MENINOS, EU CONTO : Antônio Torres, Editora Record, Rio de Janeiro, 1999, 79 pp.
Catalogado como literatura infanto-juvenil, Meninos, eu conto não
deve ficar restrita aos adolescentes. São três contos deliciosos, todos
tendo como personagem principal um menino do interior, talvez
reminiscências da infância do autor, acrescidas de alguma ficção.
Antônio Torres nasceu num lugar como aquele no
qual ambienta suas três histórias: natural de Junco, interior sertanejo
da Bahia, hoje uma cidade cujo nome é Sátiro Dias, o escritor descobriu
seu talento para a literatura ainda nestes tempos de menino da escola
rural. Incentiva pela professora, Torres se tornou o escritor das cartas
das pessoas do lugar e a recitar os poemas de Castro Alves nas datas
festivas. Começou, assim, o caminho que realmente veio a seguir: o de
escritor.
Já em Salvador, foi repórter do Jornal da Bahia e daqui foi
para o sul como jornalista e publicitário. Estreou na literatura em
1972. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, e é reconhecidamente um
ficcionista representativo de sua geração, tendo livros traduzidos em
vários países. Dentre os dez mais festejados, estão os volumes de Essa terra, de 1976, saído pela Ática, e Um táxi para Viena d’Áustria, de 1991, pela Companhia das Letras. Igual repercussão teve O cachorro e o lobo, já pela Record, em 1997.
Este Meninos, eu conto traz as histórias curtas: “Segundo Nego
de Roseno”, “Por um Pé de Feijão” e “O Dia de São Nunca”, quando o
tempo parece suspenso entre o trabalho duro da roça e o povoado de uma
única rua de terra batida, seca e quente como costuma ser todos os
povoados do sertão. Os meninos brincam com caminhõezinhos de madeira, há
um beato que reza e pragueja contra os males do mundo e há o desespero
de ver a pequena safra perdida.
Os relatos são tão reais que a empatia com a leitura se dá
imediatamente. Entra-se no mundo dos meninos, no pequeno e pobre mundo
dos sem esperanças, mas que continuam lutando pela sobrevivência,
tentando domar a terra, a maldade dos de fora, como os forasteiros do
conto “O dia de São Nunca”, que roubam o Santo Antônio do menino
aleijado que fica sozinho em casa enquanto sua mãe labuta na roça.
Pode-se ler estas histórias em poucos minutos e senti-las por outros
tantos ressoando no pensamento, absorvendo-as na alma e reconhecendo o
talento do contista baiano impregnado pela relação telúrica que os
primeiros anos de vida souberam marcar profundamente no seu animo. Como
ocorre com todo aquele que é observador privilegiado da vida, os
guardadores das sensações as mais miúdas e as grandiosas, enfim, dos que
pegam da tinta para saltar um mundo que trazem dentro e fazer
literatura.
Personagem do conto Segundo Nego de Roseno, do livro Meninos, eu conto,
do escritor Antonio Torres. Neste livro, as histórias ocorrem em
“lugares esquecidos nos confins do tempo em mundo interiorano e rural”
(TORRES, 2001, p. 10). Nego de Roseno destaca-se no enredo em
contraponto entre esta desolação e isolamento rural e a auspiciosa
ascensão comercial do personagem negro. Ele é o único indivíduo do
conto com relativo sucesso material no contexto de atraso econômico e
social narrado. Nego de Roseno é o proprietário da pequena casa de
comércio que atrai a atenção do menino narrador, porque somente Nego de
Roseno possuía “uma fubica parada na porta do armarinho” (idem, p. 19),
o “único orgulho motorizado do Junco” (idem, ibdem). O menino ficava:
fascinado com o progresso desse homem e chegava mesmo
a invejar-lhe a liberdade de poder rodar para cima e para baixo na
boléia daquele caminhãozinho que, mesmo quebrando e atolando nas
estradas, acabava sempre chegando a algum destino” (idem, ibdem).
Antonio Torres nasceu em 1940, no povoado que inspira o enredo do
conto, o Junco, hoje cidade de Sátiro Dias, situada no sertão da Bahia.
Torres diz que descobriu sua vocação literária na escola rural e
começou a vida de escritor com a experiência de jornalista e de
publicitário. Apesar da sua fortuna crítica ainda se resumir
basicamente a resenhas curtas em jornais de cultura sobre a sua obra,
já há alguns estudos acadêmicos inéditos sobre seus romances. Antonio
Torres é um dos principais ficcionistas da Literatura Brasileira
contemporânea, trazendo em sua narrativa, inclusive nos contos do livro
Meninos, eu conto, a influência peculiar da formação
interiorana e da experiência jornalística do escritor. O conjunto da
sua narrativa se estrutura em certos aspectos fundamentais do universo
rural e do mundo jornalístico-publicitário, seja na diversidade dos
seus romances, seja na safra pequena, porém densa, dos seus contos e
crônicas, que absorvem a vitalidade da oralidade do mundo rural e a
objetividade da linguagem do jornalista e publicitário.
