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Teses e Estudos


ESSA TERRA
Antônio Torres
154 páginas
Formato:12x18cm
Literatura Moderna
Texto integral
ISBN: 978-85-7799-104-4

Essa terra é o romance que consagrou Antônio Torres como um dos mais lidos e queridos escritores brasileiros contemporâneos.”
Italo Moriconi, trecho do prefácio à edição de bolso

"Um romance brilhante, visceral, em metamorfose; a prosa regional e oral transforma-se em poesia pela arte xamânica do narrador, que capta em estado nascente uma narrativa onde tudo se funde, pedra e luz, animal e homem, vida e morte, realidade e sonho. Ou alucinação".
Teolinda Gersão, no Diário de Notícias, de Lisboa ("Dez personalidades elegem livros de 2016").

“Torres, como Graciliano, optou pelo mais honesto: escrever sobre o seu Nordeste. E assim como Graciliano identificava as personagens de Vidas secas mostrando que saíram de sua família, Essa terra tem no lastro biográfico a sua força original.”
Affonso Romano de Sant´Anna, Veja

“Admiro muito a ironia, o calor e o estilo de Essa terra, que tão brilhantemente descreve pessoas cujo destino é mudar de lugar.”


Doris Lessing

Sucesso de público e de crítica desde a edição original, em 1976, Essa terra é um dos romances mais marcantes da literatura brasileira contemporânea. Retrata o impacto da cidade grande sobre o retirante, o imigrante nordestino. O próprio autor, nascido na pequena cidade de Junco, interior da Bahia, percorreu os mesmos caminhos dos seus personagens, deixando o Nordeste para procurar a sorte nas metrópoles do Sudeste. E a encontrou. Essa terra é também sucesso no exterior, com traduções na França, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Cuba. Por todo esse tempo, Essa terra manteve intactos seu vigor e frescor iniciais, conquistando lugar de destaque na cultura brasileira.

Antônio Torres nasceu em Junco (hoje Sátiro Dias), Bahia, e aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem da editoria de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, traduzido para o francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, Um táxi para Viena d’Áustria, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, Pelo fundo da agulha, Meu querido canibal, O nobre seqüestrador e Meninos, eu conto. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 1997, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier Arts et des Lettres. Pelo conjunto da obra, foi agraciado com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000. Em 2001, recebeu o Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9ª Jornada Literária Nacional de Passo Fundo, pelo romance Meu querido canibal.



Uma Leitura no calor da hora – Celso Japiassú, poeta e publicitário – Rio, 21/06/76.

Velho Torres:

Tracei Essa Terra neste prolongado fim de semana que passou. Ou melhor, fui envolvido pelo livro a partir do primeiro parágrafo. Os dois ou três capítulos que eu já conhecia antes de publicado o livro não me tinham dado a idéia do romance inteiro, como vi agora nesta primeira leitura. Pretendo outras leituras, porque a riqueza do livro não será nunca apreendida integralmente lendo-se uma vez só. E esta é uma carecterística dos grandes livros.

A densidade impressiona e as personagens estão construídas com uma precisão maravilhosa. Nelo e o pai principalmente. Totonhim, como narrador, vai crescendo no desenrolar da história até chegar na sua estatura, em que se misturam o arauto e o vivente. Cada uma das personagens me pareceu ser um universo dramático à parte, independente das outras. Não é apenas a história do Junco e sua sina. É tambem e muito mais a tragédia pessoal das personagens que desfilam pelo livro, marcantes e exemplares. História dramática e subjetiva de uma pequena cidade nordestina, é a saga de uma família, é a triste história de nós todos emigrados, é uma bela teia de destinos cruzados que não se ligam.

Queria te dizer também da minha discordância de uma crítica que li não me lembro aonde. O cara elogia o livro mas faz discretas alusões à técnica do autor, que desconheceria certos macetes de narração. Acho o livro muito bom, inclusive tecnicamente. Ou o cara está querendo que você escreva tendo como modelo o romance do século XIX? Era muito bom, mas Stendhal quebraria a cara escrevendo sobre o Junco. Tenho a impressão de que Essa Terra está escrito montado em narrativa tecnicamente correta, usando com segurança as inversões espaço-temporais, não confunde o leitor com pedantismo idiota, nem quer dar “uma porrada na literatura brasileira”.

Enfim, o que eu queria te dizer é que gostei do livro. Quando acabei de ler, no sábado de manhã, fechei o volume, olhei mais uma vez a capa e pensei para mim mesmo – não é que esse puto escreveu uma obra prima?

Receba um abraço, com carinho. Votos de boa carreira para Essa Terra. Para você, muitos e muitos anos de vida produtiva, porque ainda hás de escrever muito para ajudar os teus leitores a viver com mais dignidade, ou seja: viver sem esquecer a grandeza e a miséria da condição humana.



