O Livro dos Loucos



"Um cão uivando para a lua (e para cada um de nós), de Antônio Torres".
Winter Bastos - PDF - artigo original - Postado em 17/10/2016



"Um cão uivando para a Lua é simplesmente admirável. Fiquei com inveja. Gostaria de ter tanta bossa, tanta agilidade, tanto poder de síntese".
Marques Rebelo



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Prefácio de Antonio Torres para a edição comemorativa dos 30 anos de lançamento do seu
primeiro livro, "Um cão uivando para a lua".

Prefácio do autor.

Ou:

Como uivar para a Lua numa noite sem a menor possibilidade de estrelas

"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa..."

Allen Ginsberg/ Uivo - na tradução de Cláudio Willer/ LPM Pocket, 2001


Para começar, eu ainda não tinha lido o poema de Allen Ginsberg, que só caiu nas minhas mãos em 1973, numa viagem a Lisboa, um ano depois da publicação dos meus próprios uivos. Foi o poeta português Alexandre O´Neill quem me presenteou com o livro do Ginsberg que, na edição portuguesa, se não me falha a memória, começava assim: "Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura..."

Era um libelo da Geração Beat dos anos 50 - que incluía Jack Kerouac, William Bouroughs, Lawrence Ferlinghetti etc -, e da contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60 e 70. O impressionante era que neste lado do paraíso, aqui nos subúrbios da América, estivéssemos vivendo a mesma inquietante atmosfera. Mas no tempo em que escrevi este Um Cão Uivando para a Lua - um tempo vivido entre São Paulo e o Rio de Janeiro, depois de andanças por Oropa, França e Bahia -, os meus autores preferidos eram outros, das Américas (a começar pelos brasileiros obrigatórios) e do mundo. E, onde quer que estivesse, sempre tinha à cabeceira um livro de Scott Fitzgerald, o que dizia: "Numa noite escura da alma são sempre três horas da manhã." O que morreu dizendo: "O progresso é o desencanto contínuo."

Vivíamos uma era de progresso - a Transamazônica, a ponte Rio-Niterói, Itaipu, o BNH, o boom imobiliário, o DDD e o DDI, PNBs fantásticos, as fachadas da ditadura militar. Em seus porões os descontentes, ou dissidentes, uivavam até a morte, se não fossem resgatados antes no rabo de um foguete para o exílio.

Nas selvas de pedra a classe média achava que finalmente havia chegado ao paraíso, enquanto seus rebentos exilavam-se num quarto, se entupindo de LSD ao som de Jimmy Hendrix e Janis Joplin, até a loucura.

Como todo mundo à minha volta, também ouvia os sons de uns e outros: Chico Buarque, Caetano & Gil, Vincius de Moraes e Tom Jobim, Milton Nascimento, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Baden Powell - "todos os violões havidos e a haver," na definição magistral do já citado poeta português Alexandre O´Neill -, e todo o resto do pessoal, que incluía o teatro do Zé Celso Martinez Correia, e o de Boal, Guarniéri e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, de Plínio Marcos etc, e o cinema de Nelson Pereira dos Santos, Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade etc, etc, etc, ah, meninos, era uma era de arte, na contra-mão do enquadramento da ordem & progresso: censura, prisões, tortura, desaparecimentos, mortes, nunca é demais lembrar.

Um Cão Uivando para a Lua é desse tempo e lugar. O título me veio numa noite escura, em São Paulo, quando num quartinho de um hotel barato na Alameda Barão de Limeira, eu ouvia o tempo todo Miles Davis tocando sem parar My funny Valentine, uma terna canção americana, do dia dos namorados, que aquele trompetista, um gigante do jazz, transformara num lamento lancinante. Como os uivos vindos lá do fundo dos quartéis e dos manicômios, num dos quais eu havia visitado um amigo, que tinha a cabeça raspada e espumava loucamente. Já não se entupia de LSD, mas com as drogas que os médicos lhe davam, para acalmá-lo - e que o deixavam muito excitado. Foi aí que me veio uma idéia para um conto: um doido batendo papo consigo mesmo. Como parecia ser o de Miles Davis com o seu trompete. Oito meses depois tinha um romance nas mãos.

Bem, já havia entrado na casa dos trinta e finalmente o meu teclado engrenava. Até então vivia começando histórias que nunca passavam da segunda página. Isso me desesperava, me dava uma horrível sensação de fracasso. E de repente, como num milagre, já tinha ido além da terceira. Que maravilha. Como vivia ganhando e perdendo emprego no eixo Rio-São Paulo, coincidiu que por aqueles dias dei com os costados numa agência de publicidade carioca, onde fui contratado como redator. Entre um anúncio e outro, descubro que o gerente da empresa era um poeta, chamado Celso Japiassú, que me presenteou com um dos seus livros - e já não me lembro o que motivou tal gesto. Na verdade, naquele tempo havia até publicitários que gostavam de ler e escrever e acabamos por ter assunto para dois dedos de prosa depois do expediente. Acabei criando coragem para mostrar-lhe as minhas primeiras páginas. No dia seguinte fui chamado, pelo telefone interno, para ir à sua sala. Para minha surpresa, não se tratava de uma ordem de serviço, "uma campanha para ontem."

-- Você pode até nem saber que é um escritor - começou ele, tendo entre as mãos as páginas que eu havia lhe passado no dia anterior. Por uma questão de pudor, deixo a frase em suspenso, sem completar com o que ele disse a seguir. Mas não posso deixar de dizer que o primeiro leitor das primeiras mal-traçadas linhas deste meu primeiro livro me encorajou muito, muitíssimo, para ir em frente. Velho Japi: nunca será tarde demais para te dizer "Muito obrigado." Sei que andas por aí a capitanear novos negócios e, espero, a escrever poemas de boa fatura literária, na calada da noite, como antigamente.

O livro iria ser lido com entusiasmo também por um pequeno editor, o Lúcio de Abreu, que me disse: "Isto tem cheiro de sucesso." Só que no meio do caminho - já com os originais na gráfica -, ele iria revelar suas dificuldades financeiras, naquele momento, para produzi-lo. Foi uma confissão desesperadora. Olha eu de novo uivando para a Lua. O que fazer?