No aspecto formal, a tendência para a concisão do foco narrativo seduz o leitor do texto Segundo Nego de Roseno
para um enredo enxuto, como também é a estrutura narrativa das grandes
digressões históricas ou das cisões psicológicas em todos os romances
do escritor. Outro aspecto peculiar da sua obra é o conteúdo realista
das narrativas, quase sempre focadas em fenômenos históricos ou da
memória. No entanto, a história e a memória são apropriadas em
linguagem literária experimental, o que faz a objetividade naturalista
assumir uma condição subjetiva da realidade representada em narrativa
fragmentária e ágil.
Nos contos de Meninos, eu conto, o pertencimento dos
personagens ficcionais, como Nego de Roseno, ao universo do menino
narrador, que se confunde com o universo do autor-menino, é explicitado
desde a apresentação do livro pelo próprio Antonio Torres: “estas
histórias, portanto, são de outra era. Mas ainda compartilho os sonhos,
os sentimentos e os conflitos desses meninos. Um dia eles e eu já
fomos as mesmas pessoas. Ou por outra: até hoje me sinto como se fosse
um deles” (idem, p. 10). Neste sentido, a ficção e a realidade se
fundem no universo da literatura e a maneira como o texto encena o
personagem Nego de Roseno evidencia questões éticas na estética da
representação do negro na literatura brasileira contemporânea.
No projeto literário nacional são fundados e reproduzidos muitos dos
estereótipos tradicionais sobre o negro, Mas também se desvelam na
literatura imagens étnicas silenciadas na história política e cultural
do país até hoje. A difusão de mitos em textos escolares e na adaptação
da literatura em grandes meios de comunicação de massa, como a
televisão e o cinema, tem efeito multiplicador dos estereótipos,
ampliando questões fundamentais da discussão sobre a cultura nacional
em nosso imaginário, como, por exemplo, os tipos negros: adaptados versus não-adaptados; vilões versus heróis; feios versus voluptuosos e viris; bom e risível versus violento, entre outros estereótipos.
Nego de Roseno faz contraponto dos estereótipos relacionados ao papel
do negro na economia política e cultural da sociedade brasileira. Ele é
um capitalista de sucesso numa realidade rural pré-capitalista, o que
induz o leitor a um ponto crucial do conto, quando o menino mira-se no
status do negro alçado à posição de superioridade moral devido ao
sucesso comercial. Isto se apresenta ao menino como imagem ideal da sua
transição para o mundo adulto. O menino prova sua coragem ao negociar
com o Nego de Roseno a compra de uma camisa nova no armazém do
comerciante. Ele pechincha no preço – pois o dinheiro que tinha ganhado
naquele dia não era suficiente para o negócio –, e Nego de Roseno
aceita o acordo, vendendo a camisa por menos. O menino, ao chegar a
casa, é repreendido pelo pai, que considera um erro a compra da camisa e
manda devolve-la ao negociante e pegar o dinheiro de volta. O maior
dilema para o menino é desfazer o negócio e macular a sua honra diante
da autoridade de Nego de Roseno: “era uma humilhação ter de se desfazer
de um negócio que fizera por sua livre vontade” (Idem, p. 23). Não
desfez o negócio e o caso só foi esquecido “quando a camisa já estava
rasgada” (idem, p. 25).
A autoridade de Nego de Roseno vaticinou ao pai do menino a sentença
fundamental da iniciação do jovem no mundo adulto: “dá gosto ouvir
aquele menino falar. Aquele menino é um homem” (idem, ibidem). A
construção moral do negro indica a sua personalidade incontestável.
Ao analisarmos outros aspectos discursivos no conto de Antonio
Torres, flagramos a ambigüidade da literatura com relação ao personagem
Nego de Roseno. Na emblemática imagem moral dele é possível fazer
outra reflexão sobre a presença do negro na literatura brasileira,
seguindo a discussão de Roger Bastide de que os estereótipos do bom e
do mal negro continuam menos aparentes, mas latentes e “prontos a
despertar, no entanto, cada vez que a ascensão gradual do homem de cor
ameaça o branco nas posições de domínio que ele não cessou de ocupar na
sociedade” (BASTIDE, 1973, p. 128). A ascensão do Nego de Roseno com
sua fubica “que transportava uma pança negra com os bolsos cheios de
níqueis dos roceiros” (TORRES, p. 19) traz o aspecto vitorioso positivo
do negro para o menino, mas há também o aspecto negativo velado nas
poucas palavras do pai, quando contrariado com a compra da camisa pelo
menino: “Burro. Burro e besta”. A fala paterna insinua o abuso do
comerciante sobre o menino inocente enganado pelas artimanhas do
vendedor.
Portanto, o Nego de Roseno pode ser lido como o mito do vencedor que
subverte a condição social e se supera economicamente, mas também pode
ser lido como desconstrução da explicação social para a condição
econômica da população excluída no país. Essa exclusão implica em
negros e não-negros condicionados às mesmas possibilidades de ascensão
ou não, conforme o diagnóstico sociológico de Roger Bastide através da
análise do discurso da literatura no século XX. O conto de Antonio
Torres arma a trama com categorias históricas veladas, para o leitor
formular na leitura novas respostas para as questões sociais envolvidas.