Prefácio da 1ª à 14ª edição – 1976/2000
Lígia Chiappini Moraes Leite

“Ponteiros parados”
Ou a gênese do cão

Quando a matéria é o sertão

"Produto Nacional Bruto; gente se alimentando de farinha de telha, sopa de farrapos e carne de rato". Assim Antônio Torres definiu recentemente sua obra, firme na opção de tematizar um Brasil subdesenvolvido e temporalmente descontínuo. Tais palavras, como ele próprio esclarece, são ditas ainda sob o impacto de uma viagem pelo sertão da Bahia, recomeçada de certo modo nas páginas deste seu novo livro, onde o Junco aparece como um paradigma dos lugarejos nordestinos de “sopapo, caibro, telha e cal”, feios e secos como a gente que ai teima em sobreviver.

Para o autor, o simples fato de existirem muitos juncos pelo Brasil afora justificaria o livro. Embora possamos aceitar esse tipo de argumento, enteressa-me ressaltar alguns aspectos que ele poderia injustamente obliterar. Trate-se de elementos tipicamente ficcionais que, neste livro, alargam o documento, transfigurando a realidade para fornecer dela (paradoxo aparente de toda a arte) uma imagem mais profunda. Interessa mostrar sobretudo que fazer da ficção uma forma de conhecimento da realidade social leva a pôr em jogo um complexo de relações pelo qual autor e leitor também acabam na berlinda, porque são envolvidos pela rede dialógica do discurso ficcional, convite à auto-análise e à participação.

Não há dúvidas de que a estória de Nelo e Totonhim é exemplar. Nesse sentido caberia aqui uma análise que buscasse homologias entre esse mundo de palavras e a sociedade aí representada, através de situações e personagens típicos.

Seria possível mostrar, então, como são generalizáveis a muitas outras regiões brasileiras elementos como estes: a decadência do Junco, com a modernização representada pela chegada do banco por outras inovações que acabam acarretando a ruína dos plantadores e o êxodo para a cidade; nesta, o desemprego, as dificuldades da família numerosa para manter os filhos na escola ou mesmo conseguir o mínimo para a subsistência; a prostituição das mulheres (duplamente descriminadas numa sociedade eminentemente machista) ou a perpetuação de um estado miserável no casamento com indivíduos em condições econômicas igualmente precárias; o sonho da grande cidade como última esperança e, por fim, o esfacelamento desse sonho, diante da evidência de que a “mina de ouro” não é patrimônio comum.

No Junco e sua gente, reconhecemos tipos e situações que já constituem verdadeira obsessão nos romances de Antônio Torres. Em Um Cão Uivando para a Lua, encontramos um repórter como personagem principal, vivendo em São Paulo, mas cuja infância se passa no Junco, em condições muito semelhantes a do protagonista narrador de Essa Terra e de seu irmão, Nelo. Há um momento em que isso fica bem claro. Referindo-se aos meninos subnutridos da Amazônia, o personagem sugestivamente denominado A (o que reforça o seu caráter exemplar), diz: “Mas não era apenas neles que eu estava pensando. Isso também era outra coisa que eu já tinha visto antes, no Junco. Eu já tinha sido um daqueles meninos, eu era a soma deles todos”.

No livro seguinte, Os Homens dos Pés Redondos há igualmente um personagem denominado O Estrangeiro que também veio do Junco, para a grande cidade, onde trabalha como publicitário. Essa presença obsessiva de alusões à vida no Junco, principalmente ligadas à infância, apontam até mesmo para um certo cunho autobiográfico das estórias de Antônio Torres, como sugerem certas passagens do prefácio de Essa Terra, onde reaparecem esses elementos obsessivos que também vão entrar na composição deste romance. Entre outros, a família numerosa; a dificuldade em fazer o ginásio; a modernização do Junco contra o desenvolvimento do trabalho na lavoura; os amigos e conhecidos que emigram para as grandes cidades; os tipos reais que inspiram os seres ficcionais, embora não se confundam com eles, como o velho Giese, Lela de Tote, Humberto Vieira... Pode-se levar mais longe a analogia, se notarmos as semelhanças de certos nomes ou iniciais: Lela – Nelo; Antônio Torres – A e T (personagens de Um Cão...); Antônio Torres – Totonhim. Mas tudo isso ainda é o mais óbvio e o mais exterior no texto. Para alcançar uma dimensão mais profunda de leitura é preciso verificar como tipos e situações se refletem na consciência dos personagens neste romance e quais as relações entre uma certa consciência coletiva difusa e culpada da gente do Junco, com a consciência mais crítica, mas igualmente culpada, do narrador-protagonista.

Pela sondagem das idas e vindas dessa consciência a que o leitor tem acesso mais diretamente, porque grande parte da estória é narrada em primeira pessoa, é que se estabelecerá uma ponte entre o personagem, o autor e o leitor, rumo a uma representativa mais interna ao texto.