Foi aí que entrou em ação uma verdadeira corrente da solidariedade para que este livro viesse a ser publicado, liderada por um colega do departamento de criação da finada Denison Propaganda, chamado José Monserrat Filho, atualmente editor do Jornal da Ciência, da SBPC, e até hoje um amigo de fé. Ele arregimentou um mutirão: o produtor gráfico da Agência, o saudoso Bilé, que iria conseguir gratuitamente o fotolito da capa, que foi criada de mão beijada por um talentoso diretor de arte, o Cláudio Sendin. Carlos Estevão de Souza Filho fez a foto da contra-capa, que teve layout de Joaquim Pêcego, o velho Pá. A produção do livro acabou se tornando uma ação entre colegas de trabalho - não dá para esquecer aqui a extrema boa vontade de outros ali, como Aldyr Nunes e Federico Spitale -, que deram a sua contribuição pessoal para aliviar os custos e viabilizar a edição do livro. Celso Japiassú, o entusiasmado leitor da primeira hora, escreveu a orelha. E assim este Um Cão Uivando para a Lua foi embalado para as livrarias, no dia 14 de novembro de 1972, vindo a merecer também a solidariedade da crítica, dos leitores, dos escritores.

E estes se manifestavam através de cartas, ou por telefone. Nomes consagrados - como Jorge Amado, Marques Rebelo, José Américo de Almeida, Osman Lins e o português José Cardoso Pires - brindaram o estreante com calorosas palavras de incentivo. É preciso dizer que até então o autor destas linhas não conhecia pessoalmente aqueles escritores. Minhas - poucas - relações eram com outros. Numa curta temporada no Jornal da Bahia, trabalhara com Ariovaldo Matos e João Carlos Teixeira Gomes e, na Última Hora de São Paulo, com Ignácio de Loyola Brandão, que num começo de tarde, antes da zorra começar na Redação, me mostrou as páginas de um livro que estava escrevendo, o Depois do Sol. Naqueles primeiros tempos de São Paulo cheguei a conhecer Marcos Rey, já um autor de best-sellers e um excelente sujeito, que sempre me recebia em sua casa de copo na mão, enquanto a sua mulher, a doce Palma, se apressava em preparar um rango; e João Antônio, que me impressionara vivamente com o seu Malagueta, Perus e Bacanaço, e com quem havia perambulado uma vez pela noite paulistana, de 'pé sujo' em 'pé sujo', até o último bêbado olhar para o céu e gritar: "Não há possibilidade de estrelas!"

Mas agora eu iria saber quem eram os outros. Da Manaus de Márcio Souza à Porto Alegre de Moacyr Scliar, do Recife de Hermilo Borba Filho à Ituiutaba de Luiz Vilela, da Bahia de João Ubaldo ao Paraná de Domingos Pellegrini Júnior, eles formavam um bando, com uma enorme concentração em Minas Gerais - Murilo Rubião, Wander Piroli, Sérgio Sant`Anna, Oswaldo França Jr., Roberto Drummond etc - e no Rio de Janeiro: não tardou muito para o escriba aqui estar sendo recebido por Ana Arruda e Antônio Callado - aquele lorde que tanta falta nos faz -, e Nélida Piñon, em cuja mesa cabia sempre a verve de Rubem Fonseca. Ah, Rubem Nosso Bem, quando vamos voltar a dar umas boas risadas? Agregadores era o que não faltava. Como o casal Laura e Cícero Sandroni, com suas feijoadas concorridíssimas, nas quais Antônio Houaiss, José J. Veiga, José Louzeiro, Marcos Santarrita, Edilberto Coutinho, Eglê Malheiros e Salim Miguel, entre tantos, tinham cadeira cativa. Em São Paulo, as casas de Ivan Ângelo, Moacir Amâncio e Edla van Steen estavam sempre de portas abertas para outros. Numa volta lá, acabei conhecendo o Raduan Nassar. E ficamos amigos para sempre. Parecia que todo mundo seguia ao pé da letra os versos de Carlos Drummond de Andrade: "Como viver sem conviver/ na praça de convites?"

Depois alguns de nós - como o Loyola, o João Antônio, este aqui e muitos mais - ganhamos a estrada, falando em tudo quanto era canto deste imenso e mal administrado País, com a polícia sempre atenta ao que falávamos. Pelo caminho, fomos envelhecendo, alguns morrendo e vieram outros e já não era mais a mesma história. Mas nunca me esqueci do que uma vez me disse a adorável e inteligentíssima Nélida Piñon: "Toda essa camaradagem um dia vai acabar. Quando o tal do mercado fizer as suas escolhas." Não deu outra.

Bom, valha o que valer o relançamento deste livro agora, não poderia deixar de dedicá-lo, ainda uma vez mais, a Sonia Torres, que não só o viu nascer - antes de nossos filhos Gabriel e Tiago - mas também resiste ao meu lado, com sua solidariedade incondicional, por toda uma vida feita de bons e maus momentos.

Tanto quanto consigno aqui os meus agradecimentos à minha agente literária Marisa Gandelman e à Editora Record, que vem reunindo todos os meus cacos deixados pelas estradas para com eles compor um belo mosaico. Sérgio e Sônia Machado, Luciana Villas-Boas e Ana Paula Costa: segurem aí o meu abraço.

Se este esforço editorial valerá a pena, é com você, caro leitor.



Orelha à primeira edição


A cosmologia do cão

Celso Japiassú

A tônica do livro é a de um desespero contido e que de repente, quando menos se espera, apossa-se e toma conta do leitor. Quem tiver sensibilidade e estiver fazendo uso dela para perceber o que se passa hoje com as pessoas, no mundo interior de cada uma, como reflexo do que está se passando no outro mundo, o de fora, o que cerca as pessoas, não deixará de sentir profundamente a carga de emoções trazida por cada uma das personagens deste livro.

Antônio Torres apresenta as personagens-chave por simples iniciais, revelando que voluntariamente recusa-se a nomeá-las, como a querer mostrar que por detrás deste aparente anonimato encontra-se não um homem determinado, com características bem definidas, mas o traço bem marcado de uma geração que subitamente se descobriu enganada por uma esmagadora mas bem definida escala de valores que não eram verdadeiros. A surpresa desta revelação trouxe consigo o desejo de encontrar uma saída, refletindo-se na busca caótica e desesperada que levou inclusive ao consumo de drogas e a uma perplexidade não só mal compreendida mas até mesmo reprimida com violência pelo Sistema.

O livro não critica o que apreende e que põe diante do leitor às vezes com o impacto de um soco. Nem condena ou absolve. Apenas expõe e emociona, numa linguagem clara e agressiva, mas literariamente criativa. O cão que uiva para a lua está sozinho e procura algo distante, que não sabe bem o que seja, mas que tem de ser melhor do que as amarras que o prendem.

O caminho que pode levar à libertação transforma as personagens em viajantes engajados numa peregrinação intensa e angustiante, dentro e fora de si mesmos, que só poderia se completar na compreensão da grandeza, da violência e da miséria que está presente em T. e em A., duas personagens que Antônio Torres coloca diante de nós e que assumem uma forma de espelho refletindo as nossas próprias caras.



