta, acreditei no Partido Comunista. Dos trinta aos quarenta, acreditei na psicanálise. Agora só acredito na Loto”. A sensação de impotência, tão presente em todos nós que oscilamos entre a prudente euforia (que ninguém é besta) em favor do plano cruzado e o desânimo em face das oligarquias hegemônicas no país, está presente no livro. Mas longe de ser uma mensagem entreguista é antes uma análise das razões que nos conduzem a tal realidade e a tal postura. No diálogo com os mortos – Tia Madalena, Calunga, Che Guevara, a Mãe, o Pai – efetiva-se o contraponto de valores conflitantes que, se estão impregnados na família, é porque são representações sociais mais abrangentes sobre a miséria e o deslocamento cultural.

Entre o Boi da Cara Preta, os hinos de amor à pátria, as mensagens da FM da moda e as reminiscências da guerrilha cubana (“Hay que endurecerse sin perder la ternura, Jamás), há a sátira das diversas falas culturais sobre a nação contidas nas baladas.

Antônio Torres retoma uma discussão da maior relevância: a esquizofrenia de termos um Nordeste em pleno centro do sul-maravilha. Centro que é margem e se exorciza nesta balada para minar fantasmas na era do simulacro e no país das falsas aparências.

Da solidão da caatinga ao voraz caos urbano

Capas de Balada da infância perdida

O Globo – 12 de Outubro de 1986
Lúcia Helena

Para além das histórias que conta a seus leitores, e com competência, a ficção de Antônio Torres vem desenhando um curioso e singular perfil. A enlaçá-la, há o coerente e incessante aprofundamento de uma questão que a perpassa em seu cerne: em todos os seus textos, Torres – ainda que se utilize de uma gama variadíssima de estratégias – sempre reenvia ao leitor um problema, o do choque entre uma herança telúrica de personagens envolvidos por valores comunitários baseados na experiência rural(o que os aproximaria de uma voz épica), e o anúncio avassalador de que, sobre eles, se irá abater uma força corrosiva e fragmentadora, representada pela urbe, atraindo-os para uma vivência citadina e voraz, o que os aproximaria da narrativa romanesca da solidão humana e da perda de elos irrecuperáveis, sempre nostalgicamente relembrados.

Essa situação-limite, já anunciada em “Um cão uivando para a lua” de 1972, em sua terceira obra, de 1976, “Essa terra”, clímax de seu trabalho, mesmo que consideremos “Os homens dos pés redondos”, “Carta ao Bispo” e “Adeus, velho”. Pode-se dizer que, utilizando-nos de duas metáforas presentes em seu sexto e mais recente livro, “Balada da infância perdida”, a ficção de Torres tem narrado também a própria crise do grande relato, no qual apóia um de seus eixos; ou seja, que nela se tematiza o dramático choque entre a “solidão da caatinga” e o “amontoado da construção civil”. Ainda que consciente da ruptura com os elos do passado, os personagens-narradores dos romances de Antônio Torres como que lamentam a própria crise de que se incumbem narrar. Lamentam perda do grande relato que religasse os homens a seus ancilares, assim como traçam o fio de uma narrativa que, se não mais pode resgatar a identidade do que já não há, se urbe sobre o vazio dessa promessa, sobre a melancólica agenda das ruínas, sempre tecendo e retendo o  limbo em que se encontram não só os homens cindidos entre a tradição e a ruptura como também a sociedade problemática e as culturas em busca de si mesmas.  Ainda que “Balada da infância perdida” tenha como ponto de partida o fio desse bem tecido constelado, nela se esbate o acento melancólico (no sentido de W.Benjamin) de sua trajetória. A balada aqui referida não é mais um lamento emocionado da perda do que já não mais existe mas que, fantasmagoricamente, insiste em ser idealizado pelo personagem. O pai já não há, jamais veio, nem virá, assim como não vai ser mais cantada a canção de ninar que fizesse permanecer a infância na maturidade e impedisse o personagem de se libertar das angústias, das lembranças e do medo que o impelem à esperança. Também a narrativa já não mais é tematizada enquanto resgate possível de uma perdida identidade. Como agora sugere o personagem-narrador, que assume o fluxo da memória, não se ambiciona mais a busca de uma síntese (im)possível entre o passado remoto, dos elos comunitários rompidos, e o presente fragmentado. ”Balada da infância perdida” problematiza, renovadora e oportunamente, no quadro da ficção de Antonio Torres, a sugestão de que a narrativa não mais rememora os grandes relatos. Antes, dedica-se a “ouvir o tique-taque do tempo que passa, já sem promessas ou respostas”. O que Antônio Torres realiza com profundo vigor, senso crítico acirrado, humor e mestria, num belo texto, que merece ser lido.