Quando a culpa faz crer no Apocalipse

Perpassa o livro todo uma culpa coletiva da qual participam em menor ou maior intensidade todos os moradores do Junco. E o pecado parece ter sido o abandono da terra, a entrega à sedução do progresso, a fidelidade concedida ao Anticristo, representado pelo banco, cujos empréstimos precipitam a decadência da lavoura com a imposição de plantar cizal. O banco e o sargento são os principais agentes estranhos que vêm disseminar o mal no pequeno lugarejo; com eles vem a televisão, as idéias extravagantes, as novidades citadinas, o palavreado enganoso, para roubar os braços fortes do cabo da enxada e enfraquecê-los no uso da caneta. As pessoas enlouquecem para purgar essa culpa coletiva: como Alcino, Pedro Infante, o prefeito, a mãe de Nelo.

A loucura vai-se alastrando à medida que a narração progride e a fala profética do doido Alcino dá coerência às alusões dispersas ao Apocalipse e às pragas de ilustres antepassados, como Antônio Conselheiro. A terra irada fala pela boca de Alcino uma linguagem bíblica. Sua voz é um pano de fundo constante contra o qual os acontecimentos do presente (que giram em torno da morte de Nelo) ganham uma dimensão trágica. A loucura põe a nu a culpa e a clama pela expiação.

E a culpa se configura cada vez mais na vitória da caneta contra a enxada, duas forças em conflito, personificadas em dois personagens-chaves: o pai e a mãe de Nelo. Esta, defendendo a ida para a cidade, a compra da televisão, a escola; o pai, sustentando a permanência na terra, o plantio, a união da família no trabalho da lavoura. Essa luta, por vezes, se interioriza num só personagem, como em Nelo que, embora nada possa esperar de São Paulo, onde perdeu tudo, não se adapta mais no Junco, à sua vida primitiva e seu conforto.

Mas a culpa de ter abandonado o pai, a lavoura e a velha casa o persegue e é retomada simbolicamente no remorso por ter perdido o chapéu. Este é símbolo dos tempos primordiais, “é do tempo de Deus nosso Senhor”. Imagem da proteção e de uma vida sem culpa, o chapéu aparece na cena em que Nelo está sendo agredido pelo primo e rival, numa noite indiferente da grande cidade. Nesse momento, o pai aparece-lhe estendendo o chapéu e cruzam-se em sua mente perturbada cenas do presente com cenas do passado: lembranças desconexas de uma vida telúrica, onde encontra refrigério para o sofrimento da hora. Mas a culpa de ter perdido o chapéu é inseparável da consciência da impossibilidade de voltar a usá-lo. É aliás, essa ambivalência que impede o livro de cair num tom excessivamente saudosista, pois sob a culpa há sempre a desconfiança de que ela é também uma força repressiva que se exerce sobre o homem miserável do sertão. Aliás, essa desconfiança já se insinuara anteriormente, quando A recordava as explicações supersticiosas que, em criança, ouvia para o fenômeno das chuvas e das secas: “o mesmo Deus que dava chuva, também dava sol e o sol era castigo dos céus, diziam os mais velhos, citando fanáticos e profetas”.

Mas a ambivalência entre a aceitação e a negação da terra, de suas crenças e de sua gente, por parte e Nelo e de outros personagens dos romances anteriores, também existe no narrador-protagonista de Essa Terra. E, embora a profecia seja contrabalançada pela explicitação das causas econômicas e sociais da decadência do Junco, ela continua a enformar a narração, ora diretamente, ora através de símbolos de danação, como o sol ou o mata-pasto. Aceitar a profecia é aceitar a culpa. E, de fato, esta é introjetada no personagem narrador desde o início da narrativa.

Quando o homem se faz em pedacinhos

Como o narrador é também protagonista, a narração se faz, de maneira descontínua, desenrolando-se ao sabor das lembranças mais ou menos imediatas e mais ou menos intensas. Misturam-se, assim, aos acontecimentos do presente (que são poucos e giram em torno do fato central: o enforcamento de Nelo) os do passado, que aparecem sempre envoltos no tom magoado do narrador (tom de menino preterido pela mãe e abafado pela imagem de um irmão perfeito, quase lendário). Assim, à medida que a narrativa avança, o narrador se transforma em narrado, porque sua palavra nos diz menos sobre os outros do que sobre si mesmo. Analisar o seu passado e o de sua família é também realizar um esforço de auto-entendimento e, em todo esse processo, avulta um traço no seu relacionamento com o pai, a mãe, o irmão e o lugar de origem: a ambivalência entre o amor e o ódio. A uns e outros repele e deseja ao mesmo tempo. Odeia a mãe por discriminar os filhos em favor do mais velho, por atormentar o pai e por representar a mulher escrava do consumo; mas admira-lhe a tenacidade, a coragem e ama-a como amante não correspondido, deixando transparecer às vezes fantasias incestuosas: “Minha mãe vai virar sereia. Eu sempre achei que ela tinha corpo de sereia”. Por outro lado, o pai aparece envolvido em grande ternura, como o homem da terra, o artesão, familiarizado com os bichos e a morte; homem bom, incapaz de bater num filho, vítima de uma mulher mais astuta e ambiciosa.