Opinião — 18/11/72
Aguinaldo Silva

Uivar é com os cães

Terra em transe marcou, junto com as páginas finais de Quarup, o fim de uma fase na cultura brasileira. A partir daí, os gestos românticos deixariam de atrair até mesmo os nossos intelectuais, o que marcava o início de um processo terrível: o “virar um Portugal” de que falou Chico Buarque de Holanda, em “Opinião” no 2. A cultura passaria a trilhar um caminho cada vez mais desinteressado da vida, até chegar às caixinhas ocas e transparentes de acrílico nas artes plásticas; aos diálogos entrecortados e ininteligíveis do cinema; o ao delírio formal, ao jogo de palavras sem sentido a que se entregou a literatura.

No campo da literatura — o que nos interessa — a des­munhecada foi ainda maior: nossos jovens e aflitos escritores passaram a negar toda uma tradição realista, a chamar de acadêmicos os que ainda jogam com a realidade, e a despencar, ou para o fanatismo capenga, ou para a mais desenfreada vanguarda. Nos dois casos, uma preocupação que deve ter agradado o sistema: não dizer nada. Mascarar de tal forma as palavras que estas, afinal, acabem desprovidas de ­qualquer sentido. Nem mesmo usar o sentido “oficial”, o con­­­ve­niente à situação atual, e portanto já deformado, mas partir para o non sense do tipo Me segura que vou dar um troço (Wally Sailormoon, autor jovem) que mascara, principalmente, a covardia (seria bom lembrar aos nossos escritores a lição dos escritores portugueses: ao longo desse “virar Portugal” eles aprenderam a empunhar a palavra e a pairar acima da hipocrisia geral. Basta citar um romance: O delfim, de José Cardoso Pires).

Uma das primeiras missões de um honesto intelectual brasileiro, hoje, é dar às palavras seu verdadeiro sentido. “A vida de um honesto intelectual brasileiro, hoje”, é a motivação de Um cão uivando para a Lua, que, como Quarup, de Antônio Callado, vai mais além, até traçar todo um painel da vida brasileira, hoje, que oscila entre os PNBs fantásticos e a miséria que nenhum milagre consegue camuflar. A história de A., personagem central do livro, jornalista que se projetou na fase posterior a Terra em transe — quer dizer, aí pelos idos de 1967 — é a de boa parte dos nossos intelectuais de agora, imprensados entre os últimos estertores de um idealismo inútil e a soberba Tentação da Montanha, onde o diabo aparece disfarçado em torre de televisão, ou em promessa de muito dinheiro e alguma possibilidade criativa numa agência de publicidade. Os frequentes e chocantes contatos com a realidade tornam este intelectual doente, amargo (alcoólatra), levam-no a procurar o útero — ou o saco — do analista e até a “clínica em Botafogo”, mas já não o conduzem a aventuras como as do Padre Nando em Quarup. Ninguém quer mais morrer poeticamente, em câmera lenta, como Jardel Filho em Terra em transe, porque a realidade das caixinhas de acrílico é avassaladora demais, e porque, para esta geração que agora chega aos 30, e que passou a se interessar pelo processo cultural a partir de 1965, a vida foi sempre assim.

Um estreante seguro

Mesmo para os críticos — e os leitores — que se recusem a ver nesta obra a realidade que ela reflete, Um cão uivando para a Lua é irrepreensível. Embora o autor cite, a certa altura, “Pierrot Le Fou Godard” como seu “autor” predileto, sua novela atinge quase sempre um tom feliniano, isso com uma segurança pouco frequente em estreantes. Algumas seqüências — como a da viagem do repórter pela Transamazônica — atingem a maior altura de nossa ficção, o que nos permite cobrar de Antônio Torres a promessa de importantes obras futuras; esperamos que, após uma estréia tão feliz, ele não desça da montanha, como seu personagem, para assinar um promissor — e castrador — contrato com a TV.



Folha da Tarde, São Paulo — 04/12/1972
Torrieri Guimarães

Bilhete a Antônio Torres

Você escreveu um romance denso de proposições, não impostas, mas naturalmente nascidas da sua própria vivência. Você penetrou na massa do mundo, trabalhou com ela, sujou-se com ela, viu que suas mãos tinham sangue e barro, e de repente, quase como num ‘flash’ você percebe uma terrível verdade: neste mundo regido por um sistema absurdo (o Kafka também descobriu isto e sublimou tudo colocando-se do outro lado da parede invisível e recriando o que poucos iniciados têm capacidade de ver) a realidade não é aquela que nossos olhos vêem, dura e odiosa, mas uma pintura abstrata que só alguns compreendem e podem manipular à vontade.

Esta contradição é realmente chocante e ninguém escapa aos seus efeitos. Certamente muitos acharão o modo de enganar-se, de iludir-se, de imaginar que ainda são donos dos seus narizes — mas intimamente sabem que estão sendo dirigidos, enquadrados, encaminhados para destinos que absolutamente não sonhavam, incapazes de um gesto de revolta. Engajam-se numa situação que lhes é cômoda, ou que pelo menos lhes permite continuar supondo que vivem, e vendem a alma ao diabo por uma simples ilusão de liberdade.

Mas, insidiosamente, a angústia está trabalhando em seu íntimo, corroendo-lhes as últimas resistências, deixando-os lassos e bambos como míseros fantoches, até que, tensas até a exaustão as linhas da sensibilidade, rompem-se — e os infelizes são obrigados a internar-se em regimes de tratamento de que jamais conseguem escapar, ou, pior ainda, deixam-se levar pela onda de indiferença, engrossando a multidão dos que nada têm a oferecer de si.

Você trouxe para a sua luta nos campos incultos deste mundo, com a sua mocidade, todos aqueles ideais imprecisos que são a contribuição mais importante dos jovens, porque significa que, de tempos a tempos, de geração a geração, as flores do sonho continuarão vicejando. Mas percebeu, de repente, que sua realidade, o mundo que você imaginava, as noções que apreendera, a sua contribuição pessoal, nada tinham a ver com a realidade imposta de dentro para fora, firmada em regras especiais, com suas leis próprias e inexoráveis. E foi bom que você escrevesse este livro agora, com toda a força de sua revolta, com a noção exata da posição que você adotou, sem envolvimentos nem concessões — numa linguagem crua, despejada, azeda, amarga — porque sempre é de se temer que, com a idade madura, com os profundos lanhos das experiências vividas e engolidas no silêncio das humilhações, você talvez se acomodasse, se acovardasse, e acabasse apenas, como tantos, fazendo blague desta triste realidade que poucos ainda enxergam.

