Entrevista a Mànya Millen

O Globo – Caderno Prosa e Verso, 28 de Agosto de 1999
Mànya Millen

Antônio, o escritor
Autor de “Essa Terra” lança contos sobre sua infância e prepara livro sobre Cunhambebe

A data é meio quebrada – são “só” 27 anos dedicados à literatura, marcados pela estréia com o romance “ Um cão uivando para a lua”, de 1972.Mais o escritor Antônio torres não precisa de números redondos parra comemorar. Além de ver reeditados pela Record, sua casa editorial há tempos, dois de seus principais títulos (“Balada da infância perdida” e “Os homens dos pés redondos”), o baiano nascido há quase 59 anos na pequena cidade de Junco, hoje chamada Sátiro Dias, também lança “meninos, eu conto”, que reúne três contos inéditos (em livro) em torno das suas memórias de infância e juventude.

– Por isso está sendo tratado como um livro infanto-juvenil, mas eu digo que é para jovens dos 12 aos 80 anos – brinca Torres, que escreveu os três na década de 70 e os considera um embrião de “Essa Terra”, seu maior bes-seller, de 1976, traduzido em nove países. – É claro que são lembranças, observações, mas não posso dizer que seja biográfico, porque para mim desaparece essa fronteira entre ficção e realidade.

Ainda menino, autor redigia cartas em troca de doces

“Meninos eu conto” cheira a uma época em que o autor, ainda moleque, carregava o apelido de Tote, hoje transformado em placa que decora a sua biblioteca doméstica. E como o único alfabetizado na região, já mostrava seu pendor para o ofício futuro escrevendo cartas para a população local, como a personagem Dora, vivida por Fernanda Montenegro no filme “Central do Brasil”.

– Nesse tempo recebi os melhores direitos autorais da minha vida. Nos dias de feira eu comia um monte de doces de graça – conta ele.

No momento, Torres está novamente mergulhado no passado. Mas num passo longínquo, que dá conta das primeiras décadas da História do Brasil. De lá, o escritor pinçou aquele que se transformou em personagem dileto e que até o fim do ano vira livro, sob o título “Meu querido canibal”: o índio Cunhambebe, o terrível devorador de portugueses.

A História narrada pela ótica dos perdedores

Paixão pela saga do chefe Supremo dos Tamoios nasceu durante a pesquisa para o livro sobre o Centro Rio

A começar pelo título do livro, Antônio Torres não faz a menor questão de esconder que tomou partido dos índios sim. Particularmente da coragem e da personalidade de Cunhambebe, o primeiro Chefe Supremo da Confederação dos Tamoios, organização que resistiu ferozmente, até onde foi possível, ao domínio dos colonizadores portugueses. “Meu querido canibal” vai contar a História pela ótica de quem perdeu, de terras à própria vida, numa narrativa que equilibra a técnica do romancista aos dados colhidos em pilhas de documentos e livros.

– Em alguns momentos vai parecer um livro de História, em outros um romance e até uma crônica. E, no fundo, o que estarei fazendo é a biografia não-autorizada de Cunhambebe – classifica Torres. – Essa questão do canibalismo mexe com as pessoas, mas Cunhambebe e sua tribo eram guerreiros e não perdoavam os inimigos, devorando-os para ingerir sua coragem. Parece só um ato de selvageria, mas tinha um conceito.

Além da base histórica, Torre diz estar escrevendo sobre Cunhambebe, que viver e morrei em Angra dos Reis, como se fossem grandes amigos, porque ao romancista interessa mais a fabulação. Essa amizade nasceu em 1996, quando o escritor recolhia dados para o livro ”Centro: das nossas desatenções”, da série Cantos do Rio, do Rioarte, editado pela Relume-Dumará. Da pesquisa brotaram histórias e a paixão pela vida de personagens como o canibal que morreu de peste e o pirata francês René Duguay-Trouin, o próximo que Torres quer transformar em livro.

Reedições mostram a continuidade da obra.

O amor pelos personagens está na fonte de outra paixão de Torres: tanto o índio quanto o pirata trazem com eles não só a História do Brasil como especificamente a do Rio de Janeiro, cidade que o baiano adotou em 1974 e onde nasceram seus filhos, Gabriel e Tiago.

– Sempre digo que para mim existem três grandes cidades: Rio, Paris e Nova York. Todas elas são realmente maravilhosas, mas só aqui existe o calçadão que vai do Arpoador ao Leblon – derrete-se ele. – E é a própria cidade que me pede para continuar. Com o sucesso do livro sobre o Centro vi como o carioca ama a história de sua cidade. Comecei a receber muita coisa sobre o assunto. Isso me deu um prazer imenso e me incentivou muito. Agora estou aproveitando todo o material.

Em poucos dias Torres estará indo a Angra dos Reis refazer a trilha de Cunhambebe. E nessa parte do livro vai dar vazão à ficção, criando um personagem que confronte as invasões de ontem e hoje:

O que me impulsiona a botar a minha alma nesse projeto é saber que os índios não tiveram escolha: era a escravidão ou a morte.

Embora possa ficar enumerando horas a fio as qualidades de Cunhambebe e as atrocidades cometidas em solo brasileiro pelos colonizadores. – “Sei que vou perder alguns amigos portugueses, ma a História é História, conforma-se ele- o autor não se esquece de seus outros filhos literários, principalmente as reedições de Balada da infância perdida” e “Os dos pés redondos”. Para ele, elas servem para relembrar aos leitores a construção de uma obra consistente.

A inspiração na História e nos versos de Lorca

– Há toda uma geração que ainda não tomou conhecimento desses livros, esgotados há muito tempo. Trazer esse acervo literário de volta mostra que tudo faz parte de um processo. Meu romance mais recente não nasceu hoje, faz parte de uma parede que estou construindo há tempos.

Ao reler “morrendo de medo”, por exemplo, “Os homens dos pés redondos”, de 1973, uma espécie de alegoria sobre os estertores do salazarismo em Portugal – refletindo a vivência de Torres naquele país durante três anos – ele diz ter ficado gratamente surpreso.

– Afinal é um livro de 1973, eu era jovem, me sentia um bicho solto no mundo – compara o escritor, que em breve terá reeditado seu não menos elogiado “Um táxi para Viena d’Austrália”. – Mais fiquei alegre porque ele se mantém atual.

Atual também, lembra o autor, é a “Balada da infância perdida”, do começo dos anos 80, e que mostra 25 anos de História do Brasil. A obra foi inspirada num poema de Lorca, ”Balada da pracinha”, com as lembranças do verso, Torres escreveu o romance.

As reedições e o lançamento do livro,” Meninos, eu conto”  vem somar-se à uma produção  contínua, que desde 1996, com o livro sobre o Centro do Rio, vem rendendo louvores ao escritor. Em 1997 ele lançou “O cachorro e o lobo” (já traduzido para o francês) e, em 1998, “O circo no Brasil”, um belíssimo volume de luxo editado pela Funarte.

Para o autor, escrever não é um ato solitário

Entre homenagens como o recebimento do título de chefe des Arts et des Lettres, concedido pelo Governo francês, durante o Salão de Livro de Paris em 1998, e o empréstimo de seu nome à biblioteca pública de sua cidade natal – abrigada na escola primária em que ele rabiscou suas primeiras linhas – Torres vai construindo sua sólida parede literária.

Dessa parede fazem parte temas que lhe são sempre caros, como a memória afetiva, explicitada nos delicados textos de “Meninos, eu conto”. Nas narrativas “escritas mais com o coração do que com a razão”, como diz o próprio autor na apresentação do livro, está a palavra calorosa, quase íntima do leitor, marca dos textos de Torres.

– Ainda hoje, quando eu vou escrever um romance, me vem à memória aquele garoto que redigia cartas lá no interior da Bahia – conta o escritor. – Eu gosto de castas porque são dirigidas a uma pessoa, estou falando com alguém que estaria ali na minha frente, Por isso não acho escrever um ato solitário e isso transparece em meus livros, além de estar como os personagens à minha volta, estou me comunicando com alguém que é muito real.

Entrevista a Carlos Ribeiro

ENTREVISTA – Antônio Torres lança edição comemorativa de 25 anos do romance Essa Terra.
Jornal A Tarde – 11/06/01
Carlos Ribeiro

“SEMPRE ME COLOQUEI AO LADO DOS OPRIMIDOS”

Um dos mais importantes romances da literatura brasileira contemporânea, Essa Terra, de Antônio Torres, ganha reedição comemorativa aos 25 anos, pela Record. O acontecimento trouxe, mais uma vez, o escritor baiano, autor de O Cachorro e o Lobo e de Meu Querido Canibal, para debaixo dos holofotes: somente na X Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, realizada recentemente, ele participou de dois debates e de uma sessão de autógrafos, no estande da Record. A agenda cheia do escritor inclui a participação em um café literário, na Piazza Navona, em Roma, e (ainda este ano) na Feira Internacional do Livro em Guadalajara, no México, onde será lançada a edição em espanhol de Essa Terra, pela Casa de Las Américas. Além disso, já foi proposta, por uma editora espanhola, a publicação de Meu Querido Canibal, para todos os países de língua hispânica.

Na entrevista a seguir, feita no café da livraria Letras e Expressões, em Ipanema, Torres fala sobre o interesse crescente pela obra dele, sobre os temas que ela suscita, como a solidão, o suicídio e o sentimento de não-pertencimento de seus personagens. E afirma: “É preciso que os autores regionais persigam um texto que esteja inserido na contemporaneidade e que estejam mais afinados com as questões do nosso tempo”.

P – Ao que você atribui o interesse crescente por sua obra, além, é claro, de sua evidente qualidade literária?

R – A um conjunto de fatores: primeiro, da minha inserção no quadro internacional. Os meus livros estão sendo editados em muitos países, têm sido temas de teses em várias universidades, na Itália, na Alemanha, em Portugal. Tenho recebido convites para vários congressos. Deve-se considerar, também, a minha passagem para a editora Record, num momento em que ela deixava de ser um contêiner de best-sellers estrangeiros, para tornar-se uma grife de autores nacionais, com a entrada de Luciana Villas-Boas.

P – A Record está reeditando seus livros anteriores. Isto se deve ao sucesso alcançado por o Cachorro e o Lobo?

R – Consegui, com a edição de O Cachorro e o Lobo, uma unanimidade da crítica, em 1997. Ele ficou nas listas de melhores e ganhou o prêmio hors-concours de romance da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro. No ano passado, foi publicado na França com uma excelente repercussão, não só da crítica francesa, como da belga e da suíça. Daí, a editora fez um programa de novas edições: relançou Os Homens dos Pés Redondos e a Balada da Infância Perdida, publicou o livro de contos Meninos, Eu Conto e lançou, fortemente, Meu Querido Canibal. Todos tiveram enorme repercussão.

P – O sucesso dos seus livros são uma prova de que é possível ser um autor bem-sucedido sem fazer concessões?

R – Sim, e isso me dá uma grande satisfação, porque nunca escrevi nada para ser vendido. Nunca fiz concessão de espécie alguma, nem política, nem ideológica, nem mercadológica. Nunca submeti meu texto a uma ideologia, embora seja um autor de esquerda. Sempre me coloquei ao lado dos oprimidos.

P – Você se considera, como os personagens do seu livro, um retirante?

R – A minha trajetória pessoal de retirante plasmou meu próprio texto, minha escrita. O fato de ter sido arrancado da minha terra foi fundamental na construção do meu imaginário e isso se reflete no meu texto. Carlinhos de Oliveira dizia que o meu texto situava-se no eixo do deslocamento nacional. Eixo de mão dupla: deslocamento externo e o interior, da repercussão dessa viagem dentro dos personagens. Isso dá um caráter diferenciado dos autores localistas. Essa Terra não é regional, no pé da letra. Por isso, talvez, ele seja cada vez mais apreciado no exterior.

P – Isso se deve também ao fato de suscitar questões relativas aos Estudos Culturais, tão em voga atualmente nas universidades americanas?

R – Existe uma contextualização dentro do quadro internacional. Ele está sendo discutido dentro de questões contemporâneas, como o pós-colonial, o lugar do não-pertencimento, do descentramento do homem no seu espaço cultural. Tudo isso leva o texto a ser enquadrado dentro dessa discussão.

P – Qual o problema principal dos escritores que moram fora do eixo Rio-São Paulo?

R – Afora os mineiros e os gaúchos, todos reclamam dessa questão de estar fora do eixo Rio-São Paulo. Eu penso o seguinte: é claro que existe uma concentração excessiva da produção, da distribuição e da circulação nesse eixo. Mas, no caso do Nordeste, a coisa agrava-se por falta de iniciativas locais que criem pólos regionais fortes na área do livro. Existem estatísticas que apontam para um número muito baixo de vendas de livros em todo o Nordeste: apenas 14% em todo o quadro nacional. Isso enfraquece as editoras da região.

P – É preciso realmente morar no Rio e em São Paulo para se conseguir uma projeção em nível nacional?

R – Existem muitos autores que penam por não estar aqui (lá), onde as coisas realmente acontecem. Inclusive gente que vem com produção desde os anos 60 e não consegue retomar o passo no eixo editorial. Mas, no caso da Bahia, existem nomes de muita visibilidade nacionalmente. É o caso de Ruy Espinheira Filho e Ildásio Tavares, que têm seus espaços. Luiz Antonio Cajazeira Ramos está despontando bem por aqui (lá). Agora mesmo, Myriam Fraga participou do júri de um prêmio importante, o Maison de France – Finac, do Consulado Francês, que vai premiar a melhor tradução francesa no Brasil, nos últimos anos.

P – A questão básica, me parece, não é de discriminação em relação a escritores de outras regiões, mas de uma certa indiferença com relação a quem não está convivendo ali, num mesmo espaço…

R – O que eu acho é que os baianos precisam mexer-se mais. Mesmo porque, não é verdade que se fechem as portas para autores nordestinos. O Rio é muito aberto, basta ver a quantidade de autores de outros Estados que se integraram à vida cultural da cidade, como José Lins, Graciliano Ramos, Rubem Braga, Fernando Sabino. É preciso estar no lugar certo. Glauber Rocha dizia que todas as cidades são uma aldeia nos seus lares e bares, e a aldeia do Rio de Janeiro é a zona sul. É Copacabana, Ipanema, Leblon. O badalo aqui é no centro da cidade ou nesse eixo.

P – Como você vê a produção literária que é feita hoje fora desse eixo?

R – É preciso que os autores regionais persigam um texto que esteja inserido na contemporaneidade, que estejam mais afinados com as questões do nosso tempo. É preciso sair da dicção neoparnasiana, neo-rilkiana, da qual muitos poetas de hoje estão impregnados. Isso não só no Nordeste, como também no Rio. Devemos evitar o modernoso, mas é preciso estar mais afinado com a linguagem da contemporaneidade.

P – Que diferença existe entre a abordagem do sertão em seus livros e a do romance realista dos anos 30, por exemplo?

R – Hoje, o Brasil urbanizou-se e, talvez, os meus livros estejam preenchendo esses espaços, mas numa perspectiva muito diversa. Na verdade, existem muitos livros com a dicção dos anos 30, e não dá mais para se fazer isso. O Nordeste hoje continua com problemas dos anos 30, mas já não é mais o mesmo. A urbanização chegou lá. Eu estive agora em Junco, atual Sátiro Dias. O que vi lá: uma cidadezinha cheia de antenas parabólicas, internetada, asfaltada, mas triste. Os jovens estão todos fora e lá é, agora, um mundo de velhos indo para a igreja, encomendando a alma a Deus porque estão perto da morte. Havia uma sociabilidade que não tem mais hoje. É desse interior que estou tratando. O Cachorro e o Lobo trata disso.