Deslocado para a cidade, porém, ele aparece bêbado e fraco, incapaz de sustentar a família e de assumir as responsabilidades de chefe, quando então avulta, por contraste, a figura quase heróica da mãe. A ambivalência se resume freqüentemente numa frase: “Todos têm razão. Essa é que é a verdade, todos têm razão”. E ambivalente é também a relação do narrador com a terra, como já indicam os próprios subtítulos, nessa síntese de contrários que é a terra-mãe chamando, mas ao mesmo tempo, enxotando; fazendo enlouquecer, mas também amando.

A mesma culpa do personagem-narrador transparecendo no final, ao perceber que o desejo de libertar-se da família, para “não morrer atolado em problemas” é a mola mestra da sua partida, (mal escamoteada pela necessidade de ganhar mais e auxiliar o pai e irmãos menores) aparecia naquele momento em que A lembrava a visita feita aos pais, visto então como dois estranhos; momento em que a acusação se explicita: “Pensa que mandar um dinheirinho todo mês para sua gente já resolve tudo, pensa? Você é um assassino”.

Na verdade, o narrador-personagem Totonhim é o ante-Nelo, o ante-A e o ante-Estrangeiro; ou é todos eles no seu nascedouro. Nesse sentido, é um duplo de Nelo, em Essa Terra.

Nelo traz para dentro desse romance a figura dos outros personagens desencontrados de si mesmos, porque se perderam na cidade, e os confronta com um passado vivido no Junco. Totonhim identifica-se com Nelo, embora mantenha também em relação a ele, a atitude ambivalente: ama-o, admira-o, faz dele a “palha de lenha dos seus (meus) sonhos”, mas odeia-o e sente ciúmes pelo que ele sempre representou para os pais; e sobretudo não o perdoa por haver, com sua morte, revelado a sua verdadeira face, desfazendo o mito ao expor-se em toda a sua miséria material e moral.

A ambivalência explica porque encontram-se lado a lado cenas de extremo carinho de sua parte para com Nelo, e cenas violentas como aquela em que tenta esbofetear o cadáver. Mas a complexa relação do narrador com Nelo se revela através de uma imagem central – dos ponteiros parados: “vinte anos para a frente, vinte anos para trás. E eu no meio, com 2 ponteiros eternamente parados, marcando sempre a metade de alguma coisa – um velho relógio de pêndulo que há muito perdeu o ritmo e o rumo das horas”.

Essa imagem torna evidente que a vida de Totonhim é um simulacro. Ele tem 20 anos que desviveu identificando-se com o irmão, projetando o desejo de ser outro. Os próximos 20 anos estão condicionados igualmente pela vida do irmão que tem 40. Relógio sem corda, ponteiros parados – conotando uma vida desvivida por antecipação, morte na repetição padronizada, vida de forno – a imagem é mais ampla, transcendendo o caso específico do narrador-protagonista e adequando-se a toda uma gama de indivíduos – classe média, indecisos entre o apego a um passado de miséria e a identificação com uma classe superior a que buscam ascender. Totonhim prefigura (embora seja criação posterior), o intelectual-classe média que os personagens principais dos outros dois romances representam. A inversão explica-se porque as origens parecem mais claras à luz do vivido.

O espelhamento de um personagem em outro que existe aqui entre Nelo e Totonhim já existia entre A e T e entre De Jesus, o Estrangeiro e Alves. De um livro para outro há uma fragmentação crescente do homem, figurando a desestruturação da personalidade na luta cega pela ascensão, no trabalho sem prazer e sem dignidade, no sufocamento do indivíduo progressivamente retificado.

Se em Os Homens dos Pés Redondos a esquizofrenia chega ao máximo, com a explosão de um personagem em três, refletida na própria explosão do arcabouço lógico da narrativa que caminha por direções desencontradas (e se isso já acontecia de certa forma com a patética figura de A, perplexo ante a necessidade de conviver com dois seres diferentes dentro dele) Essa Terra parece buscar a unidade perdida, mas o que encontra são já os germes da esquizofrenia. Totonhim já não é mais Totonhim; Nelo é quem tinha razão: ele já traz as marcas do homem dividido.

Por isso, uma análise mais profunda deste livro mostra que não se trata somente da representação da miséria do Junco ou do Sertão Brasileiro, mas sobretudo de uma sondagem que se inicia (ou prossegue): a sondagem de uma condição social, através do mergulho no caso individual que acaba nos conduzindo às origens mais gerais da culpa, onde se encontram o autor, o personagem e o leitor, sofrendo na pele a fragmentação do homem, desde que a civilização criou o abismo entre a enxada e a caneta.

In ESCRITA. Ano I, n° 1, 1975. p.19.

Cf.: LUKÁCS, Georg. “La categoria de La particularidad.” In: Estética. Barcelona, Ed. Grijalbo, 1972. v. 3.