Até a sua linguagem tem uma função importante neste livro: ela agride, não de maneira ofensiva, mas como sacudidela naqueles que parecem adormecidos, como a dizer-lhes: ei, meu chapa, você está perigosamente iludido com todas estas luzes, há chefes de família esmagados pelo excesso de trabalho, corroídos pela descrença diante de tantas injustiças, fazendo-se o carrasco de seus próprios amigos pela defesa de seus míseros empregos; há crianças famintas que se prostituem à beira das estradas, há milhões que vivem na promiscuidade das favelas, as cores, as luzes intensas deste país tropical cegam as vistas, mas é preciso um esforço — vamos, eia, desperte — para não se deixar envolver nem pelo pessimismo, nem pelo ufanismo.

A sua experiência como jornalista transparece clara em seu romance; você continua um repórter de olhos abertos nas esquinas do mundo, mas insiste em fazer a reportagem errada. Já Romain Rolland dizia (quem é que ainda lê Romain Rolland, me diga?) que a Imprensa é a grande prostituta (e isto antes da Primeira Guerra Mundial, num país como a França, onde se imagina que more a tal de Liberdade...). Inserida no contexto, vivendo às expensas daqueles que detêm os meios de produção (de bens de consumo e, portanto, do vil metal), a Imprensa é hoje uma indústria da informação, e como tal deve ser administrada. Todos vós, plumitivos, que adentrais este templo, lede antes a inscrição gravada na porta: “Deixai de fora toda veleidade literária, toda pretensão a reformistas, contentai-vos com a linguagem seca dos fatos, sem fantasias, e aprendei que o que não é bom para o jornal não é bom para vós.”

O seu mundo interior, cheio de fantásticos sonhos, chocou-se violentamente com este mundo real, bem organizado, impiedoso; e, se foi um choque que deixou marcas em seu espírito, tão fundas que ainda sangram em palavras de revolta, a verdade é que serviu para dar-lhe a exata medida, as dimensões, as fronteiras, as leis que o regem, deste outro mundo de felizes fantoches, manipulados por dedos invisíveis.­

Antônio Torres, meu irmão: você é como o astronauta que conquistou a lua e agora anda meio sorumbático por este mundo, porque viu que o sonho tão intimamente sonhado, acarinhado como a máxima realização, era apenas um mundo árido, vazio, esterial. À sua volta, os amigos estão dispersos, encaixados como peças do Sistema, acomodados; os amores estão esquecidos ou mortos; sua casa está em escombros, é preciso reconstruí-la porque o homem está sempre reconstruindo-se. Você já não luta, aceita ser consumido pelo Minotauro-Televisão, símbolo do holocaustro dos sonhos jovens em louvor do deus máquina.

Gosto do seu Um cão uivando para a Lua. Livro de um jovem, com impacto e excessos de juventude, mas muito humano e muito verdadeiro. Há, quanto à composição, certas restrições leves, que a profunda impressão causada pelo todo faz esquecer.



Veja — 07/12/72
Leo Gilson Ribeiro

O eletrochoque

Diante deste livro de estréia não há uma terceira opção: ou se aceita ou se interrompe a leitura. O romancista, desde as primeiras linhas, desde o primeiro capítulo, não esconde nada do leitor. Envereda por um tipo de literatura emotiva, visceral, profunda e autenticamente sincera. Mais articulado do que The Crack Up, de Scott Fitzgerald, é como ele um sismógrafo interior, o gráfico diário de uma neurose urbana. O escritor, o homem sensível que raciocina, é devorado pela máquina da televisão e da publicidade, esta Hollywood da década de 70 no Brasil. Assim como Fitzgerald foi consumido pelo comercialismo das fitas da Metro (cujo lema ainda é: “Ars gratia artis”, a arte pela arte, mas gravado em ouro de 18 quilates) e trocou seu fascínio pela riqueza com uma obsessão pela miséria, esta história parte do colapso que leva a uma “clínica nervosa”. Quem preferir uma literatura inventiva, sem testemunhos pessoais, sem aquele desvendamento brutal que um Dostoievski faz em Recordações da casa dos mortos, ou Jean Genet em O diário de um ladrão, nem deve ler o desigual estreante brasileiro.

Imaturo em vários pontos, com desigualdades de estilo e hesitações de quem tateia o seu próprio caminho de auto-preservação, Antônio Torres é um talento explosivo. Suas armas são a angústia, a busca do raciocínio lúcido, a revolta às vezes ingênua, às vezes adolescente, mas sempre moral de quem constata que é a mera peça de uma engrenagem desumana.

A loucura é tratada por Antônio Torres como o retrovisor da realidade, como um espelho interno que revelasse as entranhas de uma estrutura social em que o absurdo é a norma e na qual quem divergir é trancafiado em manicômios como os cientistas, poetas e romancistas russos de hoje que contestaram a invasão da Checoslováquia de Dubcek pelos tanques de Brezhnev. “Toda a minha vida foi uma luta idiota pela percepção, apreensão e aceitação da realidade. Ao lutador, seu justo prêmio: uma camisa-de-força.” Não é um personagem de Machado de Assis que exclama “ao vencedor, as batatas!” É o eu perscrutador de Antônio Torres na era do Ibope, da televisão líder, do “palmas para ela, que ela merece” e de “nossos comerciais, por favor” ao lado de inacessíveis baús da felicidade. O personagem de Antônio Torres ingênua mas comovedoramente constata que o direito à felicidade, que integra a Constituição dos Estados Unidos, não faz parte da estatística do produto nacional bruto de nenhum país do mundo. Oral, a sua literatura capta a gíria, as incorreções gramaticais, a linguagem sincopada e abreviada de quem fala. Usa monólogos interiores, pesadelos, flash backs de diálogos recordados como numa montagem cinematográfica. Mas, coincidindo com o teatro do absurdo de um Ionesco ou um Beckett, não há conversas entre duas pessoas — o médico e o cliente, o amigo que visita o doente na clínica, o doente e a mulher, Lila, que é o amor lembrado. Há desníveis de conversação como dois estrangeiros que não soubessem decifrar uma língua que o outro fala.