Reedições de Antônio Torres

Gerana Damulakis
gerana@atarde.com.br

Capas de Balada da infância perdida

O baiano Antônio Torres está tendo sua obra reeditada pela Record, a exemplo de Os Homens dos Pés Redondos, romance que saiu, em 1973, pela Francisco Alves e Balada da Infância Perdida, que havia sido publicado pela Nova Fronteira em 1986. Ainda este ano, ele lançou os contos de Meninos, Eu Conto, também pela Record. Portanto, com mais de uma dezena de livros, sua obra já figura, dada a qualidade, na história da literatura brasileira deste século que finda.

Falando sobre a história do romance escrito por baianos, o contista Hélio Pólvora, em debate na Feira do Livro, não deixou de citar Um Cão Uivando Para A Lua, quando Antônio Torres faz um romance que é um “desabafo” primoroso de uma geração. O ensaísta Jorge de Souza Araújo destaca sua preferência também por este volume, mas há os que citam primeiramente Essa Terra, de 1976. Conheci o Antônio Torres de Um Táxi Para Viena D’Áustria, em 1991, e simplesmente fiz a viagem que é o texto. Recentemente, avaliei as saborosas histórias curtas de Meninos, Eu Conto. Igualmente há que ser lembrado o cronista do suplemento Idéias do Jornal do Brasil; principalmente aquelas crônicas publicadas em 1992, dignas de lugar perene em pasta de guardados.

Estas reedições trazem uma oportunidade mais do que necessária para quem não encontra os livros esgotados de Torres. De saída, fica garantido o prazer da leitura porque no tempo da rapidez — com que pressa queremos encerrar o século! — Antônio Torres consegue exatamente isto: criar romances que têm uma velocidade formidável. Talvez seja o gosto pela frase curta, talvez seja mesmo o ritmo ágil imprimido pela própria imaginação. E voamos juntos!

No entanto, não se pense que a reflexão está ausente numa escrita que passa a impressão de ser veloz. Ao contrário, ele nos acrescenta em conhecimentos desta nossa alma humana tão complexa. O personagem de Balada da Infância Perdida é daquele tipo que o leitor logo o compreende, estabelece com ele uma ponte de entendimento quanto às suas angústias, suas voltas aos momentos do passado, que o marcaram indelevelmente. Seus mortos o habitam, o personagem vive parte no presente e parte no passado porque o momento que está sendo vivido é produto de tudo que anteriormente ele viveu. E trava diálogos com a mãe morta e nos desespera, já que não sabe o que fazer com as suas assombrações, com seus caixõezinhos, com Calunga, companheiro e praticamente irmão que, sempre querendo tomar mais uma, acabou morrendo cedo. O autor, na verdade, vai resolvendo a infância. Não dizem que ela, a infância, é a parte pior da vida,  já que passamos o resto da existência tentando resolvê-la?