TORRES, Antônio. Um Cão Uivando para a Lua. Rio de Janeiro, Ed. Gernasa, 1972.

Id. ibid., p.45. (Sobre o caráter exemplar de A e T ver a orelha do livro, escrita por Celso Japiassu.)

TORRES, Antônio. Os Homens dos Pés Redondos. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves Ed., 1973.

TORRES, Antônio. Um Cão Uivando para a Lua. Rio de Janeiro, Ed. Gernasa, 1972. p. 45.

TORRES, Antônio. Um Cão Uivando para a Lua. Rio de Janeiro, Ed. Gernasa, 1972. p. 100.



" Essa Terra marca nitidamente o contraste entre o interior - de estrutura feudal, miserável, mas de valores e feições humanamente reconhecíveis - e São Paulo, sem rosto nem forma, um falso Eldorado onde ganhar a vida significa perder o seu sentido." Leo Gilson Ribeiro/Jornal da Tarde (SP)



Revista Veja, 30 de Junho, 1976.
Affonso Romano de Sant’Anna.

O suicídio do herói

Poderia se chamar também “a volta do herói” esse romance em que Antônio Torres conta como o baiano Nelo larga sua família, vai para São Paulo e regressa, vinte anos depois, para se enforcar aos olhos do irmão mais novo e dos parentes, que o julgavam um indivíduo bem sucedido.

O livro – ilustrado por Elifas Andreato – retrata o herói, ou melhor, o anti-herói como o são também o repórter de “Um Cão Uivando para a Lua” (1972) e o publicitário de “Os Homens dos Pés Redondos” (1973), livros anteriores com os quais Torres marcou seu lugar entre os novos ficcionistas. Unindo os três livros, aparece não apenas a temática da loucura e da miséria social, mas a referência à cidade baiana de Junco, que assume um destaque maior em “Essa Terra” (Junco é a cidade natal do próprio Torres).

Tragédias – A história é contada pelo irmão mais novo Totonhim, e narra a decomposição de um mito. Assim, Nelo, que era “um homem belo e rico, com seus dentes de outro, seu terno folgado e quente de casimira, seus raybans, seu rádio de pilha e um relógio que brilha mais do que a luz do dia”, vai se convertendo num bêbado incapaz de criar uma família. Cheio de doenças, encontra no suicídio o gesto capaz de libertá-lo da falsa imagem que a família nele cultivava.

A história, contudo, não se reduz a esse eixo dramático. Além do lado psicológico ou individual, interessa ao romancista o contexto social onde isto se gera. Daí que a tragédia do individuo e a tragédia da comunidade estejam interligadas neste livro. E ao intitulá-lo “Essa Terra” e ao situá-lo no nordeste. Antônio Torres está se filiando a uma tradição literária que tem um de seus melhores momentos no romance social de 1930.

Mas poderia surgir a pergunta: não estaria o autor entrando perigosamente numa terra exaurida já pela ficção de um Graciliano Ramos especialmente com seu “Vidas Secas” (1937)?

Outro nordeste – A melhor resposta poderia ser encontrada no própria Graciliano, a quem Otávio de Faria advertiria de que o sertão, esgotado, não dava mais romance. Ao que o escritor alagoano retrucou: “Santo Deus! Como se pode estabelecer limitações para essas coisas” – e fez a obra que fez. Torres, como Graciliano, optou pelo mais honesto: escrever sobre o seu nordeste. E assim como Graciliano em carta a José Condé identificava as personagens de “Vidas Secas”, mostrando que saíram de sua família, “Essa Terra” tem no lastro biográfico a sua força original.

Tecnicamente o livro de Torres (e de muitos ficcionistas jovens brasileiros) mostra um avanço em relação à montagem dos romances sociais de 1930. à narrativa linear e cronológica ele prefere um desencadeamento em que passado, presente e futuro se cruzam oferecendo uma estória às vezes de acompanhar. Em torno da tragédia central, pequenas outras narrações reafirmam a tensão patética das personagens.

Cabe, no entanto, a cada época, educar os seus bons leitores. O publico de 1930 teve também que aprender a re-ler o Brasil. No caso específico deste livro, existe toda uma leitura acompanhada por uma introdução e um “suplemento de trabalho” endereçado a alunos e professores. E através de uma aliança com a escola procurar formar um público novo que se deixe transformar por uma linguagem também nova.



Uma análise mais profunda deste livro mostra que não se trata somente da representação da miséria do Junco ou do Sertão Brasileiro, mas sobretudo de uma sondagem que se inicia (ou prossegue): a sondagem de uma condição social, através do mergulho no caos individual que acaba nos conduzindo às origens mais gerais da culpa, onde se encontram o autor, o personagem e o leitor, sofrendo na pela a fragmentação do homem, desde que a civilização criou o abismo entre a enxada e a caneta".