Antônio Torres frequentemente incorre em certa presunção ao atribuir ao seu quase monólogo a dilaceração estética de um intelectual solitário, incapaz de achar tempo para escrever sua obra-prima. Os pensamentos, as frases do narrador brasileiro não têm a profundidade da especulação filosófica e ética dos personagens do escritor Saul Bellow que cita:

“Saul Bellow é um bom escritor. A moça que estudou nos Estados Unidos e que me emprestou Herzog me disse: ‘Este livro fala da solidão do intelectual americano.’ E eu respondi: ‘Ah, é? Então está falando de mim.’ Essa mera formulação deixa concluir que se tratam de solidões diferentes. A do escritor amarrado pela televisão brasileira nada tem a ver com a solidão do homem de negócios americano que em Hen­derson, the Rain King vai à África para renascer espiritualmente. Em certo trecho de seu livro vozes de homem e de mulher discutem se a carne de boi é melhor que a de homem. Para Saul Bellow e Scott Fitzgerald há graduações infinitamente mais sutis e no Brasil atual também.

A não ser por essas incongruências, Antônio Torres, que luta menos com palavras e idéias do que com percepções e um corpo maciçamente físico (o coração, o fígado, o estômago etc.), é um talento muito importante e ainda vacilante que surge com o valor e o impacto de um flash tirado do interior de um cérebro humano no exato momento em que é sacudido por um violento eletrochoque.



Jornal do Brasil — 03/01/1973
Hélio Pólvora

Escolher a dor

Com uma frase de William Faulkner — “entre a dor e o nada eu escolho a dor” — Antônio Torres ilustra e também define seu romance de estréia, Um cão uivando para a Lua. “Between nothing and grief I take grief.” Esta frase, que sempre me impressionou desde a primeira leitura de Wild Palms, é o fecho do monólogo final de Wilbourne, que continua a sofrer na memória uma bela e trágica história de amor. Wilbourne é um dos vários personagens faulknerianos que não teme o abismo. Arrastado até as bordas, deixa-se cair, enquanto decide, com uma selvagem alegria, perscrutar o fundo. São heróis da resistência pessoal. Heróis por dentro.

Esta opção pela dor me leva a ler o romance de Antônio Torres e vejo que ele, mesmo querendo chocar, produzir impacto, escreve com muita convicção. É desses escritores que têm o que dizer, porque, antes de tudo, viveram, tiraram conclusões de uma experiência própria. No caso de Antônio Torres, essa experiência, que gerou o depoimento, parece ligada ao jornalismo. A história se repete: o moço chega à cidade grande do Sul, atraído por luzes que julgava humanistas, e não tarda a descobrir que ali apenas o espaço é maior. Nele cabem, além de angústias pessoais, o desespero que vem de fora, dos acontecimentos e situações de um mundo só.

A contaminação é fatal. E como as personagens de Antônio Torres, que ele designa com iniciais, são pessoas sensíveis, lidas e instruídas, a fuga se torna mais difícil. Como evitar os golpes diários desfechados na sensibilidade? É possível cultivar a sensibilidade em meio a tantas agonias? Os jornais refletem o mundo caótico de hoje varrido pelo vento da violência. O cadáver de uma mulher atropelada em Botafogo é reduzido a uma posta de carne pelos automóveis que passam e não podem parar: o trânsito tem de fluir. Em São Paulo, um homem que dedicou sua vida inteira à firma é despedido e apresenta seu advogado: Mr. Smith, o revólver. Por toda parte, assassinatos, suicídios, assaltos, mendicância, prostituição. Sobreviver é a coisa mais importante. O menino que engraxa sapatos no calçadão da avenida Atlântica e mora em Parada de Lucas sabe disso. O operário que trabalha no Aterro sonha com o momento de tomar seu gole de aguardente.

A sobrevivência exige nervos fortes, uma estrutura de aço. O progresso tem um custo social altíssimo que, em alguns casos, é reembolsado sob forma de contestação, e, em outros, leva forçados contribuintes à loucura. “O progresso é o desencanto contínuo”, lembra uma das personagens insones de Antônio Torres, citando Scott Fitzgerald. Um cão uivando para a Lua é, portanto, o romance da fossa generalizada. Parte da angústia individual, “aquele negócio horrível por dentro”, e atinge um sentimento coletivo de paranóia frenética. Sob este aspecto, Antônio Torres situa seu livro na órbita da agonia e da procura que tem servido de tema à ficção e poesia de todos os tempos, mas parece envolver cada vez mais o homem contemporâneo.

“Meus heróis estão mortos”, raciocina uma das personagens, em meio àquele “monte de caixotes empilhados, os engradados onde 8 milhões (seriam mesmo 8?) se engarrafavam”, isto é, a cidade de São Paulo. “Meus heróis estão armazenados nas prateleiras da minha estante ou amarelecidos pelo tempo num recorte de jornal, enquanto o herói moderno se angustia nos divãs e eu não entendo mais nada.” No derradeiro monólogo do romance, sentindo-se velho aos 31 anos, o homem-multidão faz um exame de consciência  — e o que vê é a paisagem sombria da desesperança acomodada: “Vejo uma porção de homens de pés redondos — e eu no meio deles — rodando, rodando, rodando pelo mesmo quarteirão, comendo pipoca e engolindo em seco com a vista baixa, um passo aqui, outro não sei quando, como se não existisse mais nenhum horizonte, como se o mundo começasse aqui e terminasse aqui mesmo, neste banheiro, neste bairro — e sempre ligado a um aparelho de televisão.”

O romance de Antônio Torres, a mais significativa dentre as poucas estréias de 1972, é vitorioso na medida em que consegue transmitir um poderoso sentimento de solitude, desespero, frustração e ânsia. Literariamente deixa, no entanto, a desejar. Há trechos — principalmente o de uma personagem diante do espelho, a interrogar-se — muito bem realizados, e que por isso mesmo desautorizam outros, escritos, ao que parece, com arrebatamento e pressa.

O romancista faz lembrar, de certo modo, Henry Miller, quando mistura depoimento, reportagem e crônica, numa espécie de diário intemporal, e abusa dos coloquialismos, não se detendo diante de um palavrão. Mas possui em relação a Miller o sentimento de unidade, de condensação. Embora não sendo um escritor surrealista, a prosa nervosa, aos arrancos, e a visão pessimista, profética, aproximam-no também das melhores denúncias de Norman Mailer, especialmente o Mailer de An American Dream e Barbary Shore.

De Antônio Torres é possível esperar uma ficção maior, mais amadurecida  — romances construídos com preocupação de estrutura e maior empenho artesanal. Um cão uivando para a Lua fica como amostra, e boa, de suas possibilidades. Ele leva sobre outros jovens escritores brasileiros do momento a vantagem de não negar o seu depoimento, que é, sem dúvida, o de um homem sofrido. Seu romance terá vários defeitos, mas não o de anemia orgânica que leva o ficcionismo a exercícios em torno do nada.