Por exemplo: qual a condição histórica do negro no cenário rural
brasileiro? Como o imaginário rural do país reproduz as contradições
envolvidas nos estereótipos positivistas das hierarquias raciais?
O conto de Antonio Torres torna ambíguo o sucesso do Nego de Roseno,
sem reduzir a problemática a uma resposta única, nem prolongar
prolixamente o tema do ponto-de-vista do narrador sobre o sucesso
econômico do personagem. A concisão da linguagem do escritor dá
significado direto ao observado pelo menino em relação ao sucesso do
comerciante. O enunciado é unívoco mas faz emergir uma multiplicidade de
sentidos subliminares na discussão sobre o tema étnico do negro nas
diversas regiões geográficas e do imaginário literário brasileiro. O
respeito do menino ao sucesso econômico do comerciante existe porque
Nego de Roseno teve uma vida “carregando suas mercadorias no lombo de
um burro”. (Idem, p. 19). Mas a revolta do pai do menino contra a
compra da camisa coloca em cheque a honestidade do comerciante, pois
ele afirma não perdoar o menino ter dado “o seu dinheiro numa camisa
que não valia nada” (idem, ibidem).
Do ponto de vista da construção dos estereótipos do negro no
imaginário brasileiro, podemos finalizar a reflexão sobre Nego de
Roseno com inferências à complexidade étnica criada pelo conto em
relação às categorias clássicas introduzidas desde a obra de André João
Antonil, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas,
quando aponta os tipos do boçal e o ladino. O primeiro, para o autor
colonial, é aquele “rude” e “fechado” que continua ensimesmado por toda
a vida. Estereótipo generalizado no Brasil para caracterizar as
pessoas prepotentes e pretensiosas. O segundo tipo, para Antonil, é
formado por escravos que em pouco tempo se adaptam e tornam-se
“espertos, assim para aprenderem a doutrina cristã como para buscarem modo de passar a vida” (ANTONIL, 2007, p. 98, grifo nosso).
Apesar dos estereótipos acima datarem do século XVI em relação aos
grupos de negros que chegavam à colônia para o serviço escravo, estas
categorias são correntes na linguagem popular brasileira, até hoje,
tanto em seu caráter positivo, quanto negativo, e, para além da questão
de raça, assumem um significado social. Da mesma forma que as duas
categorias podem ser sugeridas na leitura do Nego de Roseno, outra,
mais comum, é usada para designar o típico negro brasileiro: o mulato.
Para Antonil, estes são os melhores “para qualquer ofício” (idem, p.
99), pois contam com “aquela parte de sangue de branco que têm nas
veias” (idem, ibdem).
Enfim, Nego de Roseno pode ser lido como emblema das categorias
históricas e psicológicas acima, tornando-se o típico modelo
positivo/negativo da “civilização mestiça” nacional, confluindo nele as
diferentes virtudes e vícios macunaímicos da geléia geral brasileira.
Cabe ao leitor atento à literatura brasileira contemporânea revolver na
memória os mitos e os estereótipos dos personagens negros.
Referências
ANTONIL, André João de. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Edição Crítica por Andrée Mansuy Diniz Silva. São Paulo: Edusp, 2007.
A memória sempre foi e será uma fonte para a
literatura. Cada escritor empreende, segundo seu engenho e arte, a sua
busca do tempo vivido, ou perdido, como o fez Marcel Proust. Assim a
narrativa traz à tona fatos e experiências que na maturidade passam a
ter uma importância especial para o autor. Quando as situações retratam a
realidade vivida ou presenciada, estamos no campo do memorialismo.
Quando o passado oferece experiências a partir das quais a imaginação
cria situações verossímeis, entramos no terreno específico da ficção.
Meninos, Eu Conto, livro que reúne três contos de Antônio
Torres, comporta essa dupla possibilidade de leitura. Como num jogo de
espelhos, os meninos personagens e o narrador adulto se refletem na
escrita e demarcam o seu distanciamento no tempo e a sua proximidade
afetiva. Na foto da contracapa Torres maneja um estilingue, que
simboliza o seu desejo de rever as imagens da infância e adolescência
vividas na sua pequena cidade natal. Segundo o autor, esses contos “têm
como cenário um lugar esquecido nos confins do tempo” onde “os meninos
dividiam o seu tempo entre o trabalho na roça, junto com os pais, e o
caminho da escola, no povoado”. São histórias de meninos do interior,
ambientadas numa época em que cada lugarejo ficava isolado do mundo,
tendo como horizonte apenas uma estrada poeirenta, por onde muitos
seguiam para São Paulo e nunca mais voltavam. O escritor afirma: “Estas
histórias, portanto, são de outra era. Mas ainda compartilho os sonhos,
os sentimentos e os conflitos desses meninos. Um dia eles e eu já fomos
as mesmas pessoas. Ou por outra: até hoje me sinto como se fosse um
deles” (p.10).