P – O que permanece igual? O que liga o agora com o passado?

R – Uma coisa, que havia antes, continua: o suicídio. Um primo meu se enforcou, e as pessoas dizem: igualzinho ao seu livro. Há casos de suicídios de crianças: uma menina de 15 anos e um menino de 16 mataram-se. Uma amiga fez algumas perguntas que calaram fundo em mim: Como foi, o quê, por quê? Algo ligado à solidão? À falta de perspectivas? Esse é o problema existencial mais forte do ser humano. Camus tratou disso em O Mito de Sísifo, quando disse: pouco importa que o dia tenha 24 horas, que a Terra tenha movimento de rotação, quando o homem se pergunta se vale a pena viver.

P – O suicídio está relacionado ao desenraizamento físico, geográfico, que passa a ser um desenraizamento existencial?

R – A questão resume-se no seguinte: talvez o homem que troca o seu lugar por outro perca o seu lugar e não conquiste o outro. Refiro-me, no caso, à massa de retirantes. Vale dizer que não é a seca que expulsa, é a civilização que atrai. Ela cria a sedução do progresso da modernidade. Senti isso na minha infância com o surgimento, em Junco, do primeiro caminhão, que endoideceu o lugar. Era a promessa do divertimento, o sonho do consumo, surgido no final dos anos 50. A estrada era a viabilização do sonho de partir.

P – Um sonho semelhante, hoje em dia, aos brasileiros que vão morar no exterior?

R – Sim, daí o fato de os meus livros encaixarem-se na questão da diáspora, do lugar do não-pertencimento, tratados na contemporaneidade. O texto acopla-se nessa questão, que é um fenômeno novo, no Brasil, que é o da migração para o exterior. O cineasta Paulo Thiago me disse: “O seu personagem não está em São Paulo, ele está nos Estados Unidos”.

Entrevista a Zora Seljan

Jornal de Letras – Número 91,  março de 2006
Entrevista a Zora Seljan

O Romancista Antônio Torres e a conquista de uma linguagem

Romancista posterior à onda maior do romance nordestino dos anos 30 do século passado, retratou Antônio Torres um Nordeste diferente, embora ainda firme na ação de sua gente. Seus personagens representam um Brasil que mudou, de modo que seu domínio da narrativa se insere com perfeição da linha ficcional de um tempo também novo. Sua entrevista revela a consciência desse domínio.

ZS: Entre Um cão uivando para a Lua, seu primeiro romance, e O Nobre Seqüestrador, como desenvolveu seu conceito de romance como obra de arte?

AT: Permita-me, querida Zora, começar indo mais longe no tempo. Se o Dom Quixote, de Cervantes, que teve sua primeira parte publicada há quatrocentos anos, foi “o primeiro verdadeiro romance da literatura universal”, digamos que o gênero surgiu para desestabilizar as certezas humanas, no entrechoque da fantasia com a realidade, fazendo-nos duvidar das verdades absolutas. Chegou à sua era de ouro no século XIX. Basta lembrar alguns casos exemplares dessa era: Dostoiévsky, Tolstói, Flaubert, Eça de Queiroz, Machado de Assis. Foi então que outro destes gigantes, Honoré de Balzac, conceituou o romance à perfeição. “É preciso desfolhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista” – escreveu ele, acrescentando: “Porque o romance é a história secreta das noções.”

No século XX, caberia a James Joyce quebrar a sua estrutura linear, ao enveredar por labirínticas experimentações, com mergulhos nos fluxos de consciência, estes explorados à exaustão também por William Faulkner, o fundador de um território mítico que abarcaria as águas do Mississipi, no qual confluiu o São Francisco do nosso Guimarães Rosa. Eles eram parentes. E bem próximos. O meu conceito? Para mim, o romance é uma espécie de baralho, com todos os naipes, que você pode embaralhar do jeito que quiser, mas no fim todas as cartas têm de estar lá. Ou seja, no fim, tem de ter começo, meio e fim. E literatura, em qualquer dos seus gêneros, se resume à conquista da linguagem e ao domínio do estilo. È o seu destino inescapável.

ZS: O Nordeste de seu Essa Terra mudou muito depois desse romance. E tendo sido de 1997 a retomada da cidade como chão da narrativa, em O Cachorro e o Lobo, terá havido novas mudanças, depois disto?

AT: Preciso voltar à terra do Essa Terra – um livro de 1976 –, para ver se existem novas mudanças. O que, aliás, é meu projeto para este ano. Mesmo à distância, soube de uma que pôs o lugar na linha de fogo da contemporaneidade. Em O cachorro e o lobo – que é o Essa terra revisitado, vinte anos depois –, descrevo o primeiro assalto acontecido lá. Era pura ficção. Logo após a sua publicação, recebi a notícia de que o assalto ficcional se tornara realidade. Foi à agência local do Banco do Brasil. E com muita violência. Algumas coisas mudaram para melhor, sem dúvida – nas comunicações à distância, transportes, saúde e educação. Outras, para pior, com certeza. Como a perda da velha e boa sociabilidade, do tempo em que não havia televisão

ZS: Como vê a ficção nordestina (de José Lins do Rego, Graciliano ramos, Jorge de Lima e Antônio Torres) no contexto geral do romance brasileiro?

AT: Fico muito honrado por você me pôr no rastro desta linhagem. Mas não nos esqueçamos do pai de todos: José Américo de Almeida. Foi o próprio Jorge, o Amado, quem um dia me disse isso sobre o Zé Américo. Os escritores do ciclo nordestino formaram uma tropa de choque que deu ao romance brasileiro expressão nacional. Alguns deles o levaram ao mundo, com Jorge Amado, o capitão de longo curso das nossas letras, comandando a navegação. Todos eles me deram régua e compasso, para lembrar o verso memorável de Gilberto Gil em “Aquele Abraço”. Talvez para as atuais exigências da crítica literária – sobretudo a crítica universitária –, eles, aqueles poderosos romancistas do Nordeste, tenham mais significação pelo seu ideário ético do que pelo estético, com exceção de Graciliano e Jorge de Lima, que parecem cada vez mais firmes nas duas pontas do processo.

ZS: Como vê a literatura brasileira, e a ficção em particular, neste sexto ano de um novo milênio?

AT: Vejo muita gente talentosa entrando em cena, se destacando pela agilidade técnica. Tendência: foco nos transes urbanos, tendo ao fundo as pegadas de Rubem Fonseca, principalmente no Rio de Janeiro, mas também entre novos autores de São Paulo, onde são bem notórias as influências de escritores norte-americanos que estiveram na moda em tempos relativamente recentes. Refiro-me a Charles Bukowski e John Fante. Ressalva-se que algumas moças já conseguiram se desgarrar das mãos de Clarice Lispector. E prestemos atenção a dois ficcionistas fora desse eixo: Miguel Sanches Neto, do Paraná, e Raimundo  Carrero, de Pernambuco. E se não cito mais nomes é para não transformar esta resposta numa espécie de lista telefônica.

ZS: Que ficcionista estrangeiro considera representativo do nosso tempo?

AT: Pergunta difícil de responder, não é, não? Meu coração balança entre três. Um europeu, o Zé Saramago, um sul-americano, Gabriel García Márquez, e o norte-americano Norman Mailer. Eles representam o que ainda existe de escritor como figura pública. Quem sabe serão os últimos?

ZS: Os sonhos mudam. Em entrevista de quase dez anos, foi um. Qual vem a ser o seu sonho no momento?

         AT: O mesmo de um personagem de William Sorayan, em Um dia no crepúsculo do mundo, que tudo que esperava da vida era poder pagar as suas contas.

ZS: Que livro está escrevendo neste 2006?

AT: Outro romance. Mas se eu lhe contar de que se trata, minha mente dará por escrito e ele ficará empacado. Sábios são os mineiros, que trabalham em silêncio.

ZS: O que representou para você ganhar o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da sua obra, a mais alta láurea da Academia Brasileira de Letras, no ano de 2000?

AT: O Prêmio Machado de Assis representou um inesperado reconhecimento, pois se trata, sem dúvidas, da conquista da mais alta láurea que um escritor brasileiro pode almejar, no seu país. O meu sentimento foi o de que toda a minha luta com as palavras não havia sido em vão. A emoção se tornaria ainda maior durante a cerimônia de entrega do prêmio, na ABL, pela forma extremamente afetuosa com que os acadêmicos me receberam.

ZS: Em 2001, com seu romance Meu querido canibal, que retrata a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, você ganhou, também, o Prêmio Zaffari & Bourbon, promovido pela 9ª Jornada Nacional de literatura, de Passo Fundo. O que sentiu?

AT: Eu tinha sido convidado para participar do evento, com palestrante. Poucos dias antes de partir, li no Globo que o Canibal estava entre os dez finalistas. A matéria era ilustrada por duas fotos: a minha e a do acadêmico e senador José Sarney. Cá com o meu senso sertanejo de realidade, achei que ele ia levar o prêmio, por tudo que representa nas letras e na vida pública. Chegando lá, me puxaram para uma das primeiras filas. Quase 5 mil pessoas a postos no auditório. No palco, discursos. Do governador do estado, do prefeito de Passo Fundo, do reitor da Universidade, da professora Tânia Rösing, a organizadora das Jornadas Literárias. E eu com um frio na espinha. Finalmente, chega o grande momento. “O Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de 2001 vai para… (Tchan-tchan-tchan!): Nür na escuridão, de Salim Miguel e… Meu querido canibal…” Câmeras e microfones nas nossas caras. A primeira pergunta veio na minha direção: “O que você achou da divisão do prêmio?” Respondi, na bucha: “Não houve divisão. Foi uma soma para a literatura brasileira.” E isso pipocou nos noticiários televisivos daquela noite e virou manchete na imprensa gaúcha, no dia seguinte. Pronto, eis que senti e ainda sinto. Não é bom poder somar?

Entrevista a João Carlos Teixeira Gomes

Jornal A Tarde – Salvador, Bahia – sábado, 26/08/2000.
Entrevista a João Carlos Teixeira Gomes

Desde o Junco, veredas do brasileiro Antônio Torres

Esse jovem senhor que está à minha frente – quase 60 anos bem vividos e espalhados por Oropa, França e Bahia, que se completarão em 13 de setembro – é hoje um romancista consagrado, que acaba de receber, pelo conjunto da sua obra, o Prêmio Machado de Assis, conferido anualmente pela Academia Brasileira de Letras. Toda a sua trajetória intelectual iniciou-se nos idos de 1960 no recém-fundado Jornal da Bahia, para começar pelo jornalismo uma vocação que os anos só fizeram confirmar e amadurecer.

Devo personalizar o meu depoimento porque fui seu chefe de reportagem no então novo matutino, que reunia uma equipe brilhante, constituída de profissionais já tarimbados e jovens valores que surgiam com a missão de renovar o jornalismo baiano. Entre estes, Antônio Torres, de início retraído e mesmo tímido, o moço interiorano nascido no longínquo Junco (hoje Sátiro Dias) que vinha tentar a sorte na cidade grande e logo se destacou pela qualidade do seu texto e pela sua curiosidade de repórter, compondo com Humberto Vieira a melhor dupla da sua geração. Dedicados, profissionais competentes.

Irrequieto, o menino Torres, entre todos o mais afável e disciplinado (depois ele confessaria ter-me achado um chefe de reportagem estourado e intransigente, mas disciplinador), não esquentou cadeira no JBa. Sem demora, arrumou as malas e seguiu para São Paulo, onde, ao lado do jornalista, surgiriam o romancista e o publicitário. Pensou de início em fixar-se no Rio, que não pôde sequer ver direito em trânsito pelo aeroporto Santos Dumont, mas sua condição de interiorano impeliu-o primeiro para a megalópole paulista, na qual começou a trabalhar na Última Hora, nos tempos tumultuados que se seguiram à renúncia de Jânio Quadros, estimulada por algumas doses extras de uísque, como o confirma Foster Dulles na sua alentada biografia de Carlos Lacerda.

Na verdade, o sonho do jovem Torres – que os amigos chamavam de “o menino do Junco” ou “Tote” – não era Rio ou São Paulo, mas sim Paris, embalado pelos exemplos de escritores famosos que ali viveram a melhor parte de suas vidas, como Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Não chegaria a morar em Paris, mas na capital francesa recebeu conferido pelo ministro da Cultura em 1998, o título de Chevalier des Arts et des Lettres. Na Europa, seu centro de operações foi Portugal, onde morou em Lisboa e no frio Porto, temido pelas nortadas de que fala Miguel Torga num dos seus poemas, ou seja, as rajadas do vento montanhês que invadem a cidade durante o inverno. Como não se acostumava com elas, nordestino dos trópicos escaldantes, preferiu morar em Lisboa, onde foi hóspede querido do poeta Alexandre O’Neill, para o qual lia regularmente trechos de “Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.”

O’Neill se encantava não apenas com a prosa rosiana, quanto, da mesmo forma, com o sotaque sertanejo de Antônio Torres, que lhe parecia o mais adequado revestimento sonoro para as histórias de Riobaldo, que o poeta gostava de ouvir “em voz alta”. Três anos viveu Torres em Portugal de 1965 a 1968, quando resolveu voltar ao Brasil, apesar dos tempos politicamente tempestuosos instaurados pelo Ato Institucional número 5 e pela crescente radicalização da ditadura militar. Fixou-se novamente em São Paulo e começou aos poucos a descobrir o Rio, para onde se transferiu definitivamente em 1978, dividindo suas atividades entre a ficção e a publicidade. Em 1972, casou-se com a professora universitária Sonia Carvalhal, com a qual tem dois filhos; Gabriel, um craque da área da informática, com livro publicado, e Tiago, um jovem músico, baterista com músicas gravadas.

Em seu amplo apartamento da Sá Ferreira, em Copacabana, num dia europeu de um incaracterístico e muito frio inverno carioca, Antônio Torres recebeu-me para uma entrevista exclusiva a A Tarde Cultural, quem em seguida vai transcrita em forma de perguntas e respostas.

J. C. Teixeira Gomes – Você começou no jornalismo como repórter, no Jornal da Bahia recém fundado, que tinha uma equipe brilhante. O jornalismo ajuda a fazer o romancista?

Antônio Torres – No meu caso ajudou. E muito. Ser escritor foi meu sonho de criança, desde quando bati os olhos no livro de leituras da professora Teresa, na Escola Rural Prof. Anísio Teixeira, lá no Junco, digo, Sátiro Dias. Entrei para o Jornal da Bahia como quem entra num campo de treinamento. E lá havia escritores já tarimbados, como Ariovaldo Matos e você mesmo. Aprendi muito com vocês e com toda aquela redação maravilhosa. Tinha realmente um time brilhante, formado por nomes como João Batista de Lima e Silva, Flávio Costa, Muniz Sodré, Jeovah de Carvalho, Juracy Costa e muitos outros.

JCTG – O que foi mais marcante para você, no seu tempo de “foca” na Bahia?