Lígia Chiapinni Moraes Leite, da Universidade de São Paulo, no prefácio à primeira edição do "Essa Terra" (1976).



O Estado de São Paulo, 9 de dezembro de 1984
Cremilda Medina

A terra foi lavrada. Brotaram palavras

Qual escritor – ainda mais se vier dos confins da terra brasileira – que não se emocionaria ao ver um livro seu, em francês, com destaque numa boa livraria de paris? Antônio Torres, que começou a publicar nos anos 70 e ficou mais conhecido depois do sucesso de “Essa Terra”, passou agora por essa experiência quando compareceu ao lançamento do mesmo livro (Cette Terre) na França. Já se vai acostumando às edições estrangeiras: a Editorial Sudamérica lançou Un perro aullándole a la luna, “Essa Terra” está também traduzido para o inglês e seus contos figuram em antologias no Canadá, México, Polônia e Argentina.

Não que se embriague com a expansão além da fronteira brasileira. Ele, como a generalidade dos autores nacionais, sabe que este é o autêntico espaço de difusão para a literatura brasileira. Mas seu lado ingênuo (adolescente, por que não?) sente um certo frisson diante de um vitrina parisiense, mesmo que a voz do Brasil se dilua no meio de um mar de outras vozes internacionais. Talvez porque o menino Antônio não esqueça nunca que saiu da terra, da enxada, no interior mais remoto da Bahia, e conseguiu chegar, quase por milagre de sobrevivência, ao domínio da máquina de escrever.

Junco, Bahia, 1953. Antônio Torres, filho de agricultores assolados pelas intermitentes secas do Nordeste, teve a grande chance de aprender a ler e escrever com a professorinha abnegada que por lá peregrinou. Eram 11 filhos e Antônio devorou as seletas emprestadas pela professora, adquiriu o dom mágico de saber ler e a comunidade o consagrou: foi uma criança muito especial que percebeu o significado e o serviço a que se presta a escrita e a alfabetização. Era requisitado para ler e escrever cartas, único vínculo de tanta gente que saiu das agruras do sertão para nunca mais voltar. Viúvas de maridos vivos ou namoradas que perdiam seus companheiros, obrigados a partir. Era ele quem escrevia as declarações de amor e de dor. Segunda-feira, chegava o correio no lombo do burro e, com ele, a esperança de vida que fatalmente teria de passar pelos olhos abertos, atentos, de Antônio. Nos outros dias da semana, nas horas de descanso do campo, era os ouvidos do menino que se perfilavam para captar os romances, as estórias de pavão misterioso da fabulação popular.

Os auditórios de Paris, por ocasião do lançamento de Cette Terre, deliraram quando o escritor brasileiro falou dessas raízes. Nada de realismo fantástico, mas sim fantástica realidade. Disse mais para europeus estupefatos: desde sempre valorizou a palavra como serviço muito importante. Na hora em que morria alguém no Junco, chamavam-no para ler o missal. O compromisso com a escrita pesa sobre sua cabeça até hoje, mas foi só em 1975, em um debate público, que se conscientizou: é um escritor fatalmente engajado com a palavra escrita. Tudo o resto veio por acréscimo: conseguiu ir estudar no ginásio em Alagoinhas, descobriu as bibliotecas e suas almas – Tolstói, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato e tudo que caísse na rede. Trabalhava numa sorveteria e, sempre que dava, corria para o cinema, com programa duplo, os filmes mexicanos da Pelmex, as chanchadas brasileiras, os musicais de Hollywood; vieram também James Dean e Elvis Presley...

Já em Alagoinhas, menino metido, escrevia para o jornal local. Quase foi expulso do ginásio, porque tratou da escola sob o titulo – “A Casa Grande de Cunha”. Foi difícil tentar convencer Cunha, o dono da escola, que esse titulo não tinha nenhuma intenção... O jornal do ginásio também lhe serviu de prática na profissão que logo se impôs. Paralelamente, lia muito poesia. Como bom baiano, não fugia ao império de Castro Alves, mas também se deliciava com Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos. Até aí, pura vivência de um mundo interiorano. Com o serviço militar, porém, deslocou-se para Salvador, a primeira grande capital em sua vida.

Jogou alto. Sempre. Um borracheiro de Alagoinhas, que veio a Salvador pelo trem Marta Rocha (não havia asfalto), o apresentou ao editor-chefe do Jornal da Bahia. Quase morreu de emoção, as pernas tremendo. Pois ficou no jornal e caiu na realidade imediatamente. Mandaram-no para o cais do porto fazer matéria, não viu nada acontecendo e morreu de desgosto quando, no outro dia, os jornais de Salvador falavam de contrabando naquele mesmo cais em que não descobrira notícia. Essa dura experiência jornalística só é compatível a outra, no mundo da intelectualidade, quando, no aniversário do patrão, as pessoas só comentavam Proust. Ele, homem da roça, guardou um trauma que o empurrou a vida toda à procura de uma permanente atualização nas leituras.