No primeiro conto – “Segundo nego de Roseno” –, o menino adquire uma
camisa na venda do povoado. O pai desaprova a compra e lhe ordena a
devolução. Mas como desfazer o trato? O menino se debate com o problema,
no entanto mantém a palavra empenhada, tornando-se responsável pelos
próprios atos. A comunidade reconhece: “Aquele menino é um homem.” E o
pai fica orgulhoso porque percebe que o filho honra a palavra, de acordo
com a ética sertaneja.
O segundo conto – “Por um pé de feijão” – mostra a realidade do
menino camponês que divide seu tempo entre a escola e o trabalho na
roça. Depois do trabalho duro de plantar, colher e ensacar o feijão, a
boa safra acaba sendo destruída por um incêndio de origem obscura. O
narrador destaca a atitude do homem do campo diante das vicissitudes,
que são encaradas como desígnio divino. Contudo, o menino observa o pai e
aprende a ter fé e a acreditar em dias melhores, pois “quando as chuvas
voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão” (p.35).
O terceiro conto – “O dia de São Nunca” – já estabelece relações
entre o espaço rural e o urbano, pois o menino protagonista mantém
contato com três jovens da cidade que fazem uma espécie de turismo no
povoado. O menino exercita a imaginação, ensina e aprende, como portador
do saber local e aprendiz das novidades urbanas. Ele se esforça para
compreender aqueles jovens forasteiros e sente o esforço deles para
compreenderem o seu mundo. Para o menino, que sofre de paralisia nas
pernas, esses dois mundos agora se tocam, como um novo horizonte em seus
sonhos e esperanças.
Os três contos tanto agradam ao leitor maduro como podem ser lidos e
comentados por jovens que se iniciam na leitura adulta. São histórias
com início, meio e fim, aparentemente simples e despretensiosas, mas
ricas de significados. As situações vividas pelos meninos protagonistas
atraem a simpatia e a curiosidade de quem não conhece a vida do campo e
certamente desperta as lembranças daqueles que, hoje metropolitanos,
têm, como o próprio escritor, uma origem perdida em algum cantinho do
Brasil rural. Trata-se de uma realidade que ainda existe, em plena era
das parabólicas e da internet, como nichos de vida ainda não alcançados
pelas transformações tecnológicas. Antônio Torres olha para essa
realidade – num passado nem tão remoto assim – e, longe de esquecer suas
origens e sua terra, a elas retorna por meio da ficção, inserindo-as na
geografia literária.
Em Sobre pessoas, Antônio Torres mostra flagrantes e idiossincrasias de personagens, tempos e lugares marcantes
Carlos Ribeiro • Salvador – BA
Sobre pessoas Antônio Torres Leitura 159 págs.
Antônio Torres: painel fragmentário da nossa história.
Sabe-se que todo texto literário se refere, em
última instância, ao humano, discreto ou demasiado, sejam seus
personagens pessoas, reais ou fictícias, uma pedra que houve
confidências numa fazenda da Bahia, bois que narram histórias, uma jovem
cadela ruiva de nome Kaschtanka ou um inseto em profundo estado de
rejeição. Mas há um gênero que nos atrai por falar de pessoas reais,
mensuráveis no tempo-espaço da história e dos afetos, cujos perfis
localizam-se num lugar qualquer entre um esboço e uma biografia.
As linhas acima vêm a respeito de um livro singular: Sobre pessoas,
do ficcionista Antônio Torres, baiano de Junco, hoje Sátiro Dias, um
dos principais nomes de sua geração – a que despontou ruidosamente nos
idos dos 60 -, autor de romances consolidados, quando não consagrados,
em nossa história literária, a exemplo de Essa terra e Um cão uivando para a lua, aos quais se acrescem títulos mais recentes, como O nobre seqüestradore Pelo fundo da agulha.
Misto de crônica, memórias, reminiscências e homenagens, como bem definiu André Seffrin, nas orelhas do livro, Sobre pessoas
tem sabor especial por falar de personagens reais da nossa história –
sejam artistas e escritores do século 20/21, sejam figuras mais ou menos
nebulosas, de outros tempos, mais antigos, cujas memórias são
revisitadas e redimensionadas. Exemplo: o eminente político e diplomata
João Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, muito bem
retratado no capítulo Vencedores e vencidos: histórias da nossa história.
Capítulo, diga-se de passagem, em que Torres, com recursos de exímio
esgrimista, digo, ficcionista, procura redimir o Rei Dom João VI de sua
triste e injustiçada imagem de covarde bufão. Retrata ainda personagens
pusilânimes, como o governador Francisco de Castro Morais, apelidado de
Vaca, condenado ao degredo por entregar covardemente os bens públicos e
privados aos invasores franceses do Rio de Janeiro, em 1711.
Saltando de um século para o outro, contextualizando seus personagens
e situando-os entre tantos outros do seu tempo, Antônio Torres oferece
ao leitor, em textos curtos e ágeis, uma instigante rede de relações,
dramas, amores, paixões, intrigas e imensos talentos, num painel
fragmentário da nossa história – política, literária, afetiva – com
olhar arguto e, devemos dizer, quase sempre profundamente compreensivo.