AT – A minha estréia no jornal. Você, que era o chefe de reportagem, me mandou cobrir o movimento do porto. Cheguei lá, anotei as chegadas e partidas de navios, e dei o assunto por encerrado. No dia seguinte, você me mostrou o que os outros jornais noticiavam, e que eu não tinha visto no porto: contrabando, tiroteio, o diabo. Pela bronca, achei que minha carreira de repórter havia terminado ali mesmo, no primeiro dia. Ainda assim, fui merecedor de uma segunda chance – por piedade sua, talvez, diante da minha vergonha por tamanho fracasso. E aí você me mandou para o Necrotério Nina Rodrigues, onde dei de cara com o cadáver de um negão muito jovem que havia se suicidado. A visão do corpo do morto, estirado num estrado, começava pelos pés. E era apavorante. Mas pensei: “Hoje o Joca não me pega”. Isso porque me lembrei de um poema de Godofredo Filho sobre o absurdo de se morrer aos 18 anos. E assim comecei a matéria, que você passou para Jeovah de Carvalho, o chefe da reportagem policial. Para meu azar, Ariovaldo Matos, o chefe supremo da Redação, ia chegando à mesa de Jeovah naquele momento. Ari a leu e, de dedo em riste, disse: “Você pensa que está aqui para fazer literatura? Isto aqui é jornal, rapaz!” De nada adiantou Jeovah defender a minha matéria, dizendo que era bonita, que tinha “poesia”. Ari não quis conversa. Foi à sala dele, pegou um livro norte-americano intitulado Introdução ao Jornalismo e me passou o livro dizendo: “Só volte aqui depois de ter lido isto”. Bom, não foi um castigo dos piores. Li o tal livro. Grande Ari! Foi ele, sim, quem me deu a chave do tesouro.

JCTG – Quando sentiu que o seu caminho literário era a ficção? A experiência do publicitário absorveu o romancista mais do que devia ou lhe estimulou a criatividade?

AT – Quando eu era menino, se me perguntassem o que queria ser quando crescesse, a resposta seria: “Castro Alves!” Comecei rabiscando versos, que escondia debaixo do colchão, para que os adultos não os descobrissem. Isso lá no Junco. Mas foi no Ginásio de Alagoinhas que um professor me disse: “Seu negocio não é a poesia. É a prosa.” Pelo visto, ele estava certo. Agora, quanto à minha experiência na publicidade, foi extremamente enriquecedora para o meu texto. No jornalismo, aprendi a ver o mundo. Na publicidade, a contar o que vi com poucas palavras. Quer um exemplo? Eu tinha material bastante para fazer do Meu Querido Canibal um livro de mil páginas. E o fiz com menos de duzentas! A publicidade me ensinou a arte da síntese.

JCTG – Antônio Torres é um continuador ou herdeiro da tradição regionalista da ficção brasileira, consagrada com o romance nordestino de 30?

AT – Creio que tenho um pé na tradição e outro fora dela. Nos meus anos mais vulneráveis e juvenis, li muito os romancistas de 30. Mas também li Guimarães Rosa e Clarice Lispector, tanto quanto os meus contemporâneos.

JCTG – Vários de seus romances, sobretudo os iniciais, fundem regionalismo com memorialismo, na linha de 30, traduzindo suas vivências familiares e rurais no Junco. O memorialismo é fundamental na sua obra?

AT – O meu primeiro romance, Um Cão Uivando para a Lua, é urbaníssimo (ultra-sofisticado, no dizer do escritor baiano Marcos Santarrita). O segundo, Os Homens dos Pés Redondos reflete uma experiência minha em Portugal, nos estertores do salazarismo. É no terceiro, Essa Terra, que começo a viagem de volta às origens, São Paulo-Bahia, abrindo um ciclo que prossegue com Carta ao Bispo e Adeus, Velho, e ao qual retorno em O Cachorro e o Lobo. Nestes, sim, há uma fusão do rural com o urbano, o regional com o cosmopolita. Já sobre o memorialismo, comecemos pela receita que o doutor James Joyce passou aos romancistas, para os quais recomendava “memória, silêncio e astúcia”. E nunca me esqueci de uma frase a respeito, de William Faulkner, em Luz em Agosto (na tradução de Hélio Pólvora, se não me falha o bestunto): “É a memória, e não a dor, que faz você se lembrar de ruas selvagens e ermas.” E há ainda o título de Carl Gustav Jung, que não me sai da cabeça: Memórias, Sonhos, reflexões. Sonho que meus romances contenham um pouco disso.

JCTG – Quando você ingressou no jornalismo, no final da década de 50, estavam em voga as teorias da literatura engajada, estimulada pelas idéias de Sartre, o triunfo da Revolução Cubana e a convicção da vitória inevitável do socialismo. Isto o influenciou ou suas origens interioranas o tornaram naturalmente engajado?

AT – Não. Não me considero um escritor engajado, nesse sentido que você está dando. Li Sartre, num tempo em que todo mundo estava lendo Sartre. Mas também era leitor de Camus. E, para falar a verdade, os escritores que mais me marcaram foram os norte-americanos: Scott Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, Truman Capote, o Norman Mailer dos primeiros tempos etc. Hélio Pólvora e Léo Gilson Ribeiro perceberam isso, já na estréia.

JCTG – Seu último romance, Meu Querido Canibal, desvia o seu percurso regionalista-memorialista ruma à ficção de fundamentos históricos, tocando inclusive a linha hoje rara do indianismo. Trata-se de nova tendência ou manifestação isolada?

AT – Não gostaria de ver o meu trabalho preso a um rótulo, como o de regionalista-memorialista, por exemplo. Sou da roça e sou da cidade. Sou do Junco e do Rio e Paris. Gosto de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e de Miles Davis, todos os trompetes havidos e a haver. Escrevi Meu Querido Canibal porque me encantei com um personagem chamado Cunhambebe, o primeiro herói deste país, e com a história da Confederação dos Tamoios, a grande epopéia da nossa colonização. Agora escrevo uma minisérie para a TV Globo, como escritor convidado do Doc Comparato. Mas já tenho planos de mais um personagem da nossa História. Gosto de variar, só isso.

JCTG – Você hoje é um autor plenamente integrado no Rio, cujos meios editoriais e culturais não raro constituem guetos fechados, preconceituosos em relação sobretudo ao que se produz no Norte e Nordeste, paraísos exóticos, tratados à francesa como se fossem “lá bas”. Glauber Rocha sentiu isto e chegou a qualificar o Rio de “balneário escroto”. É bem difundida – inclusive nos programas humorísticos de TV – a ironia carioca com a alegada “preguiça baiana”. Antônio Torres é hoje baiano, carioca ou baiano-carioca? Tal simbiose é possível? Se suas raízes estão intactas, qual o papel do Rio na sua ficção?

AT – Ufa! Haja fôlego! Mas vamos lá. Não consigo ver o Rio desta maneira. Acho que há até uma certa curtição do carioca pela Bahia, e não só pelo lado exótico. As piadas sobre a Bahia são simpáticas, nada ofensivas. Diria até afetuosas. Escritores baianos (para não se falar dos músicos, cineastas etc) sempre tiveram muito espaço aqui. Foi no Rio que Glauber Rocha encontrou patrocinadores para alguns de seus filmes mais importantes. Aqui ele aconteceu mesmo. Oh, Joca, e onde os seus livros estão publicados? E os do Ruy Espinheira Filho e Ildásio Tavares? Pouquíssimos autores daqui têm espaço que João Ubaldo e eu temos. E de onde viemos? Não pense que basta ser do Rio ou estar nele para se ter as portas da edição e divulgação abertas. Há muita gente boa no eixo Rio-São Paulo que não consegue acontecer. Claro que há uma absurda concentração nesse eixo. Mas por que o Nordeste não reage, criando seus próprios meios de produção e difusão, em âmbito nacional, como faz o Rio Grande do Sul? E pergunto mais: não será que é o próprio Nordeste, numa política “for export”, que procura se vender pelo lado exótico, “Sun, sex and sea?” Quanto a mim: sou baiano e brasileiro, carioca, paulista e estrangeiro. E isto, de alguma maneira, sempre vai embasar o que escrevo.

JCTG – O Brasil continua o “arquipélago cultural”, constituído por ilhas isoladas, denunciado por Viana Moog em ensaio famoso?

AT – Sim, porém hoje é um arquipélago internetado e ligado na Rede Globo. Acabo de fazer uma longa viagem por 17 cidades, de Pirapora, em Minas Gerais, a Fortaleza. E o que vi foi um país em rascunho. Rascunhos de Miami ou sei lá o quê. Fora das capitais, não vi livraria nenhuma, em cidades até grandes ou inchadas. Mas todas elas têm casas de vídeo pornô, atulhadas de fregueses. E em todos os restaurantes se come de olho na televisão, a todo volume, catatonicamente. Em Paulo Afonso, na nossa Bahia, não consegui dormir com a barulheira das buzinas e dos sons dos rádios dos carros, a noite toda, repetindo sem parar a gravação dos gols do Flamengo, que havia ganhado um jogo… no Rio! O arquipélago está agora batendo um sorvete na testa, oligofrenicamente!

JCTG – Como um romancista regionalista vê o romance de fundamentos psicológicos? Por que nunca tentou a poesia?

AT – Meu Deus! Lá vem você de novo com essa história de regionalismo. Por que ninguém chama o Faulkner de regionalista? E ele era do Sul dos Estados Unidos… Quanto ao romance psicológico: há personagem sem fundamentos psicológicos, na era pós-Freud, pós-Dostoiévski, pós-James Joyce? Já em relação a poesia, é nela que bebo o que se chama de literariedade. Mas não me arrisco a escrever poesia, por total incapacidade. Contento-me em ser leitor dos poetas.

JCTG – Obras de ficção podem ajudar o Brasil e o mundo? No ano 2000, como um romancista deve conceber o seu real papel na sociedade?

AT – Primeiro, lemos obras de ficção pelo prazer da leitura, digamos, o prazer estético. Depois, sem que percebamos, essas obras vão nos transformando. Sim, a ficção pode levar o Brasil a se conhecer mais profundamente, já que o romance é a história secreta das nações, como dizia Balzac. O real papel de um romancista? A do intelectual de modo geral: lutar pela sobrevivência da espécie. A esta altura da peleja, chega a parecer que somos uma fauna de extinção.

JCTG – Há um grande desencanto popular hoje no Brasil com o governo FHC e com a classe política geral. Como o escritor Antônio Torres vê o drama histórico do nosso povo? Qual a atitude do escritor e jornalista diante das elites egoístas e corruptas, que gastaram milhões de dólares para eleger e manobrar candidatos? Há verdade eleitoral no Brasil?

AT – Nas minhas pesquisas para escrever Meu Querido Canibal, dei com os olhos numa carta de um vice-rei do Brasil (acho que foi Luís de Vasconcelos), que relatava para a Corte de Lisboa a sua estupefação em relação ao que Portugal havia enviado para cá: aventureiros que não vieram para construir um país, mas para se enriquecerem rapidamente, ainda que para isso tivessem que arrasar a terra. Nessa carta ele falava também da corrupção que campeava por aqui. Judiciário corrupto. Clero corrupto. Comerciantes corruptos etc. Qualquer semelhança com a atualidade… não será mera coincidência! Ou seja: a mentalidade preparatória continua. Eleição após eleição é sempre a mesma história: nosso povo acredita nos candidatos, se ilude com eles, vota neles. E o resultado é o que se sabe. Nossa atitude diante disso? Já nem sei. Denunciar faz efeito?

JCTG – Você é muito estimado pelos seus velhos amigos da Bahia, mas me disse recentemente que a imprensa baiana não lhe tem dado o relevo conferido pela de outros Estados. Responda sem deixar que o diplomata se sobreponha ao escritor.

AT – Acho, sinceramente, que a Bahia hoje está mais para o Carnaval – e o Carnaval baiano é imbatível, diga-se –, e outras manifestações da cultura popular, do que para as atividades literárias. Alguns escritores baianos, meus amigos, partilham também deste meu sentimento. Lançar livro em Salvador é decepcionante: vão aqueles velhos camaradas e só. A imprensa não dá destaque. Fica uma coisa meio perdida, no tempo e no espaço. Senti muito mais vibração, por exemplo, num salão de livro em Caiena, na Guiana Francesa, do que na Feira do Livro da Bahia.

JCTG – A literatura baiana não repercute no Rio e em São Paulo, apesar de os lançamentos se sucederem em Salvador, onde moram e trabalham grandes poetas, contistas, historiadores, pesquisadores etc. Qual a causa desse novo enigma baiano?

AT – Volto a bater na mesma tecla: você pensa que tudo o que se produz no Rio e São Paulo tem repercussão? Ledo Ivo engano. Eu mesmo sou hoje publicado, e muito bem, pela Record, uma editora que lança no mercado 30 livros por mês, um por dia! Você acha que todos vão repercutir? É uma briga de foice por espaço, na imprensa e nas livrarias. Não se esqueça que este País tem menos livrarias do que a cidade de Buenos Aires. E que o Nordeste inteiro, da Bahia ao Maranhão, representa apenas 14% das vendas de livros. Isso não enfraquece muito a posição dos autores da região? Causa-me preocupação esse atual sentimento baiano de exclusão. E me pergunto: por que uma cidade como Salvador, com todo o peso da sua tradição, toda a sua importância, e tantos criadores literários, não tem uma editora competitiva, em nível nacional?

JCTG – Defina a literatura que se escreve hoje no Brasil.

AT – Tenho andado assoberbado de trabalho, sem tempo de acompanhar o que se escreve hoje, como gostaria. Do pouco que tenho lido, gosto muito do poeta cearense Adriano Espínola, do ficcionista pernambucano Raimundo Carrero, dos baianos Ruy Espinheira Filho e Ildásio Tavares, do paulistano Bernardo Ajzenberg, do carioca de São Paulo Bernardo Carvalho. Os baianos têm o sabor do lirismo bem temperado, de fatura clássica. Os outros buscam caminhos mais cosmopolitas, de inserção na pós-modernidade. E mais não posso dizer, por falta de tempo para acompanhar.

JCTG – Ter ganhado o Prêmio Machado de Assis é sinal de que o romancista Antônio Torres já está com um pé (ou os dois) dentro da Academia Brasileira de Letras, reforçando a bancada baiana?

AT – Ganhar o Prêmio Machado de Assis deste ano 2000 foi para mim uma grande surpresa. Qual o escritor deste País que não ficará contente com um prêmio com este nome? Mas pensa em entrar para a Academia já é uma questão delicada. Prefiro não pensar nisso, por toda a delicadeza que o assunto envolve. Delicadamente, permita-me ficar por aqui.

Antônio Torres no Pajuçara Especial

Por ocasião da II Bienal do Livro de Maceió, em 2005, o escritor Antonio Torres deu uma das suas mais brilhantes entrevistas ao jornalista Ricardo Mota, no extinto programa Pajuçara Especial, da Tevê Pajuçara, à época, afiliada do SBT (hoje faz parte da Rede Record).

Em um bate-papo descontraído, entrevistador e entrevistado pareciam conversar à mesa de um boteco, falando de passado, de política, literatura e outros temas, sem cair na mesmice. A entrevista comove sem ser piegas.

São aproximadamente cinquenta minutos divididos em 5 partes, porque o Youtube só hospeda, no máximo, dez minutos de vídeo. Esta entrevista foi exibida quatro vezes, a pedido dos telespectadores alagoanos. Em conversa com Ricardo Mota, ele me disse:

– Tom, em quinze anos de programa nunca vi caso igual. São centenas de telefonemas, e-mails e cartas, pedindo pra reprisar.

Eis então que vos apresento essa antológica entrevista.