Em 1986, quando da sua primeira publicação, Balada da Infância Perdida ganhou o Prêmio de Romance do Ano do Pen Clube do Brasil e foi publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos. Não ficou nisso; outros romances foram também premiados e a maioria traduzido para várias línguas. Antônio Torres é hoje lido e reconhecido por razões que vão desde o estilo notadamente claro e límpido que assegura a leitura, até o manejo do humor para temperar a inquietação, a angústia e o desespero com que seus personagens fazem o caminho da vida. Leitura, pois, que embriaga. É o mesmo Torres quem lembra Baudelaire aconselhando que nos embriaguemos “de vinho, de poesia ou de virtude”. Aqui temos a virtude da excelente prosa de ficção.

Reflexo do passado, presente e futuro – Ensaio sobre Meu Querido Canibal

“Não há um único documento de cultura que não seja também um documento de barbárie. E a mesma barbárie que o afeta, também afeta o processo de sua transmissão de mão em mão”. (WALTER, Benjamin).

“MEU QUERIDO CANIBAL” – A IDENTIDADE BRASILEIRA
Reflexo do passado, presente e futuro

Lilian Daianne Bezerra Mota

INTRODUÇÃO

O Brasil é um país muito rico e diversificado, que possui um acentuado acervo histórico e cultural, além de uma memória tradicional que permite o deslumbramento de sua história. Esse acervo envolve uma gama de difusão de valores, transmitida através da narrativa cultural, para melhor entendermos a identidade do lugar e garantir a propagação da memória do país para as gerações futuras. Na verdade, a identidade trata-se de um processo de legitimação social e cultural de determinados elementos históricos que confere a um grupo, um sentimento coletivo de ser cidadão e fazer parte de uma nação. Apesar de uma diversidade cultural muito extensa, o país ainda preserva um legado cultural que favorece a sobrevivência de um povo.

Tive como prioridade o tema identidade, dentro do objeto de estudo “Meu Querido Canibal”, por saber a importância desse elemento em uma nação, tendo em vista que é muito difícil identificar essa questão no meio de uma heterogeneidade de componentes históricos, culturais e sociais tão ampla quanto existe no Brasil. A identidade é afirmada através de uma herança aderente a uma série de artefatos históricos que contribuíram para a construção da nacionalidade brasileira. Em “Meu Querido Canibal”, estes artefatos aparecem através de uma narrativa acerca do descobrimento do Brasil e dos acontecimentos após esse período.

Posiciono-me sobre essa temática através de referenciais teóricos e abordagem do objeto em pauta, que contribuíram para um novo olhar acerca do que podemos entender como identidade brasileira, sendo que esta teve como contribuição, inúmeras influências externas. Assim sinto-me apta a dizer que a identidade de um lugar não se processa de maneira individual e que falar de originalidade nesse contexto parece algo improvável. Como podemos definir o que é ser brasileiro em um país de tantos desiguais, preconceitos, diferenças, costumes e misturas diversas? Ou somos brasileiros por simplesmente termos nascido aqui? Essas são questões que tentarei responder ao decorrer do trabalho.

A IDENTIDADE BRASILEIRA – REFLEXO DO PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Qual o pressuposto que temos para definir quando se começou o processo identitário do Brasil? Obviamente, o território já era procedente de cultura antes que outros povos soubessem da sua existência. Contudo, o que marca a história e identidade do país, é o “descobrimento” dele por outros países como Portugal, através da expansão marítima. Anteriormente, a história dos índios apenas foi escrita por europeus e cada um deles possuía uma visão diferenciada. E nessa falta de registros acerca do período “pré-descobrimento”, é que nos vemos agora de mãos atadas acerca de fatos essenciais para a constituição de uma identidade própria. Em “Meu Querido Canibal”, percebemos como é importante a historiografia para a construção de um povo e isso reflete em nossa sociedade atual. “A gente fica a pensar se a história não será em grande parte um romance de historiadores” (MONTEIRO, 1992).