A generosidade é uma marca significativa desse livro. Nele, o autor
salienta o lado mais luminoso de seus personagens, mas não hesita em
expor, aqui e ali, explicitamente ou nas entrelinhas, algumas de suas
idiossincrasias – ou, mesmo, infâmias. É o caso do festejado Jorge Luis
Borges, cujo reacionarismo e abjeto preconceito é exposto no texto O lado infame do genial Borges. Nele, Torres, referindo-se ao livro Borges, o mesmo e o outro, publicado em 2001 pela Escritura, expõe declarações do autor de Ficções,
quando se refere aos militares argentinos como “cavalheiros” e
“senhores bem intencionados”, que “vão salvar o país da destruição”
(isto em plena ditadura militar argentina, nos anos 70, uma das mais
sangrentas de todo o continente); declara desprezo aos escritores
latino-americanos (“Eles não existem. Não existe nada na América Latina.
O continente inteiro é um romance mal escrito”) e à raça negra, segundo
Borges, “inferior em tudo”. “A raça negra nada fez. Se não existissem
negros, a história do mundo não mudaria em nada.”
Trata-se, no entanto, de uma exceção. Na maior parte do livro, o
autor prefere mesmo traçar perfis brilhantes e generosos de escritores e
artistas como Fernando Sabino, João Saldanha, Murilo Rubião, Dalton
Trevisan, João Antônio, Rubem Braga, Tônia Carrero, Juan Rulfo, Othon
Bastos, Márcio Souza, Ignácio de Loyola Brandão, Miles Davis e Tom
Jobim. A partir, geralmente, de encontros fugazes, e, portanto, sem
qualquer pretensão de retratar, de forma definitiva, esses autores.
Os destaques vão para quatro textos memoráveis: um já antológico, no
qual rememora dois encontros com Glauber Rocha, em 1964, quando ambos
estavam ainda na casa dos vinte anos (acrescido de um resumo da
entrevista que fez, então, com o cineasta para uma “revisteca” paulista
chamada Finesse, no dia da estréia de Deus e o diabo na terra do sol,
em São Paulo); o que retrata o encontro do autor com o poeta português
Alexandre O’Neill, em Lisboa (acrescido de alguns poemas do autor, morto
em 1986, aos 62 anos); o Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado,
no qual retrata a lendária simplicidade e generosidade do romancista
baiano com os escritores mais novos; e um brilhante perfil de Monteiro
Lobato (Idéias de Jeca Tatu).
Primorosas, também, as escassas linhas sobre a infância do autor em Quando o Natal não tinha Papai Noel
– texto emblemático do tempo mítico que alimenta a ficção de Torres e
que tem no não-pertencimento a chave para a sua decifração. Eis, como
diz Seffrin, citando um poeta, o “baú de espantos” deste autor que não
cessa de nos surpreender.
O AUTOR
Antônio Torres nasceu em Sátiro Dias (BA), em 1940. Sua estréia literária ocorreu em 1972 com o romance Um cão uivando nas trevas. Entre outros, é autor de Os homens dos pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Um táxi para Viena D’Áustria e O cachorro e o lobo. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000.
TRECHO • Sobre pessoas
Recordo-o como um homem afável, calmo, discreto. Já o seu
acompanhante era grandalhão e espalhafatoso. Numa gesticulação
desastrada, acabou por entornar o líquido quentíssimo de xícara sobre o
meu ilustre e impecável visitante, passando a se auto-recriminar
infinitamente. Aí começou a trovejar. Foi a deixa para o relevante
maestro, com sua voz branda, pôr um fim ao constrangimento do estabanado
cônsul, mudando de assunto:
– Que bonitos são os trovões do Rio – exclamou. – Parecem os de
Jalisco. – Então todos relaxamos, sob as cintilações dos relâmpagos e
subseqüentes estrondos. (da crônica Juan Rulfo no Rio)
Você pode ler o livro Sobre Pessoas na íntegra em DOC ou PDF
Diário do Nordeste – Fortaleza, Ceará – Domingo, 9 de Setembro de 2007
Carlos Augusto Viana – Editor
“O Antônio Torres, uma das vozes mais criativas
da moderna ficção brasileira, consagrado aqui alhures, deixou em
quarentena suas personagens, fragmentos de um mundo em decomposição, e,
agora envereda no gênero crônica (de há muito já o cultiva em
jornais), num texto doce e suave sabor.”
Nos primórdios do Cristianismo, a crônica era tão-somente o relato
de acontecimentos, sujeitos a uma cronologia, tomado como registro. Não
havia o aprofundamento das causas, tampouco a interpretação de seus
efeitos. No Brasil, a partir do século XIX, com José de Alencar e
Machado de Assis, assumiu uma personalidade literária.