Visão — 14/05/1973
Carlos Nelson Coutinho

Uma questão de coragem

(...) Exatamente pela sua temática, pela sua recusa obstinada em aceitar as seduções “neutralistas” de um vanguardismo estéril, é que o pequeno romance Um cão uivando para a Lua, do estreante Antônio Torres, destaca-se como o mais importante lançamento literário dos últimos tempos no país. Não há dúvida de que Torres parte de sua experiência pessoal: da experiência de um jovem intelectual provinciano que vem tentar a realização humana na grande cidade, sobretudo através do jornalismo, mas que termina paulatinamente esmagado pelas engrenagens de um mundo alienado, corrupto e hipócrita. Torres consegue criar alguns importantes tipos humanos, capazes de expressar adequadamente alternativas essenciais da jovem intelectualidade brasileira: basta lembrar aqui a significativa e plástica contraposição entre a loucura como forma de conservar o núcleo humano (simbolizada no personagem indicado pela letra A) e a paulatina e melancólica corrupção desse núcleo na figura de T. Pela sua temática, mas também pela sua coragem realista e pelo seu profundo espírito crítico, Um cão uivando para a Lua lembra o Isaías Caminha: sem ser a melhor obra de Lima Barreto, esse romance inaugurou — apesar dos seus defeitos estéticos — uma nova etapa na literatura brasileira de crítica social realista. O romance de Torres talvez desempenhe, guardadas as proporções históricas, um papel similar na difícil época que estamos atravessando.

Contra a corrente

É certo que Um cão uivando para a Lua nem sempre escapa do documentarismo, nem sempre encontra as melhores soluções formais para os importantes problemas que aborda. É também certo que esse documentarismo, identificando-se tendencialmente com o naturalismo, leva o autor a uma posição marcadamente pessimista, que nem sempre faz justiça às possibilidades de renovação que, ape­sar­ de tudo, conti­nuam a existir na realidade brasileira­ de hoje. Mas o decisivo é destacar que esse romance, marchando contra a corrente, propõe-se trilhar o difícil caminho de um reencontro da literatura brasileira com a realidade concreta.

Após tantos anos de predomínio do experimentalismo, de um “vanguardismo” neutralizador e estéril, não causa surpre­sas que esse caminho se apresente tão áspero: seria insensato exigir que, já num primeiro momento, se produzissem realistas da estatura de um Machado de Assis ou de um Graciliano Ramos. Isso implica não apenas no paulatino reaprendizado da arte (hoje em grande desfavor) de narrar uma experiência humana significativa, mas também — e talvez em primeiro lugar — na coragem de escolher e tratar até o fundo os problemas concretos da concreta realidade brasileira de hoje. Preenchendo o segundo requisito, é de supor que Torres não tarde em realizar também o primeiro. No quadro da jovem ficção brasileira, seu romance é um evento: uma confirmação de que o “vazio cultural”, suas causas e seus efeitos, não podem ser tomados como alibi para escapar ao cumprimento das reais tarefas sociais da literatura.



DUAS CARTAS

Audálio Dantas
Lisboa, 25 de janeiro de 1973

São Paulo, dezembro de 1972

Tonho Torres, meu querido A.:

Agarrei o cão pelo rabo, num pedaço de madrugada sem lua e sem muita esperança. O bicho latiu forte cá pra dentro, uivou todos os desencantos, desencontros, machucados de vida, entregas, refregas, lembranças, lembranças, saudades. Fiquei acuado, rabo entre as pernas como vive quase toda a gente, sem coragem de latir para os cachorrões fortes que estão no outro lado do muro, prontos para avançar.

Olha, cara, tu latiste por nós.

Te digo, minha surpresa não foi pela tua capacidade de gritar as coisas. Sempre acreditei na tua pureza juncal (jun­quense, junquesa?) — esse toque sagrado que têm os homens dos lugares humildes. Gostei de ver foi a maneira de gritar. Se tu não tivesse saído do Junco, que gritarias? Aboio de boiada? Canção de trabalho no eito? Serenata pras meninas? De uma coisa tenho certeza: seria sempre bem entoado, como nesse cão uivante, costurado com a perfeição de um velho e honesto artesão de couro, ponto por ponto, recorte por recorte, até a obra de arte.

O cão é o que é — uma obra de arte. Tu costura bem, Tonho. E o importante é que o resultado do trabalho não é simplesmente o do artista que o exibe orgulhoso pela perfeição atingida e depois se refugia na glória da arte pura. O resultado é uma peça da qual o artesão se orgulha por haver cumprido o dever de trabalhador. E a certeza de que vai servir.­

O cão serve. Primeiro, como lição. Ele vem dizendo o que muitos silenciam. Fala, inclusive, pelo meu silêncio. Ousa, arreganha os dentes que outros têm e se esquecem que podem acertar pelo menos uma mordida.

Morde a vida que anda a passar sem muita glória, morde quem quer e está podendo controlar a vida dos outros. Tem importância não que um dia a gente se renda ao chamado dos Ts da vida (há muitos Ts por aí, nós somos um pouco ele, não é?). T. tá engrenado, mas ainda tem algo de puro. Talvez seja isto que nos socorre — a nós, os Ts.

Mas pô! Até quando vamos ser T. na vida?

Enquanto não nos for possível sair dessa condição, uivemos, irmão. Nem que seja para um luar inexistente.

Viva o cão!


José Cardoso Pires

Camarada Antônio Torres,

Muito obrigado pelo seu livro que só agora me foi possível ler. Tenho estado ausente de Portugal em longos períodos, foi por isso. Mas agora que li de uma só tirada Um cão uivando para a Lua acho meu dever inadiável felicitá-lo.

É que, para além do mais, ambiência, quadro social, etc., o que me surpreendeu foi a atitude interior de contestação literária que está subjacente ao texto e que lhe dá essa dinâmica de crise polêmica que, a meu ver, é bem mais valiosa do que a descrição do conflito. Só por isto as cento e tantas páginas do seu livro justificariam muito bater de máquina... muita apreensão com que nos debatemos, todos nós, dian­te duma estória a contar.­

Você contou a sua e bem: por dentro; pela sua atitude em relação a própria frase da acção. Parabéns, por isso.



Montevidéu, Uruguai - El Dia, 15/09/1979
Enrique Estrázulas

Ni Condena ni Absolución

Un Perro Aullandole a la Luna — por Antônio Torres. Editorial Sudamericana. Buenos Aires, 1979.