Ronaldo Torres (o Tom do Junco): Onde canta a acauã (http://coisasdojunco.blogspot.com)

https://youtu.be/5dZ8-g6h7Cg
https://youtu.be/kHGPZshfjKc
https://youtu.be/DPepZkGFLzI
https://youtu.be/Gr2TBC2Trzs
https://youtu.be/dDWG3NPy7Yw

Entrevista a Raquel Queiroz – Rio de Janeiro, Copacabana, 6 de setembro de 2005

ENTREVISTA COM ANTÔNIO TORRES

Antônio Torres iniciou sua carreira literária aos 32 anos quando lançou seu primeiro romance Um cão uivando para a lua, que causou grande impacto, tendo sido considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo “Os homens dos pés redondos”, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando com a publicação de Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo. Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Holanda, onde foram muito bem recebidos. Torres, porém, ampliou seu universo ficcional com a publicação de Um táxi para Viena d’ Áustria, em 1991, mostrando que possui a mesma desenvoltura para transitar por cenários rurais e urbanos.

Nessa entrevista, o escritor fez revelações surpreendentes do processo de criação e dos personagens no romance Um Táxi para Viena d’Áustria, que é o nosso objeto de estudo. Falou da experiência de viver na pele de um desempregado, não de modo conativo, mas de fato, como mais um, no início dos anos 90, época das fusões e do Plano Collor. Também, se posicionou quanto às questões da atualidade: o papel do escritor, do intelectual na sociedade do espetáculo. E, de como ele se vê fazendo parte desse cenário. Falou sobre sua experiência nas salas de oficina literária e de como o convívio com os alunos modificou o seu fazer literário. Apesar

de sua lucidez quanto às perspectivas presentes e futuras da literatura, ele dá mostras de que está presente na luta pela vitalidade do “contador de estórias”, como ele mesmo se define. Acreditando, principalmente, que sua participação como palestrante tem influenciado de maneira positiva junto às novas gerações de leitores.

Voilà, M. Torres a literatura brasileira penhorada, agradece.

1)- Em quem você se inspirou para criar o personagem Veltinho?

Primeiro, esse livro nasceu de um sonho. Uma noite, eu sonhei que matava um amigo no apartamento que eu descrevo, exatamente aquele apartamento que aparece no livro, naquele mesmo prédio, naquele lugar. Só, que o camarada que eu matava era outro, não era o dono real do apartamento. E, durante o sonho, eu matava o cara. Eu via uma arma, como está descrito no romance, e com aquela arma, que eu achava que era uma quinquilharia, uma coisa de decoração, dessas coisas compradas em brechó. E, então, quando o camarada, está escrito na “Barriga falante”, começava a falar de suas dores, e a barriga dele começava a falar, eu achava aquilo ali apavorante e atirava na barriga, meio a sério, meio de brincadeira. Quer dizer, eu não sabia no sonho que tinha bala, que a arma estava carregada, e que ela funcionava. Então, era como se fosse um teste da arma na barriga do sujeito e no sonho a minha intenção era matar a dor que aquela barriga estava sentindo. Bom, depois ele caía em câmara lenta e eu dava um segundo tiro pra acabar com a cara de horror dele. E, no sonho eu ficava muito feliz. Mas, eu nunca peguei numa arma na vida real, e no sonho isso aparece. Eu não era alguém que sabia atirar, não sei atirar, eu nunca tinha atirado, e pela primeira vez eu tinha dado dois tiros e tinha acertado os dois. Então, aquilo me dava uma euforia desgraçada, eu saía correndo, entrava num táxi e começava a rodar por todos os lugares das minhas referências. Ia pra Rodoviária, ia pra Bahia, aparecia na casa do meu avô na roça, encontrava um tio meu que me perguntava: o que é que você está fazendo aqui? Então, eu disse, bom, já deve ter chegado o jornal e ele já sabe que matei um homem. E, aí, eu perguntava, chegaram os jornais, já? Eles me diziam: jornal aqui na roça? Você está maluco. E, assim, eu ia pra São Paulo, como aparece no livro, modificado, quer dizer. Enfim, quando

eu acordei, estava extenuado, porque tudo aquilo parecia ter sido de verdade, ter acontecido mesmo. E, eu parei, fiquei pensando, e comecei a refletir: que violência! Sobre essa violência que eu carregava dentro de mim, que aparecia dentro de mim nesse sonho. Aí, fui fazer análise, fiquei um tempão, fazendo análise quatro vezes por semanas, deitava no divã, enquanto eu dava um tiro naquela barriga a analista remetia aquele tiro pra barriga da minha mãe. Quer dizer, eram meus irmãos que eu tava matando. Quer dizer, foi uma viagem fantástica. Enquanto isso, eu fui escrevendo o romance.

2)- E, a partir daí, veio primeiro o personagem ou a história?

Não, primeiro veio a história e a história era eu. Eu era o agente, eu era o ator principal da história, o personagem mesmo, eu e aquele outro, que eu matava, que é, como se fosse duas faces de uma mesma pessoa, quer dizer, os dois lados de uma mesma moeda. Mas, daí, claro que esse sonho contado dava uma página. Então, eu tive que criar um personagem que é o Veltinho, criar toda a história, e pôr aquele táxi, o engarrafamento, quer dizer o táxi parado, porque no sonho, o táxi está em movimento o tempo todo. Mas, a cabeça, a mente do Veltinho é que está fazendo a viagem imaginária para Viena, pra São Paulo, etc. Então, foi isso, primeiro veio o sonho, do sonho, eu concluí que era o meu subconsciente que tava trabalhando pra mim, me fornecendo de bandeja um material pra eu criar um romance. E, foi assim, que eu criei o personagem do Veltinho e o do Cabralzinho tal e qual aparece no sonho. Mas aí, tive que enriquecer com a dialética do discurso ficcional, o Cabralzinho vai crescendo, e vai se tornando um personagem forte.

3)- Então, com isso, você responde a pergunta, se houve algum dado da realidade que disparou o processo criativo a partir do qual você desenvolveu todo o enredo. No caso, não foi um dado da realidade, mas foi um dado onírico.

Mas teve um dado de realidade. Naquela noite, um amigo meu me telefonou, dizendo que estava com umas dores esquisitas nas pernas, e ele estava apavorado, porque o pai dele teve que amputar uma perna por

problemas circulatórios. E esse meu amigo estava muito queixoso e muito preocupado ao mesmo tempo, porque tinha que ir a um hospital público e não tinha nem aparelho de raios-X funcionando. Então, eu liguei para um médico meu amigo, que me deu o telefone do diretor do Hospital da Lagoa, dizendo pra ele, para esse meu amigo ir lá no Hospital da Lagoa procurar esse médico no nome dele, e que ele seria atendido. Fui dormir com essa preocupação, daquele amigo em relação às dores nas pernas dele. No sonho, as dores aparecem na barriga, e a barriga é que fala.

No dia seguinte, de fato, esse meu amigo foi lá, e, já depois que eu tinha sonhado e tudo, ele telefonou dizendo que foi muito bem atendido no Hospital da Lagoa, que o diretor lá tinha resolvido a situação dele. Mas teve esse dado de realidade. Isso me influenciou psicologicamente.

4)- Seguindo, então, essa linha de raciocínio, o perfil do sujeito em Um Táxi é marcado pelo trânsito e pela fragmentação. Você concorda? Ou você acrescentaria algum dado a mais a esse sujeito?

Sim, eu acrescentaria que é um sujeito perplexo diante das mudanças que começam a surgir. Esse livro foi escrito no final dos anos 80 para o começo dos anos 90, e foi reescrito em cima do período do Collor. Naquele ano brabo de confisco de poupança, de desemprego, disso, daquilo, etc. E, eu fiquei apavorado porque o livro foi relançado recentemente, e está fazendo uma boa carreira, já está com oito edições, teve cinco edições pela Record. Então, há esse momento de instabilidade que se instaura no país e no mundo, numa prévia do neoliberalismo, ou seja, um desconcerto, uma instabilidade de valores, uma instabilidade econômica, uma instabilidade de tudo, e que vai gerar uma instabilidade psíquica. Então, esse indivíduo, esse personagem está numa corda bamba, ele está sem ter em que se agarrar a não ser se deitar num banco de táxi e dormir. É o sono e o não-sono, é um momento de desconforto, porque dormir num banco de trás de um táxi não é uma coisa confortável. Então, isso já simboliza um momento de desconforto desse indivíduo, que é um desconforto que está instaurado na sociedade nesse momento.

Quando eu reli as provas, para o relançamento do livro eu fiquei apavorado, porque de certo modo aquilo era apenas um prenúncio do que

está acontecendo agora. Assim, o livro ganhou uma atualidade espantosa malheureusement. Eu acho que é isso, tem mais esse dado da instabilidade do indivíduo, do desconforto já assim nesse entrechoque de uma realidade de violência beirando ao caos.

5)- Todas as inferências do sujeito estão atravessadas pelo aspecto urbano e cosmopolita, de uma cidade como o Rio de Janeiro. Até que ponto o sujeito dessa cidade perdeu a privacidade por conta do desemprego, da violência, da propaganda e da globalização?

Ele perde, ele perde a si mesmo, ele já não tem mais tanto que, qual é a viagem que ele empreende? Uma viagem pra Viena d’Áustria onde disseram que há música nas ruas, e ele quer chegar à Catedral de Santo Estevão para assistir ao concerto de adeus ao século XX com toda aquela orquestra fantástica regida por ninguém menos do que o próprio Deus. Ora, o que é que isso denota? Que é um homem sem paz. Os dados da realidade na qual ele está envolvido o levam a não ter a menor paz de espírito. Essa coisa da Viena d’Áustria, pra mim, simboliza isso, sinaliza com essa possibilidade de nós vermos o personagem em busca de algum consolo espiritual, porque tudo em volta já desabou, já não tem mais um ponto fixo, para se apoiar, ele está totalmente desapoiado. Ele está desempregado, não está bem em casa porque a mulher já não suporta vê-lo em casa, os filhos perguntavam: não trabalhar hoje não, pai? E, o pai vê uma parede branca, todo o movimento dele é marcado por uma parede branca que o segue, quer dizer, ele fica ali emparedado. Então, ele é um camarada emparedado.

6)- Um Táxi foi publicado em 1991 e teve repercussão positiva da crítica e do público, ou seja, é um romance que agradou de um modo geral. Você acha que o texto ainda é atual? Ou, você faria ajustes na escritura, se você tivesse que escrevê-lo nos dias de hoje?

Bom, eu faria ajustes em todos os livros. Recentemente, foram relançados: Carta ao Bispo e Adeus Velho, e eu acabei dando umas mexidinhas, lá no finalzinho, uma coisinha ou outra. Mas, n’Um Táxi, provavelmente, que sim, se eu fosse pegar e ler, por uma questão de estilo. Mas, um livro, se você ficar, nunca acaba. Se você pegar as re-edições de

Guimarães Rosa, você vai ver que ele reescrevia praticamente tudo, uma coisa de louco. Mas, aí, você já está pensando algo à frente, você está cheio de trabalho, diz: bom, vale o que valer é isso aí. Mas me parece, e assim diz quem está lendo o livro agora, que é de uma grande atualidade, parece que ele adquiriu uma atualidade maior. Já que a violência cresceu, a instabilidade cresceu.

7)- E como foi o processo de criação?

O processo de escrita desse livro foi um inferno. Eu me criei essa instabilidade na época. Eu estava muito bem empregado numa agência de propaganda e pedi demissão. Cheguei numa parte do livro, e achei que algo estava me soando falso. Eu estava escrevendo sobre o desconforto de um desempregado, todo o seu estado de insegurança emocional, todo seu transe emocional com o desemprego, provocado pelo desemprego. E, no entanto, estava muito seguro, eu estava muito confortável. Então, eu pedi demissão. Eu tinha recebido os direitos autorais do exterior por causa do romance Essa Terra, que, na época, tinha saído em língua inglesa, estava indo bem. Tinha o Fundo de Garantia, tinha juntado uma coisinha ali. E, aí, eu calculei que tinha grana para me agüentar um ano ou mais. Então, eu calculei esse era o tempo que eu ia levar para preparar o livro, depois voltaria a procurar emprego. Eu queria sentir na pele o drama do desemprego naquele momento, a questão do vizinho, na rua, ia para o botequim ficava um tempão, e como é que as pessoas me olhavam. A relação familiar foi terrível, porque pegava o elevador e o vizinho perguntava: está de férias ou está doente? E, aí, comecei a sentir que estavam me vendo em casa. Hoje, isso já mudou porque quase todo mundo trabalha em casa, é uma coisa normal, e também já sabem que eu sou escritor, e que o escritor vive de escrever. Mas, naquele tempo, era mais complicado. Então, veio o tal do Plano Collor e levou todo o meu dinheiro. E, aí, eu não sei como é que eu não morri. Eu fiquei à noite na posse do Collor, pela televisão mudando de canal, e dava com a Zélia Cardoso de Mello, com aqueles dentinhos falando em t-i-t-u-l-a-r-i-d-a-d-e. E, aquilo era o assalto à nossa poupança. Eu estava reduzido a cinqüenta pratas, e isso não era nada. Foi um sufoco, porque você ligava para o supermercado,

e lá também já estava desabando. Até isso, voltar e re-arrumar, levou um bom tempo. Daí, o que foi que eu fiz? Reescrevi o livro. O livro já estava todo escrito, e eu reescrevi tudo. E, aí, foi fantástico, porque o editor me escreveu dizendo que o livro era muito bom, mas que do terceiro capítulo até o nono perdia fôlego. E, telefonei pra ele perguntando: mas o que é que é? Ele respondeu: não sei, dá uma olhada. Quando eu fui dar uma olhada. Claro que eu fui ver. Primeiro, com vontade, mas sempre quis fazer um livro todo em diálogo. E, daí, eu me perguntava: como que perdeu o ritmo, se eu fiz o capítulo todo em diálogo, exatamente para dar muito ritmo? E, aí, eu percebi, como se diz no popular: “tudo que é demais faz mal”. Quer dizer o excesso de velocidade também pode significar uma chatice. E, aí, eu levei um tempo reescrevendo. Agora, você vê que ficou um monólogo dialogado, já ficou uma narrativa com diálogos embutidos, ficou com outro estilo. E, isso foi a minha tábua de salvação ficar escrevendo durante os primeiros meses do tal do Plano Collor. E, aí, quando o livro saiu foi aquele estouro. Capa de caderno no país inteiro. Na noite de lançamento, no Rio de Janeiro, foi trezentos exemplares vendidos, filas de autógrafos, foi uma coisa. E, o livro pegou. Foi muito bom pra eu mudar de ritmo porque eu tinha ficado com uma marca muito forte. Embora, eu tenha estreado com dois livros urbanos, Um cão uivando pra lua e Os Homens dos Pés Redondos, mas eu tinha aquela viagem de volta ao sertão que é em Essa Terra, que foi uma explosão nacional, na época, estourou 30.000 exemplares, e já está na 21a edição. É, um fenômeno editorial que eu não sei como explicar. Daí, escrevi Carta ao Bispo, depois Adeus Velho, em seguida Bala da Infância perdida, que é urbano, mas é o sertão nas paredes de Copacabana. Assim, quando entrei no Táxi, entrei no Rio de Janeiro pra valer. Um pouco com medo disso, da linguagem, mas linguagem com carioquice, com toda a malandragem. Na época, me falaram, que eu juntei o popular ao clássico, já no título: táxi, popular e Viena d’Áustria, clássico. E, eu trabalho muito o título, tenho um fascínio por essa coisa do título. E, até hoje brincam comigo: vai pegar um táxi pra Copacabana? Ou pra Viena d’Áustria? Eu ligava pro editor em São Paulo, e a secretária dizia: “Ah, eu quero um táxi. Chama aí, um táxi pra me levar pra Viena d’Áustria”. Na

época, na resenha d’ O Globo saiu assim: “Um táxi para o primeiro mundo”.