Hoje, em sua moderna roupagem, a crônica (ocupa o espaço de jornais e
revistas; depois, sofre uma seleção, para, então, converter-se em
livro) implica, sobretudo, um acontecimento diário que chama a atenção
do escritor (uma paisagem urbana, uma cena lírica qualquer, uma pessoa,
um objeto, um fenômeno natural etc.), uma introspecção (o estar no
mundo, aspirações, o país da infância) ou, dentre tantos outros, motivos
encomiásticos (amigos, cidades).
É, portanto, uma expressão híbrida (assume várias formas: alegoria,
entrevista, confissão, diário, carta…) que percorre, naturalmente, as
fronteiras entre o conto e a poesia, convertendo-se numa visão
pessoal, subjetiva acerca do cotidiano.
Em Antônio Torres, (ficcionista engenhoso, que tece suas tramas como
quem emaranha fios de uma interminável teia) a singularidade do
cronista reside em sua extrema simplicidade – o que não lhe tira o
encantamento do literário. Ao captar instantes, às vezes fragmentos de
tempo, que tanto dizem da condição humana, ao redesenhar, pela memória,
encontros com artistas e personalidades – da música, do cinema, da
literatura, da televisão, do esporte – pesca, com o olhar agudo, a
grandeza do que se esconde sob a pele das coisas miúdas. Deparamos,
então, sob a aparente banalidade, o que, dentro de nós, estava
adormecido, ainda que nos inquietasse.
Eis o Antônio Torres de “Sobre Pessoas”. Nesse livro, retoma as
cadeiras de balanço dos alpendres sertanejos; isto é, deixa, no leitor,
aquela sensação de conversão ao pé da orelha, conversa amena,
acompanhada de um café com tapioca, quando o sol já se espetando nos
espinhos do mandacaru. Jorram, portanto, as marcas de oralidade, que
tanto açúcar põem nas pautas de nossa língua portuguesa do Brasil:
“Sinuca de bico” (p.10); “deu uma olhar rápida” (p.13); “não era de
avançar sobre o leitão assado” (p.25); “A primeira cipoada dele é na
imprensa” (p.28); “não sobrou uma cabeça de índio para contar história”
(p.58) – e assim vai, para não perder o ritmo.
Sua crônica é, antes de tudo, uma cartilha de ensinamentos. Com ela o
leitor aprende, a partir dos retratos alheios, a remodelar o seu
próprio retrato, a este acrescentando aprendizagens, ou relendo
conceitos, quando não, recuperando o que se foi nas asas do longe.
Com despojamento verbal, explorando a polissemia das palavras,
Torres nos coloca frente a frente com grandes expressões artísticas,
sejam estas daqui ou d’além-mar; e, em todas elas, uma marca em comum
se inscreve: a humanidade. Nesse sentido, antes de um escritor, um
cineasta, de um esportista, imprime-se o ser humano – sempre na
fronteira entre o paraíso e a queda.
Assim como ocorre também em sua ficção, na crônica ele faz largo uso
das intertextualidades – recurso que, para Domício Proença Filho,
constitui uma das marcas da pós-modernidade. O modo por que aparecem
nos textos é bastante variado: ora, são letras de música: “Era uma vez
um lugar esquecido nos confins do tempo, sem rádio e sem notícia das
terras civilizadas…” (p.158); ora, a citação de poemas: “Amor é fogo
que arde sem se ver,/ é ferida que dói e não se sente…” (p.95); ora,
subvertendo a forma original do texto: “Ele não foi um garoto que amava
os Beatles e os Rolling Stones…” (p.76); ora, com procedimento
híbrido: “Hoje é sábado e amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o
mar e Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar” –
aqui, fundem-se versos de Vinícius e fragmentos da liturgia católica.
Em Torres, tudo é assim muito natural, é doce música, bem como
carrega um gostinho de um passado, perdido, mas tão presente em nós
como uma cicatriz. São crônicas que tanto podem ser lidas na sala de
espera dos sempre atrasados médicos ou na concentração de um alpendrada
cadeira, sob o balanço das folhas e as flautas do vento.
Você pode ler o livro Sobre Pessoas na íntegra em DOC ou PDF
Correio da Bahia, 16 de setembro de 2007
Ana Cristina Pereira
A constatação foi do editor ao avaliar o material
apresentado pelo escritor Antônio Torres para seu livro, a coletânea
de crônicas Sobre Pessoas. Os textos falavam, basicamente, de
figuras que marcaram a vida do autor – e de muita gente –, fossem elas
de carne e osso ou fictícias. Alguns dos escritos haviam sido
publicados na imprensa, outros criados especialmente para o livro e uns
poucos redirecionados de outros fins, como palestras e aulas.
Por conta dos diferentes períodos e destinos, o conjunto de 44
textos apresenta uma agradável variação. Tanto nos tema quanto na
formatação. “Comecei revendo meu baú e depois passei o pente-fino”,
metaforizou o escritor.
Sempre simpático, Torres chama atenção para a quantidade de baianos
na coletânea. Para quem não sabe, ele nasceu na pequena Junco – hoje
Sátiro Dias –, no interior baiano. De lá rumou para São Paulo, “o
destino de todos os tabaréus do Brasil”, brincou, e depois se fixou no
Rio de Janeiro, cidade onde reside atualmente.