Nos fundamentos da sociedade ocidental, o colonizador tenta reproduzir sua dialética política, econômica, social e cultural no lugar que se apropria, afastando o nativo de continuar vivendo de acordo com os seus preceitos. Assim, a imagem refletida do conquistador passa a fazer parte de um lugar onde antes existia uma cultura própria, mas, ao mesmo tempo, diversificada devido às inúmeras tribos com diferentes costumes já existentes. Contudo, não se vive a cultura do outro em sua essência. Tendo a memória como instrumento de intensificação, o colonizado tem a possibilidade de dar continuação a sua cultura, mesmo existindo perdas significantes. Deste modo, o coração da cultura nativa sempre estará pulsando e o conceito de igualdade se dizimará. Muitas vezes não se vive nem uma cultura nem outra. Apenas oscila em meio a tantos devaneios e diferenças, impossibilitado de construir a sua própria identidade. “A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro” (GOMES, 1990).

Em “Meu Querido Canibal”, Antônio Torres mostra que essa inserção de uma outra cultura e a imposição à escravidão dos indígenas não foi de forma tão pacífica assim. A Confederação dos Tamoios foi uma maneira dos índios exigirem os seus direitos e maximizassem a voz para as injustiças existentes numa organização de resistência aos colonizadores. Torres se debruça em traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira mergulhando em acontecimentos como a criação, auge e massacre da Confederação dos Tamoios, o arranjo social das comunidades tribais, o estilo de vida, as mentiras e trapaças dos conquistadores e a fundação da cidade do Rio de Janeiro.

A idéia de identidade vive atrelada a uma série de questões históricas, políticas, econômicas e sociais, vinculada a um contexto individual e coletivo, intitulada através da quebra de fronteiras que determina a constituição da nação. O Brasil, como qualquer outro Estado político, passou por inúmeras transformações advindas de um conjunto histórico amplo e diversificado, juntamente com a inserção de vários componentes de outras nações até determinar-se como nação unificada e centralizada, constituindo o que somos hoje. Essa nação, porém define-se como uma comunidade imaginária constituída da apropriação de uma única língua, religião, costumes e etnias, associando-se a um processo de homogeneização que contribui no desenvolvimento da identidade brasileira. Contudo, diversas tensões culturais e literárias tributaram no processo de identidade, sendo a antropofagia um dos maiores enfoques dessa dialética, ou seja, o processo de homogeneização citado não é tão inerente assim. A identidade apenas tentou ser restringida a uma delimitação de fronteiras, mas com alternâncias sob as demais culturas.

A antropofagia, muito trabalhada por Antônio Torres em “Meu Querido Canibal” e por Oswald de Andrade em “Manifesto Antropofágico”, forneceu subsídios na construção da nação Brasil. Através dela, o homem se liga a uma outra cultura e transforma a sua e a outra que foi ligada, em um processo de troca mútua e simbólica, constituindo uma quebra de paradigmas e ao mesmo tempo fluxo entre as culturas. Esse choque de culturas se transforma em uma experiência renovada, possibilitando que o “eu” se encontre com o “outro” e dialoguem seus conhecimentos numa ação transformadora e híbrida. A antropofagia representa a história da construção cultural e literária do país. Todavia, sabemos que esse processo foi imposto e ao mesmo tempo em que trouxe benefícios, acarretou uma infinidade de problemas para os nativos da Nova Terra, que foram privados de exercer a sua vontade e seguir os seus próprios princípios culturais. “Aqui também os mais velhos do lugar tiveram a sua história empurrada para debaixo do tapete asfáltico” (TORRES, 2005).

O movimento antropofágico brasileiro tinha como objetivo a ingestão da cultura do outro. Com base nisso, pode-se observar a importância das diversas influências externas pela qual o Brasil passou durante mais de 500 anos de história como: a cultura afro-descendente, européia e americana. Apesar da cultura indígena encontrada pelos portugueses já ser bastante diversificada devido às milhares de tribos que habitavam o país, o estrangeirismo foi fundamental para a heterogênea situação atual do mesmo. A diversidade, composta nessa experiência estrangeira, mesmo representando uma troca, pode acontecer através de uma força dominadora, acoplada a anseios lucrativos, proporcionando uma disparidade imposta e generalizada. Contudo, a troca em si, como ação conjunta de transformação, ponderando-se do outro como uma contribuição do meu ser, favorece a idéia de câmbio entre duas culturas. Apesar disso, a cultura do outro, hierarquicamente, é moldada e, muitas vezes, alterada.