8)- Quando você cria a situação limite do crime de Veltinho, que mata Cabralzinho, estaria, também, sugerindo que o escritor enquanto “uma voz independente” está impedido de existir?

Pode ser, e tem mais elementos aí, mais uma pista. Não se esqueça que era um publicitário que matava um escritor, e que eu era publicitário e escritor. E, o sonho me apavorou também por isso, era como se o publicitário estivesse matando o escritor. De alguma maneira, era eu me matando. Era um lado meu que estava me matando. Mas, com o correr da história, esse processo foi interessante, porque o que acabou foi o escritor quem matou o publicitário. Fiz o inverso ficcionalmente para na vida real acontecer o contrário. E, isso tem um simbolismo muito forte, porque você pra se exercer como escritor mesmo, você só consegue na hora que você mata simbolicamente os seus pais. Seus pais literários. E, aí, você diz: agora, sou eu. Tem algo aí, na direção da sua pergunta. Aliás, uma pergunta muito interessante, sobre a questão de matar os pais, os pares. Eu estou matando um escritor que é meu par, na verdade, o publicitário que eu era e o escritor que eu era, no sonho. Aí, escrevi o livro pra me afirmar como escritor. A criação do romance foi a afirmação do escritor sobre o publicitário.

9)- O que é a literatura hoje no Brasil e no mundo para você?

A literatura pra mim, hoje, é uma ave em extinção. Porque a partir do fim da História, a partir das decepções utópicas, tudo isso, que já se sabe. Estamos cansados de ouvir dizer, em que se instaura a instabilidade dos valores, o caos, o triunfalismo neo-liberal, o capitalismo que se tornou cada vez mais selvagem, que chegou e disse: ok, nós vencemos, só queremos vocês como consumidores. Então, muda tudo, muda toda a perspectiva da História. E, aí, entra a questão do mercado pesado, onde o dinheiro passou a ter um valor extraordinário. Tudo passou a ser muito caro, editar livro, distribuir, uma concorrência violenta, muito grande. E entramos no reino do descartável. Os livros têm que vender em um mês, a

partir daí, acabou, por causa do volume da economia de escala que nós vivemos. Mercado atulhado para um país de poucas livrarias, e de livrarias sem espaço para tudo o que se publica. É uma guerra de títulos.

Mas, a literatura não é assim. A literatura é uma coisa que vai aos poucos, as pessoas vão se descobrindo com o tempo. Esse é o quadro geral. Agora, por um milagre da natureza o meu livro está vendendo muito, ou seja, tem alguém me lendo. Acho isso um milagre para o tempo presente. Mas, concluindo, o que eu acho é que a literatura está em baixa. Não em baixa criativamente. Ela está em baixa como bem de consumo, cada vez mais você tem gente menos interessada em literatura. Por isso, que eu acho que a universidade tem um papel a exercer, ela pode ser a nossa reserva indígena. A gente não põe os índios na reserva pra não acabar com todos? Então, podia se fazer uma reserva pra nós, os escritores.

10)- Você acha que o escritor perdeu seu espaço no plano dos grandes debates nacionais e internacionais?

Totalmente. Hoje, o que querem de nós é que a gente vire pop star, vire celebridade. Temos que falar de um jeito performático, eu sei disso porque até eu sou usado nesse sentido. Os mais performáticos são os que têm mais platéia, veja o caso do Ariano Suassuna. Os escritores mais tímidos, ou mais reflexivos na sua fala, que não tem empenho de ator no palco, esses vão ser cada vez menos convidados para os eventos. O escritor tem que virar um ator, quer dizer o escritor fazendo parte do espetáculo, vivendo num cenário de espetáculo. Claro, que o nosso espetáculo também é limitado a pequenas salas. Mas, recentemente, enchemos essas salas duas salas do CCBB, a da conferência e a outra do telão. Eu encho os auditórios nas bienais, por aí afora, nas universidades, e em alguns espaços públicos. Mas, é um espaço meio privado, não é tão público assim. Ele não é tão público quanto o do pop star, você tem que ter um desempenho de pop star, mas o seu público não é do pop star. Porque vou falar para uma massa interessada jovem, que quer saber das histórias. Outro dia, eu estava no CCBB no debate sobre ficção com Sergio Santana e o Ítalo Moriconi, e a professora Therezinha Barbieri, da UERJ, que criou o projeto do escritor visitante, se levanta e me pede pra eu contar uma história que eu tinha

contado na Academia Brasileira de Letras. E, aí, eu disse pra ela, que tava um filho meu lá na frente, Thiago. Eu disse: Therezinha, toda vez que eu dava entrevista contando essas histórias, quando eu chegava em casa, meu filho me dizia: pai, outra vez! Mas essas eram as histórias que as pessoas queriam ouvir. Quando o Roberto D’Ávila gravou o “Conexão” (programa dele) comigo, ele disse: antes, conta aquelas histórias que o povo gosta. Então, eu fiz essa ressalva antes para ela, porque tinha um público muito variado na platéia, tinha jovens escritores, estudantes, porque eu não sei quem é o freqüentador do CCBB. E, aí, eu comecei a contar as histórias da minha infância. Pronto, esquentou. Foi aí, que esquentou. É baseado nisso, que eu te digo, que nem eu escapo de entrar no mundo espetáculo, ainda que seja o meu pequeno mundo do espetáculo.

11)- Você acredita que as ágoras poderiam resgatar a participação do público e de intelectuais nesses tempos chamados ou tidos como pós- modernos?

De repente, se alguém tentar pode ser até um sucesso. Mas, não sei. Nós não estamos mais no tempo de Castro Alves. Não sei. Mas não custa tentar. Mas eu acho que não teria coragem, ia me achar um camelô, ou iam me confundir como candidato a vereador.

12)- Você se acha um intelectual? Qual o espaço do intelectual?

Não, não me acho um intelectual. Me acho um ficcionista só, um contador de estórias. Obviamente, que um contador de estórias não é um gênio, mas é bastante cultivado, alguém que leu muito, que tem uma experiência de rua muito grande e também uma experiência de sala de aula muito grande como escritor visitante, palestrante, administrador de oficina literária, que me levou a ler de outra maneira.

Agora, o espaço público do intelectual ficou prejudicado. Ele perdeu o palco, perdeu no sentido do papel que o intelectual já exerceu no mundo. Se a gente for pegar um exemplo mais citado: Jean Paul Sartre, Albert Camus. Esse intelectual foi bastante veemente numa presença notória, que influiu no segundo pós-guerra. E, era a época da polarização do mundo, havia intervenção de um lado e de outro. As pessoas questionavam as

polêmicas, mas isso desapareceu. Acho que o intelectual, hoje, está mais encastelado na academia, ele está mais produzindo textos sobre textos do que interferindo no processo sócio-político e sócio-cultural. De repente, ele perdeu muito o espaço. É um pouco como a situação do escritor, ele tem que se tornar performático. Quem é convidado toda hora pra tudo? O Wisnik, por que? Porque é performático, faz aquilo de uma maneira atraente, ou seja, que não parece ser uma atividade intelectual, mas um show. Um show da intelectualidade. Os mais performáticos vão ser os mais simpáticos. Veja o caso da Marilena Chauí, quando ela dá uma conferência é um show. Claro, que existem outros valores agregados a essas pessoas, mas aqui estou falando que elas se ajustam bem às propostas de quem as convida. Quer dizer, quando você sai de uma conferência dessas, você sai leve, com uma sensação de quem tivesse ido ao cinema, ou a um show.

13)- O que acha do fenômeno Paulo Coelho?

Ele é o produto de tudo isso que eu falei: do neo-liberalismo, fim da História, do fim das utopias, das decepções utópicas. Aí, vem o salvacionismo, aí, o que é que entra? Auto-ajuda, quer dizer uma salvação prêt-à-porter, pegue tudo e vá embora. O que é que acontece? Mas eu tenho que ser justo com ele. Ele teve um saque de gênio ao perceber isso, consciente ou inconscientemente, ele percebeu a mudança nas pessoas, o mal-estar das pessoas com o Iluminismo, com a alta cultura, com a filosofia, com o pensar. Então, ele chegou e ofereceu um produto que caiu como uma luva na mão das pessoas no mundo. Aqui, ele vende muito pouco perto do que ele vende na França. É espantoso.

14)- O que você está achando da experiência de escrever crônicas em um jornal grande como o JB?

É uma experiência muito rica. Eu comecei escrevendo diariamente, mas resolvi mudar para três vezes por semana. Eles aceitaram, mas disseram que eu tinha que aumentar a coluna. Às vezes é um sufoco para escrever, por exemplo, ainda não terminei a que eu tenho que mandar hoje. Isso, me causa um certo stress, geralmente, eu antecipo e aí, fico mais folgado. Mas, não estou conseguindo fazer mais nada, toma muito tempo.

Ainda não consegui escrever rápido. E, acho também que o padrão de exigência, não é à toa, porque eu creio que seja lá quantos leitores lêem, mas eles esperam um texto do escritor. Então, eu tenho que escolher muito bem as palavras. Por exemplo, ontem eu estava lendo sobre o Barão do Rio Branco, e você já vai imaginar porque. O Sr. Lula da Silva condecorou o Severino Cavalcante com a Ordem do Rio Branco, disseram-me que foi um silêncio no Itamaraty. Daí, para não escrever uma coisa agressiva, eu fui ler a história do Rio Branco. Ontem, à noite, saí, fui a uma festa, e conversei sobre o Rio Branco com o Alberto da Costa e Silva, com Ivan Junqueira, e todos ficaram indignados com essa condecoração, porque é a condecoração máxima do Brasil. E, aí, eu ponho que título nessa crônica? Hoje, quando abro o computador me veio esse título: “Pequeno perfil de um grande homem”.

A entrevista com o romancista Antônio Torres foi realizada no dia 6 de setembro de 2005, em sua casa, em Copacabana, Rio de Janeiro. O autor, no momento, é cronista, escreve para o Jornal do Brasil todas as terças, quintas e sábados no Caderno B. Nasceu na pequena cidade de Junco (hoje Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Aos 20 anos transferiu-se para São Paulo, empregando-se no diário Última Hora como jornalista, mas lá chegando, mudou de ramo e passou a trabalhar em publicidade. Viveu por três anos em Portugal, onde teve oportunidade de conhecer alguns autores e poetas portugueses. É casado com a Profa. Dra. Sônia Torres, formada em Literatura Comparada, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde leciona. Tem dois filhos, Gabriel e Tiago.

Entrevista a Brigitte Thiérion

Rio de Janeiro, 8 de setembro de 2004

Por Brigitte THIERION
(Estudante de Letras na Universidade de Rennes, França)

Para a complementação de um estudo comparativo dos romances Meu Querido Canibal, de Antônio Torres, e Rouge Brésil, de Jean-Christophe Rufin, sob orientação da professora Rita Godet.

1) – A minha primeira pergunta diz respeito ao seu empenho em contradizer todos os sinais visíveis da História oficial. Será em nome de uma “contra-cultura”? Estaria nisso algo representativo de sua geração?

Antônio TORRES – Vamos por partes. Primeiro: os sinais visíveis da História sempre foram dados de acordo com a ótica dos vencedores, sabemos todos. Também no caso das guerras entre os portugueses e os indígenas brasileiros isso fica bastante claro. Segundo: os índios não dominavam a escrita. Logo, não escreveram, eles mesmos, a sua própria História. Tudo o que sabemos deles é através dos relatos dos brancos, ou seja, dos vencedores. Terceiro: o grande chefe Cunhambebe, o meu querido canibal, teve toda a sua história resumida em verbetes de poucas linhas e notas de pé de página.  Os historiadores em geral o trataram “como a expressão mais repelente do selvagem,” ou como o canibal “que se orgulhava de ter nas veias o sangue de mais de 5 mil inimigos, a maioria portugueses.” Ler coisas assim, e perceber, ao longo das minhas pesquisas, que ele na verdade foi o guerreiro que levou o seu povo a preferir morrer de pé, lutando, a se deixar escravizar pelos conquistadores,  me instigou bastante a transformá-lo num personagem emblemático. E nisso, radicalizei. Quer dizer: como a História oficial se encarregou de louvar os feitos dos vencedores nestas águas e florestas de sonho, som e fúria, avancei na contra-mão, numa viagem de volta ao passado, para tentar entendê-lo pelo ponto de vista dos vencidos. Essa minha tentativa de desoficialização ou revisão da História certamente traz no seu bojo os ecos da “contra-cultura,” que embasou os movimentos de contestação ao pensamento dominante, aí pelos anos de 1960, e que, sem dúvida, foi significativa para a minha geração. Em princípio, porém, o que me moveu na escritura do Meu Querido Canibal foi a convicção de ter nas mãos um grande personagem  ignorado pela História oficial. Além disso, esse personagem, o morubixaba Cunhambebe, foi o protagonista, ao lado de Aimberê (o fundador da Confederação dos Tamoios, cujo comando entregou a Cunhambebe), e outros grandes caciques, das epopéicas lutas de resistência dos “mais velhos do lugar” ao colonizador escravagista recém-chegado. Mergulhei nas pesquisas dessa história mítica e trágica cheio de afeição por esse velho povo e de indignação pela forma como ele foi exterminado, inapelavelmente. E o fiz com vontade de dar o meu grito de guerra para os historiadores: “PERÓS!”

2) – Você retoma o canibal como elemento constitutivo da identidade brasileira. Maria Cândida Ferreira de Almeida, num estudo chamado Tornar-se Outro: o Topos Canibal na Literatura Brasileira, salienta o paradoxo do imaginário brasileiro que retoma uma “auto-identificação que traz a marca da barbárie que toda nação ocidental deseja desvincular de seu povo.” Que pensa dessa afirmação? Como se define em relação ao movimento modernista?

A.T.: – Bela afirmação, essa de Maria Cândida Ferreira de Almeida. Tanto que vou procurar o seu estudo, cuja leitura em muito me enriquecerá, tenho certeza disso. Mas pergunto: quem foi mais bárbaro? O selvagem, com os seus rituais antropofágicos, ou o civilizado europeu que o exterminou, em nome de Deus e de seus interesses?  E não vejo como desvincular o canibalismo do nosso imaginário. O Modernismo dos anos de 1920 o pôs em movimento, com um sentido simbólico, a partir da famosa boutade de Oswald de Andrade – “Tupi or not tupi -,” que soou como um grito de independência dos modelos literários importados da Europa. Nos anos de 1930 surge no Brasil – e na esteira do Modernismo – um poderoso ciclo das letras que inclui no seu ideário ético e estético a libertação da escrita da norma lusitana. É então que uma linguagem brasileira, com toda a sua expressividade, de extração popular, se impõe. Estou me referindo aqui à geração de Rachel  de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego que, aliás, teve como abridor de caminhos o José Américo de Almeida de A Bagaceira, de 1928. Em tempos relativamente recentes, Glauber Rocha iria canibalizar o cinema de Akira Kurosawa, Roberto Rossellini, o faroeste de John Ford, possivelmente também o Jean-Luc Godard; José Celso Martinez Correia faria o mesmo com o teatro europeu; Tom Jobim canibalizou o jazz e por aí vai. E como fui um garoto que amava William Faulkner e Scott Fitzgerald, vez por outra percebo que os devoro, em algumas páginas da minha modesta lavra.

3) – O peso da História parece insuperável no seu romance. O caos do presente, com a sua força opressiva, impede qualquer projeção do futuro. Em que medida o seu trabalho pode ajudar nesta construção?