É pela capital carioca que se indica a viagem memorialista de Torres em Sobre pessoas, acompanhando do amigo Fernando Sabino. O começo é também uma maneira de reverenciar o gênero literário, com a citação de A última crônica,
pérola de Sabino (1923-2004) na qual ele fala da busca da inspiração.
“Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso
conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida”, anota Sabino, logo nas primeiras linhas.
A frase poética serve como uma espécie de resumo para as intenções
do livro de Torres. Ele pinça acontecimentos e ações que valem a pena
ser contados. Como o caso do generoso professor que, na adolescência,
lhe apresentou Mar morto, de Jorge Amado, incutindo-lhe o vírus da escrita. Ou a generosidade de Glauber Rocha, que, em meio ao lançamento paulista de Deus e o Diabo na terra do sol,
em 1964, concedeu-lhe uma longa entrevista. À época, o cineasta era
uma estrela em ascensão, e Torres, um repórter iniciante, trabalhando
numa revista sem nenhum prestígio. Tinham, respectivamente, 25 e 24
anos. Além da crônica sobre o encontro com Glauber, Sobre pessoas traz trechos da entrevista, recuperada graças ao cineasta Eduardo Escorel.
Vicio em história – No capítulo Vencedores e vencidos: histórias da nossa história,
o autor reúne nome e atitudes de pessoas que marcaram a trajetória do
país, sobretudo a carioca. Um pouco da vida do rei e do santo que
inspiraram o nome oficial da cidade maravilhosa (São Sebastião do Rio
de Janeiro); o vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza e sua amante
plebéia; o governador Francisco de Castro Morais e o rei D. João VI, o
articulador da fuga da família real para o Brasil em 1808.
Antônio Torres conta que tomou gosto pela história quando iniciou as pesquisas para o romance Meu querido canibal (2000). Depois, publicou O nobre seqüestrador
(2003), na mesma seara do romance histórico. “Fiquei viciado. Os
livros de história, mesmo importantes, às vezes são muito duros. Queria
falar um pouco sobre alguns personagens, como D. João VI, sempre muito
injustiçado, visto como fujão. Ele foi um administrador inteligente,
que amou muito o Brasil”, afirma.
Dois dos textos mais longos do livro foram adaptados de palestras dadas por Antônio Torres: Idéias de Jeca Tatu e Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado.
O primeiro resgata a amplitude do pensamento de Monteiro Lobato,
lembrando aspectos que hoje parecem piada, como sua defesa da
existência de petróleo no Brasil, que o levou à prisão. O segundo, como o
título explicita, fala da admiração ao conterrâneo, do arrebatamento
juvenil ao primeiro encontro em São Paulo à amizade madura.
Já um nome importante em 1972, Jorge Amado fez a simpatia de passar na livraria onde Torres lançaria Um cão uivando para a Lua no mesmo dia e hora em que ele autografava Teresa Batista cansada de guerra.
Comprou um exemplar e pediu ao vendedor para entregar ao autor, com a
recomendação de que autografasse e mandasse para seu hotel. De quebra,
deixou os contatos e convite para selar a amizade. “Jorge sempre foi
muito generoso. Foi ele quem reuniu os escritores baianos em sua casa
para me apresentar”, recorda Torres, que morou pouco mais de um ano em
Salvador.
Entre as crônicas mais afetuosas está a dedicada ao escritor
português Alexandre O’Neil (1924-1986), um dos primeiros amigos que
Torres fez em Portugal, na década de 1960, durante a temporada que lá
passou. Inédito no Brasil, O’Neil tem vários livros publicados e é
muito conhecido em seu país. “Tive enorme prazer em colocar os poemas
dele o livro, como uma provocação às editoras brasileiras, que nunca se
interessaram em publicá-lo por aqui”, diz Torres. Ele pinçou três
bonitos exemplares, dois deles sobre a paixão de O’Neil pela poesia
brasileira, através de João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira.
Outros encontros, duradouros ou furtivos, perpassam o livro. Com
Rubem Fonseca, Vinicius de Moraes, Othon Bastos, Márcio Souza, Ignácio
de Loyola Brandão… O leitor atento também pode ler Sobre pessoas
como um rico roteiro de leitura, catando os textos, livros e autores
importantes para Torres e que, certamente, merecem serem lidos: Malaguetas, perus e bacanaço (João Antônio), Urupês e Idéias de Jeca Tatu (Monteiro Lobato), Ohio e Cavalos e homens (Sherwood Anderson), Enquanto agonizo e Palmeiras selvagens (William Faulkner)…
Você pode ler o livro Sobre Pessoas na íntegra em DOC ou PDF
Jornal do Brasil, Idéias & Livros, 17 de março de 2007
Aline Nascimento
É comum que escritores mais afeitos à literatura
para adultos cedam ao encanto de escrever para crianças. Jorge Amado e
Henry Miller que o digam. Antônio Torres acaba de aderir também. Reuniu
realidade e fantasia em Minu, o gato azul, sua obra de estréia na literatura infantil.