O jornalismo, tirou de letra. A literatura, descascou-a e descasca-a até hoje com empenho e paixão. De Salvador para São Paulo, para trabalhar na Última Hora, muitos quilômetros rodados. A reportagem de rua e a linguagem dos paulistas, de início, o assustaram, não entendia bem o que escreviam, mas prestou muita atenção e se desempenhou. Saiu da era da reportagem de bonde para a frota de jipe. O que sempre se ressaltava era o pulso verbal desse baiano treinado em cartas, missais, pavões misteriosos, poemas, crônicas, reportagens e outros desafios do cotidiano. Por isso, não foi difícil ele, da enxada em Junco nos anos 40, passar para a publicidade, em São Paulo, nos anos 60. Em 1965, já então um redator muito bem pago com perigo de se escravizar para sempre à publicidade, fugiu. Foi para Portugal conhecer outros mundos, provas de outra aventura. Desempregado, sem eira nem beira, um anjo bom veio em socorro, o recolheu à sua casa e alimentou-o da mais pura literatura.

Antônio Torres deve ao poeta português Alexandre O’Neill não um mecenato, porque o poeta é pobre em toda parte, mas uma amizade e uma bagagem de leitura. Nos quatro meses em que ficou desempregado foi plantado às margens de Guimarães Rosa, entre outros pelas mãos de O’Neill. Por incrível que pareça, o poeta português o levou para Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, entre muitos autores de todas as latitudes. Enquanto seus companheiros de ofício ou afinidades procuravam os Estados Unidos para se aperfeiçoarem, Torres se achou em Portugal. Se achou e achou seu texto. Mais uma vez O’Neill teve um papel fundamental. Dizia ele, vocês, brasileiros, sofrem de um complexo de inferioridade cultural. Então ele percebeu e agarrou seu texto, um texto mergulhado no Brasil, sem traumas de Proust na consciência.

Deve também ao romance de 30 – Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz –, de quem é eterno aprendiz, a inspiração ficcional, Transpira muito até dar forma ao texto. Terminar um romance representa muita morte. Persegue, no fundo, a auto-superação: só se dá por atacado se uma pagina o surpreende, se sente uma nova dicção. O primeiro livro – “Um Cão Uivando para a Lua” (1972) – marchou em compasso de espera muito tempo. Não achava a primeira frase, para ele essencial. Dois anos sem encontrá-la. Um dia, numa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro, diante do amigo alienado, ficou sob o impacto da cena Só se acalmou quando jogou no papel um conto em que uma pessoa, alucinada, fala consigo mesma. Daí parar o romance, se passaram oito meses, Mas Torres adverte: por trás desses oito meses, o período mais curto em que escreveu um livro, estavam 30 anos de vida.

O segundo livro – “Os homens de Pés Redondos” - nasceu ainda quando vivia em Portugal. Sentado na Praça de Londres, no primeiro dia de Lisboa, viu a gente que passava, sentiu como que os pés redondos, cansados de tanto rodar. Ao escrever seus primeiros romances, nos anos 70, sentia-se assim de pés redondos, a literatura saindo como quem arranca uma espinha da garganta. Para uma geração de direta convivência com o Cinema Novo com o Teatro de Arena e com a Oficina de São Paulo, cm a descoberta de Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha) e com ele, o conhecimento do homem brasileiro, a construção de personagem, foi como que uma compulsão expressar algumas das estórias que se acumulavam no baú. O romance é o espaço preferido, justamente porque é uma estória cheia de estórias, uma base de conflito e tensão. Nunca abandonou o mundo de Junco, a infância cheia de narrativas, os casos da cultura oral. À medida em que entrou nas vísceras da cidade grande, pressentiu que este é um mundo sem fábulas. As fábulas vivem com seu pai, seu avô. Ele, no entanto, assumiu as conseqüências urbanas. O conflito básico, em ternos estéticos – também um grande desafio -, é plasmar a fabulação tradicional com a narrativa urbana, a toada com o rock’d roll.

Malcolm Silverman, estudioso norte-americano, ao analisar a ficção moderna brasileira (em livro editado pela Ed. Civilização Brasileira), cita essa variação de Torres a partir mesmo dos dois primeiros romances que seriam urbanos, e o terceiro (e mais bem-sucedido_, que seria rural: “As revoltantes realidades contidas nas limitações geográficas de Essa Terra variam somente em contexto, se comparadas às de Os homens dos pés redondos e Um Cão Uivando para Lua. O pandemônio urbano, embora menos de molde a produzir um trauma psicológico imediato (como uma seca ou uma enchente), submete a resistência humana a uma prova igualmente dura”. Silverman que estuda, neste trabalho, até o quarto romance (“Cartas ao Bispo”), concluiu que “Antônio Torres emprega a figura onipresente de Gil como uma espécie de trampolim para o tema esterno das vicissitudes da vida, e também como um espelho passivo das iniqüidades sociais (por exemplo, a pobreza endêmica nordestina)”. O que quer dizer, no fundo, é que Antônio Torres, não importa onde se localiza geograficamente – se no campo ou na cidade -, está do lado dessas vicissitudes. “A linguagem reforça esta temática, sendo espontânea, despretensiosa e repleta de imagens populares,” O Crítico norte-americano arrisca uma certa fórmula, percebida no quarto livro, que seria uma mistura da tese neonaturalista com a introspecção modernista: “O autor demonstra senso de objetividade na escolha dos seus temas e um calculado refinamento de linguagem”.