A.T: – Se houve um ganho nas comemorações dos 500 anos do descobrimento, ou achamento, do Brasil, em 2000, foi esse: o despertar de um interesse maior pela nossa História. Como se de repente nós, brasileiros, parássemos para nos indagar sobre quem somos e de onde viemos. Uma outra questão fica parada no ar: para aonde iremos? E esta ainda parece irrespondível. Nosso sentimento é o de que vivemos uma realidade de violência ameaçada pelo caos. A terra continua boa e, nela, em se plantando dará tudo, tal qual preconizou Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, o descobridor deste imenso país. O problema é que, mais de 500 anos depois do achamento dos portugueses, o Brasil ainda não se libertou da cobiça dos aventureiros que marcaram a sua História e nos legaram uma mentalidade predatória. Some-se a isso a voracidade antropofágica do capitalismo global, do qual o mundo se tornou refém, e temos aí um quadro inquietante, a impedir, como você diz, qualquer projeção para o futuro. No entanto, ainda acreditamos nisso: “Brasileiro, profissão: esperança.” Acreditamos no nosso potencial econômico, cultural e humano. Estou sendo utópico? “Um mapa mundi que não inclua a utopia não merece ser consultado,” é o que se lê na tumba de Oscar Wilde, num cemitério de Paris. Agora, em que medida o meu modesto trabalho pode ajudar na construção do futuro, é algo que escapa à minha avaliação. O que penso haver proposto em Meu Querido Canibal(tanto quanto em O Nobre Seqüestrador) é uma reflexão do passado para um entendimento do presente e lição para o futuro. Bem, pretensão e água benta nunca fizeram mal a ninguém, diz o povo, sábio por natureza.

4) – O Brasil e a França tiveram sempre relações privilegiadas. Sendo francesa, apreciei muito o “chauvinisme,” ou seja, a sua simpatia marcada, em contraste nítido com a sua aversão pelos colonizadores portugueses. Acha que haveria nisso um “jeito” francês (além do sexo, da farra etc)?

A.T.: – Vi com simpatia o jeito francês de lidar com os indígenas brasileiros nas primeiras décadas do século 16. De acordo com os relatos dos primeiros viajantes, era um jeito diplomático e foi marcado pelo encantamento em relação à terra e ao homem. Mas é preciso levar em conta que os interesses dos franceses, numa primeira fase, eram diferentes dos dos portugueses. Estes, vieram para ocupar o país e dominar os seus habitantes. Os franceses vieram para tratar de negócios, através dos escambos. E caíram na farra. Alguns até nem quiseram regressar à França, preferindo o sistema de vida tribal. Já no século 18, na era do ouro das Minas Gerais, a coisa muda, quando corsários como Jean-François Duclerc e René Duguay-Trouin, a serviço do rei (Luís XIV), enchem o Rio de Janeiro de medo e terror. Passado esse período aterrorizante, o Rio iria ter de novo uma presença simpática de franceses, aqueles que integraram a Missão Artística de 1816, patrocinada por D. João VI, que trouxe o Debret e o Montgny. Este chegou a formar dezenas de engenheiros e legou uma enorme contribuição à arquitetura da cidade. Ainda hoje há franceses que lembram aqueles dos primeiros tempos, sobretudo os dos serviços diplomáticos. Eles acabam criando uma relação tão sincera e intensa com a cidade, que abominam a hora de deixá-la, quando o seu tempo de permanência chega ao fim. De minha parte, convivo muito bem com os franceses, desde quando, aos 24 anos, pisei em Paris pela primeira vez. Era janeiro e eu tremia de frio numa esquina do Quartier Latin. De repente um táxi parou ao meu lado e o motorista abriu a porta. Ao entrar, ele me perguntou de que país eu era. Ao saber que se tratava de um brasileiro, ele começou a dar murros no volante do seu táxi, exclamando: “Brésil! Brésil! Pelé! O sol!” Depois, abaixou o tom da sua voz, dizendo, um tanto lamuriante, que só lamentava que eu tivesse ido do Brasil sem levar o sol. Considerei aquilo uma recepção extraordinária, que me marcaria por todo o sempre. De alguma maneira, o jeito simpático com que os franceses lidam comigo até hoje influenciou no tipo de tratamento que lhes dei, na revisão da história dos índios tupinambás. E quando falo de simpatia estou, naturalmente, incluindo a forma como você, Brigitte Thiérion, estudou este canibal das letras e a ele se dirigiu, através de um simpaticíssimo e-mail. Merci mille fois!

5) – Villegagnon foi uma personagem controvertida. Jean-Christophe Rufin empenha-se em retificar a visão histórica. Qual é o seu sentimento?

A.T.: – Minha boa amiga Solange Parvaux teve a bondade de me pôr à mesa com o Jean-Christophe Rufin, no encerramento da Expolangues de 2002. Então eu disse que nossos livros são complementares. O Rouge Brésil trata dos franceses que vieram para cá, na malfadada aventura da França Antártica. E o Meu Querido Canibal trata dos que estavam aqui – e do encontro entre esses dois povos. O que veio, dominava a escrita e deixou muita história; daí porque o livro do Rufin é gordo. O que estava aqui, não escrevia, portanto, não deixou história; da í porque o meu livro é magro. Agora, posso falar de outra diferença: o dele ganhou o Prêmio Goncourt e vendeu cerca de 1 milhão de exemplares na França, o que com toda certeza deixou o Rufin sorrindo de orelha a orelha, ao conferir os gordos extratos de sua conta bancária. E eu me contentei com o entusiasmo da crítica brasileira, um prêmio nacional, o interesse acadêmico – crescente, diga-se – e uma bela edição na Espanha, neste ano de 2004, e outra já programada em Portugal. Mas, na hora do acerto de contas, até agora só contabilizei magras tiragens, que totalizam  uns 12 mil exemplares, em 5 edições brasileiras. E isso ainda não é o pior. O trágico mesmo é que nenhuma editora francesa se interessou em publicá-lo. No entanto, o desempenho do livro, em termos mercadológicos, não chega a ser um fracasso tão grande quanto o de Villegaignon, o vice-almirante bretão que pôs o marco da cidade do Rio de Janeiro, em 1555, ao construir a fortaleza na ilha que hoje tem o seu nome, e onde ele se auto-proclamou vice-rei do Brasil. Ele fracassou em seu intento de fundar aqui uma França americana. Militar austero, empedernido, e homem perturbado, Villegagnon, nos 4 anos em que esteve no Rio, passou a maior parte do seu tempo a desgastar-se insensatamente em querelas religiosas, algumas delas levando-o a desfechos dramáticos, como o assassinato de alguns calvinistas. Deixando-se dominar por suas próprias contradições – ora agia como católico, ora como calvinista -, Villegagnon não só perdeu o controle da sua colônia de cerca de 800 homens, como levou a sua perturbação ao extremo de tratar os seus comandados barbaramente. Ele não produziu nada de útil para a França nestes trópicos. Para o Rio, fez apenas a sua primeira fortaleza, pois dela necessitava, para instalar os seus homens. A única coisa digna de nota a seu favor foi o fato de haver recebido Cunhambebe com honras de chefe de Estado, de rei do Brasil – e por 30 dias. Em resumo, o meu sentimento é este: o Cavaleiro de Malta acabou se tornando, em sua expedição ao Rio, um cavaleiro de triste figura.

6) – A intolerância e o extremismo, em parte responsáveis pelo fracasso da França Antártica, impediram o verdadeiro contato dos franceses com o Novo Mundo. Os conflitos religiosos hoje, como ontem, repetem-se a nível mundial. Como se situa o Brasil em relação a isso?

A.T. – O Brasil se situa nesse contexto de forma tolerante. Civilizada, até. Sendo a maior nação católica do mundo, aceita os que rezam por outros credos sem conflitos. Venho de um Estado, o da Bahia – duas vezes maior do que a França, e os baianos dizem isso de boca cheia -, onde o sincretismo religioso se tornou um dado exponencial da sua cultura, sobretudo no litoral. Naquela vasta região, os ritos afros fazem parte das suas manifestações culturais. Hoje, pelo país a dentro e a fora, assiste-se ao crescimento espantoso das igrejas evangélicas que, pela simplicidade de seus templos, seu assistencialismo e linguagem pragmática – que exime o capitalismo de qualquer sentimento de culpa, no sentido em que incute nos seus fiéis que ganhar dinheiro não é pecado -, tornam-se muito atraentes para as classes menos favorecidas da população. Enquanto isso, a Igreja católica tenta reagir, procurando se adaptar aos novos tempos, através de formas mais populares, digamos assim, para os seus rituais, tradicionalmente solenes, quando não suntuosos. A competição não deixa de ter o seu aspecto mercadológico, para entrarmos nas instâncias contemporâneas. Mas posso afirmar, com total convicção, que as atuais disputas pelo mercado da fé não têm conseqüências drásticas, resultando em mortos e feridos, como acontece pelo mundo, hoje, ou já aconteceu por aqui, no tempo dos índios – os sem fé, sem rei e sem lei -, de Villegagnon e das Inquisições, que no Brasil também fizeram as suas vítimas. Enfim, o que temos aqui é uma competividade religiosa pacífica. Deo gracias ! Amém!

Entrevista a Rita-Olivieri Godet – da Universidade de Rennes, França

Entrevista com Antônio Torres
Rita Olivieri-Godet (Maître de Conférences de literatura brasileira, Université Paris 8)
Paris, fevereiro de 2002

Entre janeiro e fevereiro 2002, Antônio Torres realizou uma “tournée” na França para a qual contou com o apoio financeiro do Consulado Geral da França no Rio de Janeiro. O premiado escritor brasileiro desenvolveu uma intensa atividade, proferindo palestras, debatendo sua obra com estudantes e especialistas de literatura brasileira em várias universidades francesas (Paris 8, Lille 3, Bordeaux 3, Nantes) e participando de eventos promovidos pela Association Bateau-Brésil de Lyon, com o apoio da Librairie Flammarion e do Espace Culturel Grands Voyageurs, e da mesa redonda na Expolangues organizada pela Association pour le Développement des Etudes Portugaises, brésiliennes, d’Afrique et d’Asie lusophones com a participação do escritor francês Jean-Christophe Rufin, ganhador do prêmio Goncourt 2001, além de conferências-debates na FNAC de Lille e na Librairie La Machine à Lire de Bordeaux.

Por ocasião da conferência-debate em Paris 8 sobre Essa terra e Meu querido canibal, tive oportunidade de lhe dirigir algumas perguntas que serviram de base para a realização dessa entrevista.

Rita Olivieri Godet – Em várias entrevistas você se refere à sua admiração pela obra do escritor americano William Faulkner (1897-1962). Perguntado sobre a existência de uma fórmula a seguir para se tornar um bom romancista Faulkner respondeu : « Noventa e nove por cento de talento…noventa e nove por cento de disciplina…noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. » Como você se situa em relação a essa fórmula ?

Antônio Torres – O velho Faulkner sabia das coisas e legou-nos uma fórmula indescartável. E foi mais longe ainda quando disse: “Você escreve um livro pensando que vai contar tudo. Depois descobre que não contou nada. Parte para o segundo achando que agora, sim, vai contar tudo. E chega ao final dele com a mesma sensação de antes. Resolve então escrever outro e assim vai, até o fim da vida, sempre achando que ainda não contou tudo.” E é exatamente nisso que está a graça do ofício de escrever. Bom, procuro seguir o exemplo dos escritores rigorosos em seus processos de trabalho. Aqueles que estão querendo sempre dar o máximo de si mesmos em cada página. Como foi o caso do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, que nunca parecia estar satisfeito com o que escrevia. A ponto de outro poeta, o português Alexandre O´Neill, dizer dele: “João Cabral me dá a impressão de estar o tempo todo afiando a ponta do lápis. A sua obsessão com a perfeição é tão grande, que vai acabar cortando as pontas dos dedos.” Mas, por favor, não pense que estou querendo aqui me comparar a estes gigantes das letras. Apenas tenho-os em boa conta e guardo muito bem guardadas as suas fórmulas, num canto escuro da alma.

R.O.G. – Até que ponto o estilo do escritor Antônio Torres é marcado por outros tipos de experiência com a escrita como o jornalismo e a publicidade ?

A.T. – O jornalismo me ensinou a ver o mundo. E a publicidade a contar isso rapidinho. A literatura é uma esponja que absorve todas as linguagens. Absorvi muito da cultura oral do sertão de onde vim, que era um mundo de contadores de histórias. E me impregnei de música, o baião, o bolero, a seresta, o samba, a bossa nova e… muito jazz! Como diria Gilberto Gil, a Bahia me deu régua e compasso. Mas o piano de Thelonious Monk me dá o ritmo das frases, enquanto o trompete de Miles Davis e o sax de John Coltrane levam o meu texto a uma certa introspecção. Em outros momentos, pego um táxi com Wolfgang Amadeus Mozart. E sonho com um concerto na catedral de Santo Estevão, em Viena d´Áustria, regido por ninguém menos que o próprio Deus, em pessoa. Mozart me leva ao delírio.

R.O.G. – Uma parte importante da sua produção romanesca baseia-se na representação literária de sua cidade natal. Quais os processos que marcam a transformação do espaço geográfico em espaço literário ? Em que medida a experiência vivida está incorporada em sua criação, num romance como Essa terra ?

A.T. – Os cenários, os rostos e as vozes da minha infância contribuíram imensamente para a formação do meu imaginário. Agora, quanto ao momento em que os espaços geográficos se transformaram em espaços literários, eu me lembro: foi numa noite, na cidade de São Paulo, quando minha mulher, a Sonia, me pediu para lhe contar uma história do meu tempo de menino. Contei-lhe. E percebi que ela ficou muito emocionada. No dia seguinte escrevi um conto, ao qual dei o título de Segundo Nego de Roseno, que hoje está num livrinho chamado Meninos, eu conto. É uma historinha singela, passada no Junco, que é hoje a cidade de Sátiro Dias, onde nasci. E foi exatamente esse conto que deu origem ao Essa Terra, que é o meu terceiro romance. Aí o Junco transformou-se definitivamente em matéria da minha memória, com todos os desdobramentos conhecidos, pelo menos para quem já me leu, como no recente O Cachorro e o Lobo. No meu caso, o vivido conta muito. Tanto que há quem pense que tudo o que escrevo é autobiográfico. Nem tanto. E o ficcionista, onde é que fica?

R.O.G. – As diferentes partes do livro « Essa terra me chama » ; « Essa terra me enxota » ; « Essa terra me enlouquece » ; « Essa terra me ama » evidenciam as relações contraditórias que se estabelecem entre a terra e os personagens. Que terra é essa ? Junco ? Alagoinhas? Feira de Santana? São Paulo ? Ou simplesmente as duas faces – a rural e a urbana – de um mesmo Brasil que exclui e condena seu povo à miséria e à morte?

A.T. – Quando estava escrevendo o Essa Terra, me lembrava o tempo todo de um hino que a professora Serafina, e a professora Teresa depois, nos faziam cantar, na escola: “Glória aos homens/ heróis dessa terra/ essa pátria querida/ que é o nosso Brasil…” E quanto mais o romance avançava, mais eu pensava em dar-lhe o título de Minha mãe não é gentil, referência irônica, ou cáustica, ao Hino Nacional. Eu me criei ouvindo hinos e recitando poemas patrióticos retumbantes. Na idade adulta, percebi que “as divinas promessas da esperança” não se cumpriram. E aí chegaram os militares com o ufanismo do “Brasil Grande.” Enquanto morriam quatro por minuto à razão de mil dólares, para citar um verso de Ferreira Gullar. Em Essa Terra tentei mostrar um país do qual não me ufano.