Segundo Oswald de Andrade no Manifesto Antropofágico:

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. O movimento Antropófago. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz”.

Movimentos literários e artísticos procuram no discurso antropofágico a realização de uma linguagem e a composição identitária da cultura e da pátria. Assim, a antropofagia ainda é apreciada numa conjuntura cultural, sendo que muito disso foi retomado no ideário nacionalista do Tropicalismo e no Modernismo. Hoje, presenciamos a noção de estrangeirismo e nativismo ligados quando nos debruçamos sobre a arte e arquitetura barroca expostas nas ruas de cidades brasileiras, onde a contribuição européia, africana e indígena, aparece conectada, convergindo uma a outra numa perspectiva tributária de costumes. A hibridação cultural, aplicada pela Antropologia, possibilita o nosso olhar em torno de uma perspectiva antropofágica, viabilizando uma contemplação esporádica sobre a arte e a literatura dos movimentos culturais, além de uma afirmação identitária. É nesse contexto, que a assimilação e incorporação do outro se revela e nos possibilita entender a formação cultural do Brasil, através do processo de transculturação. A partir desse contexto, pode-se perceber a entrada da expressão cultural e da diferença.

A desconstrução do contexto hegemônico se faz quando outros signos identitários, construindo um discurso cultural e possibilitando o multi-culturalismo, se ligam à idéia de cotidiano e sociedade diversificada. Contudo, o conceito de identidade cultural ainda continua disperso e apesar da singularidade de cada membro da sociedade, ela ainda se estabelece no plural. A necessidade de designar uma originalidade brasileira, através de uma cultura única na composição nacional, pode existir, mas não é passível de acontecer em nenhum Estado político. O passado já foi traçado, e moldá-lo de uma outra maneira é uma missão impossível. A cogitação de uma ruptura com a história escrita e com o passado cronológico é uma concepção utópica e imaginária, assim como a linha do Equador. O conceito de identidade igualitária esperada na sociedade ocidental é uma dialética ambígua e deturpada, pois a pluralidade é fato e o hibridismo é uma constante em nossas vidas. As diferenças culturais e sociais nas regiões brasileiras são reflexos de um legado histórico oriundo dos diferentes povos que colonizaram o país.

Por muitos anos, os índios, os negros, os mestiços e outras etnias consideradas diferentes, foram tratados dessa forma. Isso originou eventos como o Movimento Negro, a resistência dos sem-terras, o genocídio no Amazonas, o imperialismo midiático e a imposição da língua inglesa no mercado de trabalho brasileiro, constituindo o autoritarismo dentro de fatos históricos e econômicos, devido ao processo de domínio externo que houve no passado. Esse desmembramento na identidade nacional é conseqüência complicada da herança histórica.

A dependência cultural é uma forma de apropriação de produções artísticas e do pensamento de um determinado lugar. A formação identitária da cultura brasileira ainda não foi legitimada, pois muitos buscam uma originalidade e autenticidade dentro desse parâmetro. E mesmo tendo um vínculo único chamado nacionalidade, não há espaço para unicidade e essência dentro desse patamar identitário. É uma repleta inviabilidade o discurso de homogeneização cultural. Através desse discurso da originalidade da identidade brasileira, podemos ter um novo olhar intelectual e cultural apenas sobre o passado imaginário dos nativos indígenas no período anterior ao descobrimento, possibilitando um diálogo após a incorporação dos legados afro-europeus e a consciência da condição histórica. As expressões populares que conhecemos hoje são reflexos do fomento pós-descobrimento.