Com Guimarães a la cabeza, el propio Jorge Amado y su famo­so mito bahiano, Clarice Lispector, Erico Veríssimo, Drum­mond­ de Andrade y otros, la literatura brasileña está con­­­­siderada, por más de una opinión autorizada como clave dentro de las letras latinoamericanas. Al respecto, el mexicano Juan Rulfo fue explícito en sus declaraciones recogidas recientemente por la prensa argentina, durante su bravo estadía en Buenos Aires. De modo que la literatura del subcontinente escrita originalmente en portugués, no es ni tan “relegada” ni tan poco difundida internacionalmente como han pretendido denunciar algunos criticos brasileños, más precisamente en la última Feria de Frankfurt, durante los extensos-coloquios. Esa situación de estéril competencia entre los que escriben en castellano y los que dominan el portugués, comienza a desaparecer en América Latina. Brasil ha abundado en ejemplos nuevos, de nuevos escritores, como Piroli en su novela “Los rios se mueron de sed”, Ary Quintella en su nou­velle “Sandra Sandrinha” etc. Ahora tenemos a Antônio Torres: es, en si mismo, el escritor de la generación perdida, no como rótulo a una generación lite­raria, sino como de­nominación de una situación social vivida por los jóvenes de la última década en el exótico país del norte.

Lo más importante de esta novela, se encuentra en su trasfondo social, en su tono de desesperación, contenido por el sobrio procedimiento do composición del escritor. La carga emocional de cada uno de los personajes es evidentemente­ un descubrimiento dejado libremente a la captación sen­­­sible del Iector. Antônio Torres presenta a los personajes fun­da­mentales mediante signos, iniciales que se encargan de indicar que el narrador voluntariamente se niega a iden­tificarlos. Pero tras esse anonimato — que sin duda alguna es nada más que aparente — se encuentran varios hombres, hay una pluralidad humana notoria, a la vista o latiendo en la tónica del enjundioso texto. Es una generación enganada por una escala de valores falsos. Y se divide en núcleos de diferente problemática social: cada núcleo es un personaje.

“La sorpresa que causó esta revelación — dice a propósito de Torres el critico Celso Japiassú en el prólogo — trajo apare­jado el deseo de encontrar una salida, reflejándose en la búsqueda caótica y desesperada que llevó, inclusive, al consumo de drogas y a una perplejidad no sólo mal comprendida sino hasta reprimida con violencia.” El libro no critica lo que capta y pone ante el lector a veces con la fuerza de un punetazo. No condena ni absuelve. Muestra, nada más, y emociona, con un lenguaje claro y agresivo, pero literalmente creativo. El perro que le aúlla a la luna está solo y busca algo distante, que no sabe muy bien qué es, pero que, sin duda, tiene que ser mejor que las ataduras que lo sujetan. El camino que puede llevar a la libertad transforma a los personajes en viajeros enrolados en una peregrinación intensa y angustiante, dentro y fuera de si mismos, que sólo podría completarse con la comprensión, de la grandeza, de la violencia y la miseria que están presentes en T. y en A., dos de los personajes que Antônio Torres pone ante nosotros y que se transforman en un, espejo para reflejar nuestras propias caras.”

El estilo de este joven narrador norteño, subraya con ferocidad casi morbosa la realidad, mientras que el lector tiene a su frente — a raiz de ese procedimiento literario — la posi­bilidad de opinar y juzgar. Cuando un narrador no abre juicio y pinta tan admirablemente un panorama social, cuando queda todo liberado a los ojos anónimos de los lectores, a la con­ciencia de esos seres desconocidos, no hace más que mostrar un cuadro. Y, además, su talento indudable cuando Ias conclusiones son ajenas y la sugerencia es suya. A Torres le pertenece el gran fresco psicológico de esta obra que no es deliberadamente social, ni comprometida al estilo de los que en su compromiso alimentan su propia vanidad. Ante todo, quien escribió esta novela es un narrador de primera línea. Y dentro del panorama de la moderna literatura brasileña, con esta obra de aliento medio, pero de fortaleza subrepticia, Torres ya tiene un sitio intransferible como literato, pero también como hombre hondamento preocupado por su tiempo, por su país lleno de contrastes, de dolor y de vida.



Estado de Minas - sabado, 14 de junho de 2003
Clara Arreguy

Romance em tom profético

Em edição rica em documentos e reflexões, foi relançado pela Record o romance Um cão uivando para a Lua, de Antonio Torres. Escrito em 1971 e lançado no ano seguinte, o livro demonstra, 30 anos depois, que continua a ser não apenas o retrato de um tempo e de uma geração, mas um documento visionário, que antecipou em décadas a decadência da sociedade brasileira, braços dados o indivíduo e seu entorno social.

Nesta reedição, Antonio Torres prefacia a história explicando em que contexto foi escrita, como foi recebida, por gente que ele nem conhecia na época, como Jorge Amado, Marques Rebelo, escritores, críticos e editores, que saudaram como, apesar de trabalho de estréia, obra de um autor maduro. Um cão uivando para a Lua tem como base a loucura. Depois que o escritor, então um jovem jornalista e publicitário baiano à procura de emprego no Rio de Janeiro, visitou um amigo num manicômio, surgiu-lhe a idéia de escrever sobre o processo  de enlouquecimento.

Ao longo do romance, no entanto, o que era para ser o registro de uma viagem ao inferno particular de uma mente em sofrimento profundo assume outras proporções. A deterioração da política nos momentos mais negros da história do Brasil, o recrudescimento da ditadura militar, está na origem dos problemas gigantescos que se seguiram, como concentração de renda, violência, corrupção e tantos outros, que Antonio Torres aponta, sem proselitismo nem didatismo, na trajetória do herói.

Este, por sinal, não é exatamente um personagem principal, mas dois. O jornalista em crise internado no hospício tem no amigo que o visita um duplo em todos os sentidos. Ambos enfrentam conflitos profissionais: o primeiro, desempregado e surtado; o segundo, agora trabalhando na maior rede de televisão do Pais, mercado que, naquela época, significava vilipêndio a quem sucumbisse ao seu canto de sereia. Os dois transitam entre o jornalismo e a publicidade, entre a seriedade profissional e a vida boêmia, entre a fidelidade a princípios e as concessões ao mercado. Um pira, se interna, sai do ar, toma eletrochoques, mergulha no inferno, refaz, internamente, o road movie que vem sendo sua vida. O outro se espelha no amigo para buscar saídas, deficientes saídas para seus impasses.