R.O.G. – No final do romance Essa terra, o narrador-personagem Totonhim decide refazer a trajetória do irmão Nelo, abandonar o sertão e partir para São Paulo. Poderíamos ler nessa decisão, o desenraizamento como destino trágico do sertanejo? Por outro lado, a migração nordestina não poderia também ser vista como uma forma específica dos movimentos migratórios do mundo atual ? Na pós-modernidade, o homem moderno estaria condenado a ser um errante?

A.T. – O corte epistemológico do sertão deu-se com a chegada do primeiro caminhão. Muitos endoideceram com o cheiro da gasolina. As mulheres se assanharam com o motorista e já não queriam mais saber dos homens do lugar, que viviam no cabo de uma enxada e exalavam o cheiro de suor por todos os poros. E aí aqueles homens passaram a querer ser como ele, o motorista. Foram caindo fora. Isso é para dizer que não é só a seca e as más condiçõs de vida que expulsam o sertanejo do seu sertão. Há também a sedução da civilização. Claro que existem os fatores econômicos no eixo do deslocamento. Mas a tal da civilização atrai – é preciso levar isso em conta, também. Sim, hoje vivemos num mundo de errantes. As migrações internas passaram a ultrapassar fronteiras. E, pelo visto, o fenômeno parece ser mundial. Já há quem sonhe com um mapa mundi sem fronteiras. Como se fosse uma nova utopia, no pós-tudo, inclusive das utopias.

R.O.G. – O texto híbrido de Meu querido canibal coloca de maneira radical a questão da fronteira dos gêneros ao incorporar uma diversidade de formas narrativas como o relato histórico, a crônica, o diário, a narrativa mítica, sem contudo renunciar à ficção. Inscreve-se, dessa forma, numa das tendências modernas da ficção contemporânea que questiona os seus limites pela heterogeneidade de formas e de vozes que absorve. Além de Cunhambebe um outro herói antropófago está presente no texto : o próprio narrador que se dedica a uma prática intertextual intensa. Em que medida a temática do livro determinou a escolha dessa forma de narrar ?

A.T. – O que determinou a forma de narrar do Meu Querido Canibal foi a falta de história. Ou seja: como os índios não tinham escrita, não deixaram relatos de sua existência nessa terra. E a História oficial os condenou ao esquecimento. Em anos de pesquisa, cheguei à uma conclusão óbvia: o índio é o excluído da História. Tive que me virar e encontrar o meu recorte, valendo-me de minhas estratégias de romancista. Saiu este texto híbrido, como você o define, com precisão.

R.O.G. – Meu querido canibal, já anuncia no próprio título o envolvimento afetivo do narrador com o seu personagem, o que se confirmará logo na leitura das primeiras páginas do livro. Assim, a sua versão da história, assume-se plenamente como um exercício de heroicização dos índios Tupinambás, e em particular de Cunhambebe. Ao longo da narração, o narrador indica os limites da reconstrução dos fatos históricos como sublinha o uso recorrente à palavra « presumivelmente ». O texto problematiza assim a narrativa histórica. Poderíamos inferir dessa leitura que toda narrativa histórica é uma narrativa construída ? Para o escritor Antônio Torres, a história é sempre uma ficção ?

A.T. – De uma certa maneira. Porque todo livro de História foi escrito por alguém que não deixou de dar a sua versão particular dos fatos. Quando bati os olhos num verbete que definia o Cunhambebe como “o selvagem na sua expressão mais repelente,” fiquei tentado a tratá-lo como um herói, porque era assim que o seu povo o via. Até Villegaignon, o vice-almirante bretão que fez o primeiro assentamento de europeus no Rio de Janeiro, entre os anos de 1555-1559, com seu malfadado projeto de criação de uma França Antártica nos trópicos, pois até o Cavaleiro de Malta recebeu Cunhambebe por trinta dias, com todas as pompas e honras de chefe de Estado, de rei do Brasil. Ao recuperar a legenda de grande guerreiro de Cunhambebe, eu iria problematizar as narrativas históricas que minimizaram o seu papel de líder da resistência aos colonizadores. Meu livro é uma revanche, com indignação e afeto, como já disse o poeta baiano Ruy Espinheira Filho.

R.O.G. – A organização do romance em três partes marca também, temporalidades diversas : na primeira parte – “O canibal e os cristãos” – a ação situa-se no tempo histórico do primeiro século da colonização brasileira, focalizando a disputa entre portugueses e franceses pela conquista do território que hoje corresponde à cidade do Rio de Janeiro ; a segunda parte – « No princípio Deus se chamava Monan » – transporta-nos para o tempo mítico das narrativas sobre a criação do mundo, confrontando o livro do Gênesis a uma narrativa dos índios tupinambás ; a terceira parte – « Viagem a Angra dos Reis » – situa a ação « no limiar do sexto século do descobrimento do Brasil », deslocando abruptamente o leitor para o tempo da sua contemporaneidade, estabelecendo um paralelo entre as formas atuais da violência, e aquelas que levaram ao massacre dos índios. A violência interliga as partes distintas : estaria a espécie humana condenada a auto-devorar-se ?

A.T. – Não há relato histórico que não fale de conflitos, desde a Bíblia. Caim matou Abel etc. A Europa vivia ensangüentada quando os brancos deram com os seus costados nessas bandas. E aqui também o pau comia: tupiniquim e tupinambá se entre-devoravam. Com a chegada dos europeus, o pau passou a comer mais fortemente ainda. Do quadro atual nem é preciso falar. Guerras tribais no Oriente Médio, guerras de religião, tudo como antigamente. E os Estados Unidos da América faturando a sua parte. Quando Deus disse a Noé, segundo a Escritura, “Da próxima vez, o fogo,” estaria fazendo um prenúncio da terceira guerra mundial? Estaremos condenados à auto-devoração atômica? Do tempo das cavernas aos nossos dias, o ser humano inventou coisas inimagináveis. Está na hora de inventar a paz.

R.O.G. – Na representação do embate que se trava entre duas civilizações – a ocidental e a dos índios brasileiros que, como assinala o narrador de Meu querido canibal, não sabiam que eram índios até a chegada dos brancos – o livro discute um problema crucial que é o da alteridade, denunciando as consequências dramáticas de um olhar etnocêntrico. Você acredita que a literatura possa contribuir para a construção de relações interculturais que escapem ao etnocentrismo ?

A.T. – Dizia o finado Eistein que é mais fácil destruir um átomo do que um preconceito. Penso nisso quando você toca na questão do etnocentrismo, que é preconceituoso. “Se não está no centro, é inferior.” Pelo fato de não serem brancos e viverem como viviam, os índios foram vistos pelos europeus como “bestas em forma de gente.” Quando ponho isso no papel, fico com a esperança de que o leitor reaja: “Mas que absurdo!” Essa é a utopia da arte: que poderá transformar corações e mentes. Sejemos utópicos e acreditemos nisso: que a literatura possa contribuir para a construção de relações interculturais que escapem ao etnocentrismo. Afinal, como já disse Oscar Wilde, “um mapa mundi que não inclua a utopia não merece ser consultado.”

R.O.G. – Entre franceses e portugueses que disputavam entre si a posse da terra dos índios, Meu querido canibal constrói um perfil simpático dos primeiros em oposição à imagem cruel que elabora dos colonizadores do Brasil. Que elementos fundamentam esse tipo de construção ?

A.T. – O que fundamenta a minha visão é a diferença de interesses entre uns e outros. Os franceses foram mais diplomáticos com os índios por uma razão muito simples: estavam interessados em fazer negócios e não em tomar posse da terra. Trouxeram seus espelhinhos, perfuminhos e algumas utilidades da civilização européia, para trocar pela madeira, o pau-brasil, o pau de tinta tão disputado pela indústria têxtil, especiarias, aves e suas frondosas plumagens etc. E se encantaram com a terra e o homem, principalmente com a fartura de mulheres nuas. Caíram na farra com os índios. Muitos não quiseram regressar, passando a viver no sistema de vida tribal. É preciso entender também que os portugueses demoraram 60 anos, a partir do Descobrimento do Brasil, para se interessarem pelo Rio de Janeiro, que é o cenário do meu relato. Logo, os franceses farrearam sozinhos pelo Rio e suas maravilhosas adjacências durante um bom meio século. Quando os portugueses chegaram para expulsar os franceses, tinham como objetivo maior liquidar as tribos aglutinadas na Confederação dos Tamoios. E foi uma carnificina. Mas quero deixar claro que os franceses foram mais simpáticos do que os portugueses, nas relações com os nativos, nos primeiros tempos da colonização. Quando mudaram de idéia, mais tarde, e quiseram dominar a terra, aí já foi outra história. E vomitaram fogo nas suas invasões ao Rio de Janeiro, no começo do século XVIII, em busca de ouro.

R.O.G. – Como você avalia o contato com o meio universitário, editorial e com o público em geral, durante sua estadia na França?

A.T. – Desde 1984, quando do lançamento da edição francesa do Essa Terra, que vivo pra lá e pra cá. Sempre fui muito bem recebido em Paris. Mas confesso a você que desta vez a coisa me surpreendeu. Desta vez não era só Paris: estendi meus laços também por Lille, Bordeaux, Lyon e Nantes, além de belas esticadas a Bruges, La Rochelle, Rochefort e Saint Malo. Fui tratado como um passageiro de primeira classe, tanto nas universidades, quanto nos eventos nas livrarias e outros espaços públicos. E tudo por quê? Porque uma certa baiana que é hoje Maitre de Conférences na Universidade de Paris 8, a mesma que me dirige estas perguntas, organizou tudo com uma competência que deixou os franceses de queixos caídos. Meus editores parisienses eram só sorrisos. Claro, meus livros traduzidos voltaram a vender. Obrigado, Rita Olivieri Godet. Merci mille fois!

Entrevista para Marzia Figueira

Entrevista para Marzia Figueira, para A Gazeta, Caderno Dois, Vitória (ES), domingo, 28/06/1992.

A bordo de um táxi Rio-Viena

Brasileiro “até os ossos”, ele carrega o sertão no coração aonde quer que vá. A Vitória veio para estréia do projeto Teatro do Texto, em que Paulo Betti e Luís Lima (autor da adaptação) representaram um compacto de seu Best seller, Um Táxi para Viena d’Áustria, editado em 91 pela Cia das Letras. Esta entrevista começou no saguão do hotel, continuou num táxi, mas não para Viena e sim até a Biblioteca Pública Estadual, onde terminou, minutos antes da apresentação… Antônio Torres, que vai virar biblioteca em agosto em sua terra, Sátiro Dias, na Bahia, falou desse Táxi que já foi traduzido na França e na Alemanha e espera apenas que ele suma na poeira que levantou para se dedicar a outro projeto: um romance urbano, político (e que “de certa forma” o leva de volta às origens), passado num quarto de hoje, em São Paulo. Já está praticamente pronto, dentro de sua cabeça. Mas não tem nada a ver com a viagem delirante do táxi tomado por um passageiro estranho e estressado numa das esquinas caóticas do Rio de Janeiro, onde tudo começa – e acaba.

“Um Táxi para Viena d’Áustria” é um delírio? Uma “viagem” entre aspas?

Um Táxi para Viena d’Áustria é a viagem imaginária de um homem que depois de cometer um crime entra num táxi e como está muito estressado adormece. E o rádio do táxi está tocando a Missa em Dó Maior do Mozart e é essa música que faz o passageiro delirar, ele delira ao som dessa música. E a Missa fica um contraponto para a barulheira em volta, do Rio de Janeiro, todo aquele caos urbano.

– Uma viagem no plano da fantasia…

– É, a viagem é a não-viagem, e com isso eu acredito que o livro passa é muito dos sonhos, das ilusões e desilusões de um homem do Terceiro Mundo em relação ao Primeiro Mundo.

– Essa leitura teatralizada, ou seja, no caso do projeto Teatro no Texto a transposição do romance para o palco, não muda totalmente o conceito de comunicação entre escritor e leitor? Não acha que muita gente vai preferir ver a peça a ler o livro?

– Não acredito, não. Devo dizer a você da minha emoção com esse trabalho do Luís de Lima, em que fez a adaptação do livro. Ele fez inicialmente um compacto de 30 minutos, que é o que nós vamos ver hoje na Biblioteca Estadual e é o que foi apresentado na Biblioteca Nacional. Lá foi uma coisa apoteótica, empolgante mesmo. As pessoas saíram dali correndo para comprar o livro, dentro da própria biblioteca. Então, acontece o contrário, a apresentação no palco aumenta o interesse pelo romance. Mas o maravilhoso é que o próprio Luís de Lima se interessou em fazer do Táxi uma peça de teatro. E depois dele o Stepan Nercessian me procurou, dizendo que era uma peça de teatro. E todos os diretores de cinema que conheço, e alguns que não conhecia, também me procuraram para dizer que é um filme pronto e acabado.

– Talvez porque quando se lê seu livro parece que de vez em quando você está com uma câmera na mão.

– É… A sensação que eu tive ao escrever é que tinha duas câmeras na mão. Uma estava na porta do prédio, esperando o homem descer pelas escadas para entrar no táxi. A outra câmera estava na esquina, no tumulto com a capotagem do caminhão da coca-cola. Quando o homem entrou no táxi a sensação foi de que eu jogava as duas câmeras nele, uma na cabeça e outra no coração, na alma.

– Num filme pronto, realmente. E vai sair esse filme?

– O problema é o que todos me dizem, como Geraldo Sarlo, que fez Delmiro Gouveia. Ele me disse que depois de ler o Táxi ficou muito chateado comigo por não ter dinheiro para sair correndo filmá-lo. Esse é o grande problema nacional, a falta de verba, que não precisa nem explicar. Mas só o fato de todo mundo me dizer isso já é uma coisa que me alegra muito. Cada um tem suas idéias, idéias diferentes.

– E cada leitor pode interpretar o “Táxi” à sua própria maneira, não acha?

– Acho. Eu acho que a vantagem de um livro, em principio, é essa. Como ele não é uma obra pronta, como um filme é, ou uma peça de televisão, por exemplo, ele abre muito a imaginação do leitor.

– É o livro, o leitor e sua imaginação.

– Exatamente! O leitor constrói sua própria história a partir daquela história.

– E o “Táxi” é aquele romance definitivo, enfim, que você vem buscando desde que estreou na literatura em 72 com “Um Cão Uivando para a Lua”?

– Certamente não, porque eu pretendo escrever ainda muitos livros. Mas dentro desse momento ele foi aquele que eu estava buscando.

– Quer dizer que você encontrou uma forma nova de escrever, é isso?

– Eu preciso lhe contar o seguinte: eu sonhei com a história desse livro. Uma noite eu sonhei que matava um amigo meu, um escritor, e passei a noite toda, no sonho, fugindo de táxi…

– Então o personagem, o Rosavelti, o Veltinho, é você? “Táxi” é autobiográfico?

– Deve ter muita coisa de mim, mas eu não diria que o romance seja necessariamente autobiográfico, mas eu acho que tudo que escrevo contém muito das minhas vivências, da minha experiência de vida, dos meus roteiros de viagens, do sertão da Bahia até a Europa, São Paulo, Rio, todo esse Brasil que eu já rodei muito, tudo isso aparece dentro dos meus livros. Mas, claro, eu espero ser um romancista e, portanto, alguém dotado de imaginação. E que esses referenciais todos, meu corpo-a-corpo com a vida, me sirva de material, mas um material que apenas dê o toque de partida para as minhas histórias.

– E o sonho com o “Táxi”?