A história do gato que vive aprontando pela casa foi inspirada no
próprio animal de estimação de Torres – também chamado Minu – e em seus
dois filhos. O livro nasceu de um convite da editora Rocco para a
coleção Bichos e outras histórias, que reúne importantes nomes da
literatura brasileira escrevendo histórias sobre animais destinadas às
crianças. O autor, no entanto, garante que não pretende continuar
escrevendo livros infantis.
Muito paparicado por todos de casa, que sempre achavam que ele
dormia “como um anjo”, a alegria do gato azul era encontrar uma porta
aberta. A sala de visitas com tapetes, poltronas e sofás vira m parque
de diversões para o pequeno animal. Todas as aventuras são muito bem
ilustradas por Adriana Renzi.
Na narrativa, Antônio Torres cria um gato sonhador, que pede a sua
fada madrinha para conhecer a Rússia – de onde veio sua espécie. O gato
relembra as brincadeiras na época em que havia crianças pela casa.
Sente saudades. “Minu acaba de descobrir o sentido da palavra saudade.
De tanto conviver com as pessoas, já entendia alguns de seus
sentimentos”, escreve Torres.
O livro fala também da comunicação dos humanos com os animais, que
mesmo não falando a mesma língua acabam se entendendo. A relação de
carinho e companheirismo entre homens e bichos.
Durante a noite Minu investiga a casa para ver se não há nenhum
movimento e se o caminho está livre para suas explorações e passeios
pelos cômodos. O problema é quando se depara com o dono da casa no
escritório e seus planos vão por água abaixo.
Neste momento, o escritor dialoga com os pequenos leitores: “Sim,
meninos: o manhoso Minu está se sentindo como um rato que caiu na
ratoeira. Mas esperem aí que ele já está bolando um jeito de dar a volta
por cima”.
Sempre que aprontava, o gato voltava para a cama e ficava bem
quieto, muitas vezes fingindo que estava dormindo para que os humanos
não desconfiassem de suas bagunças. Como uma criança levada.
O Estado de São Paulo, Caderno 2, 21 de Julho de 2007
Antonio Gonçalves filho
O escritor Isaac Bashevis Singer (1904-1991),
Nobel de literatura em 1978, disse certa vez que, numa época marcada
ela deterioração da produção literária adulta, livros para crianças
podem representar a única esperança e refúgio. A cada geração, livros
infantis espelham a sociedade em que surgem, conclui o historiador e
autor americano Leonard S. Marcus, autor de outra célebre frase:
“Crianças sempre têm o livro que seus pais merecem”. Pensando
exatamente na qualidade do texto literário dirigido ao público
infantil, a jovem editora Ana Martins Bergin, da Rocco, teve a idéia
fazer uma lista de grandes autores brasileiros, convidando-os a
escrever seu primeiro livro para crianças. O resultado desse convite é a
coleção Bichos & Outras Histórias, que comemora 100 mil exemplares vendidos, número bastante expressivo num mercado ainda tímido, embora em expansão.
O mais recente livro da coleção, que já conta com cinco títulos, Minu, o gato azul,
foi escrito pelo jornalista e autor baiano Antônio Torres, que
descobriu sua vocação literária na escola rural de sua terra natal,
Junco. A reação inicial de Torres, autor de livros para adultos, foi
dizer não ao convite da editora. Chevalier dês Arts ET dês Lettres na
França, o escritor parecia mais à vontade tratando de temas como
migrações e o exercício da memória como sobrevivência, assunto para
adultos, evidentemente. Como, então, escrever para crianças sem cais na
armadilha de produzir fábulas moralistas? Torres refletiu e aceitou o
desafio. Minu seria não só a história de um gato – inspirada no bichano
de estimação do premiado escritor –, mas principalmente uma tentativa
de explicar o indecifrável para os pequenos, sentimentos com ausência e
saudade experimentados por um felino.
Torres mal sabia que teria de explicar a si mesmo esse sentimento.
Minu, o gato, morreu assim que o livro foi lançado. A casa vazia sentiu
a falta do bichinho, que aprontava todas e depois voltava para sua
caminha para “dormir como um anjo”. Como uma criança de contos de fada,
Minu teve madrinha, acompanhou ainda filhote as fábulas que as crianças
de torres ouviram e ocupou um lugar especial na família. “Ele agregava
a todos, era o seu verdadeiro núcleo”, relata o escritor, atribuindo a
Minu uma qualidade que tenta transmitir a seus jovens leitores, o
valor do presságio, do instinto animal, quando a razão parece
insuficiente para responder incômodas perguntas, como porque as pessoas
envelhecem e morrem. “Envelhecer, para Minu, é não sentir mais cheiro
de menino em casa”, resume Torres. É ver esses meninos abrirem a porta,
saírem e voltarem já adultos.
Torres que lançou Pelo fundo da agulha (Editora Record) e Sobre pessoas
(Editora leitura), ambos para adultos, gostou da experiência de
escrever para crianças, mas conta que não foi nada fácil. “A editora
teve muita paciência e eu, bem, eu tive de reescrever o livro várias
vezes”, admite.