Com uma escrita que namora referencias cultas - mas sem pedantismo – e uma visão jornalística do País que se desenhava naquele início de anos 70, Antonio Torres viaja pela Transamazônica, Belém-Brasília, sertão cearense, interior da Bahia, centro do Rio ou periferia de São Paulo com críticas e simpatia. O povo que encontrava ainda não havia se adaptado, de todo, à falta de valores e referências que tomaria lugar de tudo. Os choques muitas vezes são inevitáveis. O que surgirá do futuro ainda não podia ser visto em sua totalidade. O que Um cão uivando para Lua deixava entrever, no entanto, e embora o final do romance fosse otimista, era que se gestava um mostro. Profético.

Além do prefácio do autor, o volume contém também cartas enviadas a ele por gente como Audálio Dantas, a orelha da primeira edição, as primeiras resenhas e críticas publicadas na imprensa nacional e internacional.



Jornal do Commércio, Recife
Fernando Azevedo

Uma geração uivando para a Lua

Antônio Torres criou um cão danado, que agride com a sua dor toda uma geração que vive (ou sobrevive?) entre sonhos e desilusões neste imenso País tropical. O seu “Um Cão Uivando Para a Lua”, magro e vigoroso como um nordestino, rosna e morde com todos os seus dentes, afiados pelas escaramuças travadas na cidade grande, onde a antropofagia ainda é praticada, apesar de 473 anos de catecismo. O seu cão, ao contrário de certa espécie de tigre, é mal comportado, escavaca velhas feridas e fuça mágoas, arranhando em cada página o equilíbrio aparente com que vivemos a nossa vidinha pequeno-burguesa, tecida ainda de sonhos que não se enquadram na realidade. A sua novela não foi escrita solitariamente, toda uma geração assina esta obra, de uma forma ou de outra.

As vezes sádico, debochado, melancólico, trágico ou irônico o seu tom lembra uma memória em processo crítico, onde cada experiência é purgada, pesada e analisada, para compor um quadro que define bem o que poderíamos chamar de uma geração de transição. Afinal, esta geração já se aproxima de uma idade em que terá de prestar contas: assinalar as suas virtudes e relatar os seus vícios e pecados, para que se avalie com exatidão a sua presença histórica e existencial. Uma geração não respira impunemente. Faça o que fizer, sempre haverá um julgamento.

Mas, a novela de Torres não pretende caçar bruxas, julgar ou avaliar quem quer que seja: apenas descreve, às vezes até próximo da crueldade, um estado de vida de uma geração perdida e maldita por diversas razões revelando os seus sonhos, suas ambições, desencontro e quedas. Suas personagens vivem a época da Transamazônica, respiram o ar poluído da metrópole e assumem todos os cacetes e neuroses do nosso tempo. Elas vieram no nordeste, romperam com o cordão umbilical do universo rural e tornaram-se pessoas urbanas, apesar das lembranças nostálgicas e por vezes odiosas da roça e da pequena cidade, onde permanece um passado tão forte que carregam nos ombros e na memória. Torres esquematiza dois tipos de comportamentos cara e coroa de uma mesma moeda, através de suas personagens. “T” enfrenta a metrópole e a máquina com uma visão fatalista (ou terrivelmente cartesiana?): a máquina existe, é forte, monolítica e nada se poderá fazer, a não ser aderir, abdicar os nossos sonhos mal elaborados na adolescência. O sonho acabou, meninos. A vida é dura, devemos enfrentá-la com o que sobrou de nossas couraças ou... nos arrebentamos. No entanto, esse comportamento é epidêmico, aparente porque envolve contradições profundas. Na medida em que “T” sobe na vida, descobre a sua imensa dor, uma dor de quem foi violentado, prostituído, engravidado por uma máquina que cada vez exige mais em troca de magras emoções e algumas gratificações sociais o “status” não é capaz de apagar o desencanto de uma vida rotineira e vazia de significados. Também pode-se uivar dentro de Dodge Dart do ano ou silenciosamente em cima dos confortáveis tapetes Tabocow que cobrem os tacos dos apartamentos da classe média. “T” venceu na vida para a máquina, três hurras para ele. “Ao vencedor, uma camisa de força”. Os tempos mudaram. Na época machadiana, os vencedores comiam batatas e Freud ainda não tinha lançado as bases da psicanálise, a magia civilizada adotada pelo nosso mundo ocidental.

O contraponto de “T” é “A”, uma personagem que esculhamba a sua estrutura nos choques da guerra diária, e vai parar num sanatório , terra de ninguém e exílio voluntário de quem não suportou a antropofagia de todos os dias. Ali, em paz de trégua, “A” realiza uma viagem de retorno às suas experiências de vida num flashback que se transforma num terrível balanço crítico, que transpõe as porteiras do drama pessoal e individual para situar-se numa amarga e desesperada análise de toda uma geração, que descobre estar os valores nus e as intenções onde sempre estiveram: apenas no nível da intencionalidade, simples potencia, nunca ato realizado. A equação está montada e é simples, exigindo uma apreensão apenas didática, como numa lição. Ou aceita-se as regras do jogo, com todos os seus riscos, ou fica-se à margem. A lógica da máquina é implacável e fria, mas exprime uma verdade que se tem de olhar de frente. Ela força, na prática, a uma tomada de posição, aceitar as regras do jogo ou rejeitá-la (jogar ou não jogar, eis a questão), ambas gerando conseqüências, uma, a dor; outra, o vazio do nada. “A” termina a viagem em torno de sua própria dor, e aprende a lição. Quebra o isolamento e deixa o exílio, retornando à vida. Afinal a máquina, possui a força do magnetismo, atrai para o seu campo de força tudo o que gravita em sua órbita, porque é ele quem dá a própria existência ao homem, apesar de limitá-la dentro de fronteiras  bem demarcadas. Fora da máquina não há vida, e isso é óbvio. “A” resolveu a equação, bem ou mal, escolheu o caminho de volta, a dor nossa de cada dia.

Esta é a forte novela de estréia de Torres. Ele destilou toda a sua experiência de baiano que foi para a cidade grande, carregando atrás de si séculos de êxodo contínuo e gerações inteiras, enfrentando uma máquina que se alimenta de homens e sonhos. Como escritor, entrou no festim antropofágico com seus dentes afiados, mostrando as suas marcas e feridas antigas e recentes. Escreveu um cão raivoso, de  peito aperto, que uivou para a lua para lembrar à sua geração as suas dores, as nossas dores. É difícil ver esse cão uivar, com som tão humano e tão verdadeiro. Seu livro é um soco na cara, daqueles que fazem o mundo rodar em nossa volta ao normal, o equilíbrio é sempre restabelecido. Só que espanamos a nossa memória, revisamos as nossas experiências e afiamos os próprios dentes. No final das contas, como disse Faulkner e Torres transcreve como epígrafe de sua novela, “entre a dor e o nada, escolho a dor”.