– Pois, é, como eu estava contando, acordei apavorado, suado, me perguntando que violência é essa que carrego dentro de mim… Que crime é esse? Não adianta me perguntar que amigo era porque não posso contar… (Risos). Fiquei extenuado, contei para minha mulher, Sônia, comentando como fora um sonho apavorante. Só mais tarde, quando estava fazendo a barba é que me deu conta de que não era um sonho, era um romance pronto. Enquanto eu dormia, meu inconsciente trabalhava para mim.

– Foi só colocar, então, a história no papel?

– Não, ai daria só uma página. Comecei a escrever esse romance em 87, mas no meio do caminho achei que havia algo de falso nele. Eu trabalhava em propaganda e me desempreguei.

– Já virou peça, pode virar filme, foi exportado…

– Pois é, pode virar o que se quiser, é só o Brasil ter condições porque as pessoas querem fazer dele muitas coisas. Antes de sair aqui foi comprado lá fora. Já recebi as provas da tradução francesa, sai em novembro em Paris, estarei lá para o lançamento.

– Mas você acha que o “Táxi” vai ser bem recebido pelo leitor que não conhece nem vive a realidade do Brasil atual, tão amarga? Esse leitor vai entender? Tem muito leitor brasileiro que não decifra.

– Ah! A primeira carta que recebi da editora Gallimard, nada menos que a Gallimard, da Sra. Alice Raillard, conselheira editorial da Gallimard, crítica literária famosíssima, tradutora de Jorge Amado, João Ubaldo, me dizia o seguinte: “Brésilien, oui, mais contemporainement universal”… O que quer dizer que ela considera o livro muito brasileiro mas universalmente contemporâneo.

– Como traduzir o linguajar, as gírias, as frases feitas, tão tipicamente brasileiras?

– Meu amigo Henri Raillard estava no Rio quando eu estava escrevendo, acompanhou muita coisa, deu palpite, é jovem, ator, jornalista, escreve muito, tem uma vivência da linguagem moderna do Brasil, eu o escolhi para traduzir. Ele fez um trabalho perfeito, levou seis meses traduzindo, mas a reação da Gallimard diante do livro foi esta: não parece tradução, parece um livro escrito em francês! Fiquei muito feliz com isso, e se depender da tradução dele tenho certeza de que será um sucesso.

– Lá como cá… E na Alemanha?

– A tradutora alemã veio conferir algumas coisas comigo e eu lhe mostrei a cópia da tradução do Henri. Ela achou brilhante. Para a Alemanha, ela me deu uma idéia de mudar um pouco o título, que em francês ficou Un Taxi pour Vienne d’Austriche (porque na França também chamam Viena d’Áustria como em Portugal). Mas na Alemanha ela me deu uma sugestão que achei muito inteligente: mudar para Um Táxi Rio – Viena. Não ficou bonito? E dá o mesmo sentido da viagem. Essa semana eu tive duas grandes alegrias: uma foi ver as provas do Táxi em francês e a outra vou lhe mostrar. (Levanta-se e pega a edição do Essa Terra que está saindo em Israel). É uma emoção muito grande! Essa Terra saiu primeiro na França, depois na Alemanha, na Inglaterra, nos Estados Unidos e, agora sai em Israel. Um Cão Uivando para a Lua saiu na Argentina e Balada para um velha infância perdida teve uma bela edição também na Inglaterra e nos Estados Unidos.

– Como se sente como um escritor brasileiro mais conhecido no exterior do que em seu país? Ou não concorda com isso?

– Não, não concordo. Não sou mais conhecido lá fora, não. É que o Brasil é um país grande demais e isso complica muito. Mas no quadro dos escritores contemporâneos, eu me sinto muito bem no Brasil, já vendi muito livro. O Essa Terra já passou dos 100 mil exemplares.

– Você é considerado na Europa como um dos melhores escritores da América Latina, ao lado de Jorge Amado, Drummond, Graciliano Ramos, por exemplo. Mas no Brasil um crítico do Estadão disse que às vezes você “macaqueia” o estilo de Rubem Fonseca e que Táxi faz parte do “besteirol” que Kundera escancarou. O que pensa dessa opinião, e da crítica de modo geral?

– A única crítica negativa que o Táxi recebeu foi essa, do Estadão. Eu viajei o país inteiro de Passo Fundo a Manaus, a bordo desse Táxi, ganhando críticas esplendidas, no Rio, São Paulo, em todo lugar. É uma questão de opinião e com opiniões divergentes a gente aprende muito… Acho que o artista brasileiro tem uma posição um tanto infantil diante da crítica, se melindra, mas acredito que aprendo mais com críticas negativas que com críticas positivas. Entretanto, é preciso ver quando o crítico está exercendo realmente a crítica ou quando ele está tendo uma postura meramente pessoal. A crítica, para mim, está assim equacionada. Se o Táxi fosse ruim, puxa, todo mundo teria dito que era ruim, mas a maioria esmagadora aplaudiu. O livro foi capa de tudo quanto é Caderno, teve primeira página do Globo, Jornal do Brasil, de A Gazeta… Agora, para você ver como são as visões, o crítico da Folha, por exemplo, achou que meu livro era exatamente na contramão da literatura urbana que se faz hoje. Ficou até chato para mim. Imagine, na contramão de um Rubem Fonseca, de um Loyola, de um Roberto Drummond. Veja você, uma opinião completamente diversa, achando até que meu texto criticava os outros textos. Ele fez uma entrevista comigo por telefone e queria saber se eu concordava que meu trabalho era um trabalho de oposição a esses outros tipos de trabalho.

– E é?

– Claro que não. Eu respondi que não estou em briga nem em luta com meus colegas escritores contemporâneos. Eu quero mais é que eles tenham muito sucesso porque o sucesso deles me ajuda. O sucesso que não me ajuda em nada é o do Sidney Sheldon… Quando um leitor brasileiro está lendo um escritor brasileiro ele está assimilando uma dicção, uma linguagem, que é a minha, um comportamento, um texto, que é também o meu.

– A propósito de Sidney Sheldon, você disse (aqui em Vitória mesmo) uma vez que nunca leu um Best seller. Por quê? Preconceitos? Ou agora que Saramago, Rubens Fonseca, Chico Buarque e Antônio Torres entraram para a lista, você mudou e já lê Best seller? Mudou você ou mudou o público que compra livro?

– Não é isso… (Risos). É que quando a gente fala em best seller não está incluindo essa categoria de escritor. Uma coisa é um livro de qualidade que vira best seller. E aí eu acho que a Companhia das Letras mudou, num certo sentido, o gosto do público. Ela conseguiu introduzir no mercado o best seller de qualidade literária. E eu não estou contra as pessoas que entram para a lista de best seller, não é isso. É que existe uma indústria do best seller, aquela coisa que é feita quase que por computador. Bota-se uma pitada de sexo, uma pitada de espionagem…

– É uma fórmula, não?

– É uma fórmula! É uma fórmula infalível, claro. Esses caras ficaram donos do mercado. Mas no Brasil recentemente começou a surgir um outro tipo de leitor. Um leitor mais sofisticado, que começou a exigir mais.

– Como carioca que já se tornou, você esqueceu a “seca, miséria e fome”? O que ainda conserva das raízes do sertão baiano?

– Bom, eu carrego o sertão comigo onde vou e ele está sempre presente. Mesmo que eu não queira, ele me chama de volta. Agora mesmo eu virei biblioteca na terra em que nasci. Uma terra sem rádio, sem notícias das terras civilizadas, como cantava Luiz Gonzaga, o rei do baião… sei uma estantezinha, eu descobri Castro Alves, Gonçalves Dias e também Alan Kardec e Humberto de Campos… Aí chegou a professora Teresa lá e descobriu que eu gostava de ler e começou a fazer curso intensivo diário de leitura… E me botava para escrever todo dia, e em botava para ler em voz alta e até hoje adoro ler em voz alta!

– Então você devia estar no palco no lugar do Paulo Betti, dentro do “Táxi”, não acha?

– Acho que eu devo ter alguma coisa de ator, sim, por causa dessa professora… Voltando a sua pergunta, esse sertão me chama de volta, ao criar uma biblioteca pública com meu nome em Sátiro Dias. Quero aproveitar a oportunidade para fazer um apelo aos escritores do Espírito Santo para enviarem seus livros para lá. A terra é pobre, o lugar é pobre. Por isso, enviem seus livros aos cuidados do prefeito José Robério Batista, Biblioteca Pública Antônio Torres, Sátiro Dias, Bahia. O CEP é 48 485, não tem erro. Quando recebi a carta do prefeito dizendo que a escolha não tinha sido dele mas da terra, do povo, fiquei com aquele papel na mão, timbrado com o nome da biblioteca, emocionado, pensando que eu ainda não tinha idade para isso…

– Homenageado em vida, é a glória, não é não?

– E não é? Fui convidado para inauguração, vai ser dia 6 de agosto, e é claro que vou.

– Falar em idade, você ultrapassou a barreira dos 50. Em que acredita agora? Continua acreditando na Loto e na Sena, já ganhou? Na Santa Madre Igreja? E no Partido Comunista, que não existe mais?…

– Estou com 51, é uma boa idade… Não ganhei na Loto (risos) e tenho minhas religiosidades. Mas agora só acredito mesmo é no trabalho.

– E no Brasil, você acredita?

– Está difícil de acreditar. Está duro para encarar o Brasil de hoje, do jeito que está. Eu sempre me pergunto como é que um país como este, com tanta beleza, tanta terra, com tanto potencial humano e criativo, com tanto potencial econômico, pode ter chegado à situação em que está.

– A que conclusão você chegou?

– Que deram um nó no Brasil e agora não sabem desatar. Essa “yuppada” que tomou conta do poder, essa “yuppada” jeca, que só fez o caos, esses enriquecimentos rápidos que a gente está vendo aí, enquanto tudo empobrecia, num país que não é pobre, é rico. Então o que precisamos é de boa administração e honestidade.

Entrevista à Vandré Abreu e André de Lleones

Entrevista à Vandré Abreu e André de Lleones   http://www.canissapiens.blogspot.com/

Sem perder o ritmo e rumo das horas

Em entrevista exclusiva, o escritor Antônio Torres fala sobre Pelo Fundo da Agulha, seu romance recém-lançado, suas influências e a finalidade da literatura nos dias de hoje, dentre outras coisas.

Antônio Torres é um menino. Um menino nascido em 1940, no interior da Bahia. Autor de mais de uma dezena de livros, muitos dos quais traduzidos em países como Holanda, Estados Unidos, Israel, França, Itália, Bulgária e Alemanha, Torres recém-lançou Pelo Fundo da Agulha (Ed. Record, R$ 34,90). Com ele, fecha a trilogia iniciada há trinta anos com Essa Terra, já em sua vigésima edição, e que teve prosseguimento com O Cachorro e o Lobo. Nesses livros, escreve, para usar expressão de Affonso Romano de Sant’Anna, sobre o “seu Nordeste”, a sua Junco natal, da qual muitos fogem e para a qual outros tantos convergem. São romances habitados por homens partidos ao meio, divorciados de sua terra e de si mesmos. Para gente assim, muitas vezes só resta o suicídio.

Poucos escritores contemporâneos escrevem sobre temas tão complexos de forma marcante, e Antônio Torres é um deles. Com uma vantagem: mantém, “por malandragem”, um diálogo efetivo com as novas gerações de autores. Torres conversou conosco sobre este e outros assuntos de sua residência em Copacabana, no Rio de Janeiro.

“Pelo fundo da agulha” encerra uma trilogia iniciada com “Essa Terra” e “O Cachorro e o Lobo”. Quando escreveu “Essa Terra”, já tinha isso planejado? Se não, quando lhe ocorreu isso?

ANTÔNIO TORRES – Nunca tinha pensado antes em fazer desdobramentos da história do Essa Terra. A coisa começou num dia de chuva aqui em Copacabana, onde moro. Senti o cheiro da terra com as primeiras pancadas da água e me lembrei de uma canção do belga Jacques Brell, Ne me quittes pas, na qual ele canta: “Eu te oferecerei pérolas de chuvas vindas de um país onde nunca chove”. Aí me lembrei do lugar onde nasci, que antigamente se chamava Junco (hoje, cidade de Sátiro Dias), no sertão da Bahia. Lá era seco. Depois de longas estiagens, quando chovia, os homens vestiam terno branco e rolavam na lama de tanta alegria. Foi aí, com essa lembrança, que me veio a idéia de escrever O Cachorro e o Lobo, que é uma revisita ao Essa Terra 20 anos depois. Nesse livro, há uma imagem forte, de uma mãe passando a linha pelo fundo de uma agulha, sem óculos. Essa imagem viria a ser o ponto de partida para a escritura de Pelo Fundo da Agulha, que aí está, causando emoções e machucando corações.

Um dos temas desses livros é o suicídio. Em O Mito de Sísifo, Albert Camus argumenta que o suicídio é o único problema filosófico relevante. O que pensa acerca disso?

AT – Assino embaixo. Tanto que, em dado momento de Pelo Fundo da Agulha, eu reproduzo um longo trecho de O Mito de Sísifo.

Que escritores ajudaram a definir seu estilo?

AT – Meu estilo começa na infância no sertão, ou seja, na cultura popular que vem da literatura de cordel, das lendas de um povo, dos cânticos religiosos e profanos, das festas populares. Venho de um mundo de contadores de história e isso formatou meu imaginário. Quanto às influências eruditas, incluo Machado de Assis, os romancistas da chamada Geração de 30 (Jorge Amado, Graciliano Ramos etc.), e os norte-americanos, como William Faulkner, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Truman Capote, e tudo mais, de Dostoievski ao francês Boris Vian, de James Joyce ao português José Cardoso Pires.

A esmagadora maioria das pessoas não lê ou procura apenas livros de auto-ajuda. Por que tantos ignoram ou desconhecem a grande Literatura?

AT – Outro dia fizeram uma pergunta parecida para o escritor norte-americano Gore Vidal. A questão era: “Por que os grandes autores dos Estados Unidos há muito tempo não figuram mais nas listas de best-sellers?”. Ele respondeu que literatura sempre foi mesmo para poucos, mas, no nosso tempo, os leitores de literatura estão se tornando menos ainda. No ano passado, durante uma conferência numa universidade francesa, um estudante me perguntou: “Como o senhor explica o seu país, que deu escritores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, e até o senhor (risos), ter as listas de best-sellers que tem hoje?”. Respondi: “São as mesmas de Paris. Porque o mundo ficou igual naquilo que tem de pior. Não eram vocês que queriam derrubar o Muro de Berlim? Agora, agüentem a auto-ajuda”.

Ainda é preciso escrever? Ou a literatura, para citar Kant, é uma finalidade sem fim?

AT – Para mim, é uma razão de viver. Então, como pode ser uma atividade sem fim? Apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, nunca houve tantos escritores no mundo quanto hoje. E me refiro aos de literatura. Basta ver o exemplo do Brasil. A quantidade de jovens escritores que vêm surgindo, e alguns muito bons, é um espanto! Melhor assim.

O senhor é um dos poucos autores consagrados que mantém um diálogo efetivo com as novas gerações. Em que medida essa troca é importante?

AT – Para mim, é fundamental. Como dizia o poeta João Cabral de Melo Neto, “o novo infecciona o velho”. Procuro acompanhar a produção dos jovens e dialogar com eles por pura malandragem. Assim, espero, não perderei a dicção do nosso tempo. Mantenho-me atualizado com as técnicas de linguagem, maneiras de ver o mundo e de fazer literatura. Logo, não pense que é porque eu sou bonzinho que me relaciono bem com os escritores mais novos. É para não perder o ritmo e o rumo das horas.