Mas enfim, qual é a identidade do Brasil afinal? Os brasileiros para serem chamados dessa forma foram determinados pela legitimação de uma língua, demarcação de território e costumes semelhantes. Por que falar mal da nudez de hoje, se desde muitos séculos os povos indígenas já viviam nus? Como não falar de imperialismo americano, se fomos submetidos a esse governo desde a vinda dos portugueses? Por que não falar de preconceito, se índios e negros foram escravizados e tratados como diferentes e hoje ainda são olhados com desconfiança e vistos como marginalizados? Hoje podemos ver como os acontecimentos passados interagem com o nosso presente e como fomos criados em cima de estereótipos.

Edificar uma nação implica no desenvolvimento de uma identidade nacional, traçada dentro de fronteiras geográficas, culturais e étnicas. A construção da nacionalidade brasileira implica até nossos dias quando nos deparamos com acontecimentos como os 500 de “descobrimento” do Brasil e não sabemos se é motivo de comemoração ou não. E sempre a pergunta “Quem somos?” surge em meio aos discursos. Particularmente, o que nos diferencia das demais nações é o tempo que nos dirige e determina que vivemos há apenas 506 anos e que antes disso a nossa narrativa não existia.  Apesar do pouco tempo que foi determinado, muito se foi feito para que o Brasil tivesse uma memória e patrimônio que nos possibilita dizer que possuímos identidade. Evidentemente, a literatura é uma intensa instituição que contribui para a acepção imaginária e cultural de sociedade e produção de valores que legitima a nossa cultura, e determina que grupos sociais diferentes participem de um conjunto identitário. É através dela que identidades culturais e nacionais são configuradas e narrativas passam a dar sentido aos nossos modelos de vida atual e anseio de pertencimento à pátria, sem submeter-se bruscamente a aspiração estrangeira.

Atualmente, mais uma vez estamos passando por um processo de ultrapassar barreiras e permitir que o outro faça parte de nós através das relações internacionais e parcerias entre empresas e multinacionais. Beneficiando ou não, as relações externas sempre existirão e nem países como os Estados Unidos seriam capazes de viver sem conexão alguma com outro país. O que eu vejo nisso tudo, é que o Brasil é um lugar de raças, mitos, preconceitos e heterogeneidade, mas acima de tudo, ainda tem um povo que mesmo sofrendo ainda torce (futebol), mesmo com fome ainda brinca (Carnaval), mesmo sendo discriminado, luta (Movimento Negro), mesmo sendo dependente, não se aliena. Memória, mito, história e identidade são essenciais para a existência social, mas só pertencendo a um lugar, sendo o seu ou não de origem, é que somos munidos de alma, de pertencimento. Sem isso, somos apenas seres vagantes, “sem êra nem bêra”, frutos do acaso, o que não acredito. Orgulho de pertencer a um lugar é ter identidade. Existir é ter identidade. A altivez promissora dessa terra é que somos bem aventurados de correr entre os tiros de bala e uma guerra civil, viver em meio ao tráfico de drogas, ser discriminado ao entrar num restaurante ou uma universidade, ser mordido pelas cobras políticas e midiáticas, ser barrado por crianças nas sinaleiras, por uma série de desempregados e analfabetos, assistir a vida da maneira mais cruel e ainda assim ter forças para levantar em meio a tanto lixo, morbidez e ganância, acordar alagado pela chuva e dizer: “a vida continua” e “a esperança é a última que morre”. E como disse Torres, “ninguém estava preocupado em construir um país, mas em enriquecer rapidamente, a qualquer preço.” E o povo ainda vive, tendo ou não, identidade.

Texto produzido em dez/2006 – Publicado em maio/2007 no Recanto das Letras: http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/489680.

REFERÊNCIAS

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Bacharel em Turismo pela Fundação Visconde de Cairu (FVC); Graduanda do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Pós-Graduanda em Planejamento e Gestão de Destinos Turísticos do Centro de Pós-Graduação e Pesquisa Visconde de Cairu (CEPPEV-BA); E-mail: lilytaylor@hotmail.com.