Foi exatamente essa linguagem de transfiguração da realidade sofrida do sertão ou da metrópole que levou os franceses a saudades Gette Terre como “um testemunho e porta-voz de uma população que se esforça obstinadamente por sobreviver em meio ao barulho e à fúria de uma terra e, transe” e, por outro lado, um testemunho traçado pelas mãos de “um poeta e pintor”. Torres, modestamente, se alia aos ficcionistas brasileiros e aponta para o esforço dos anos 70: beber das águas do mais modernos escritores, Machado de Assis, percorrer a ética e a estética do romance dos anos 30, entrar no grande rio de unidade nacional, Guimarães Rosa, prestar atenção a duas diferentes contribuições -  Antônio Callado ( em “Quarup”) e Clarice Lispector -  e dar as mãos a todos os da ativa (presentes neta série), cada um com seu sotaque, e solidificar a identidade nacional, unindo os séculos que convivem neste território, sem esquecer a grande modernidade literária do continente e do mundo.

Um novo romance sairá, se tudo der certo, em 84. O estímulo de Paris valeu. Há um ano e meio não daí das 30 páginas iniciais, vai trabalhando no pão nosso de cada dia (a publicidade) e acredita que agora o livro deslanche. A cada novo parto as exigências de auto-superação são maiores. “Essa Terra” ficou marcado tanto no âmbito do público (grande audiência em São Paulo, Nordeste, da Bahia para cima) quanto na sua esfera emocional. Confessa que o sente como mais abrangente. Talvez o que lhe deu maior resposta como escrita a serviço do outro. Os olhos se enternecem ao lembrar que foi chamado para ir a São Paulo, convidado por baianos anônimos do ABC, seus conterrâneos de Junco, que queriam abraçar esse escritor da terra.



Jornal Folha da Tarde – São Paulo,  06/09/1976.
Torrieri Guimarães

Bilhete a Antônio Torres

Eis aqui uma antiparábola. Não é o filho pródigo que está voltando à sua casa farta, rica, para uma festa de reencontro que deverá durar muitos dias – “porque estava perdido e foi encontrado”; nem é o filho mais novo, no ardor de sua juventude, que tivesse desejado conhecer o mundo e tudo quanto ele oferece de oportunidades para a recriação da vida, pelo contrário é o irmão mais velho que esteve fora, que lutou e sofreu, e agora volta; nem é o filho que regressa depois de ter perdido toda a sua fortuna, de ter esbanjado a sua parte da herança paterna, e ter comido a mesma comida disputada aos porcos – em vez disso se vê um homem no caminho da completa maturidade, cercado de um halo de heroísmo, que venceu a Grande Capital e volta para trazer aos seus as esperanças de uma redenção.

É o anti-herói, da antiparábola. E entretanto todo o romance de Antônio Torres acaba constituindo-se numa extraordinária parábola, densa de ensinamentos, que se precisa colher devagar, sem pressa, na dinâmica dos diálogos e no estudo sereno das situações, no confronto dos personagens e nos quadros de decadência física e moral que ele apresenta. A parábola de um homem que retorna a sua terra e sua gente para acionar velhos mecanismos de lembranças e permitir, a partir da frustração de sua imagem, que se deteriora e se destrói, uma apreensão completa da realidade que a todos envolve e condiciona. Como se o pobre enforcado, com seus despojos gloriosos, o relógio de pulso e os óculos rayban, ligado à história de todos e de cada um, como produto do meio, deflagrasse um processo de tomada de consciência.

Agora  que ele esta morto, e com ele o mito e as esperança, quebrada a imagem da grandeza sonhada, destruída a ponto entre a realidade e o sonho, é preciso que cada um, na medida de suas forças, aceite a sua derrota ou a sua miséria, ou se insurja contra eles, tentando fugir ao circulo vicioso das tradições. Da cultura cristalizada, do conformismo, da aceitação passiva dos desníveis sociais, refazendo a frágil ponte entre a Grande Ilusão (São Paulo) e a Dura Realidade (Junco). Apesar do nome da cidade e de seus personagens, o romance pode situar-se no universal, porque a situação que encena afeta a muitos grupos sociais, diz respeito a coletividades inteiras, que tanto podem ser a dos insulados no sertão, com seus costumes centenários e seus condicionamentos, despertados por estímulos que não compreendem e por isso também incapazes de um comportamento adequado – isto é, o pouco preparo para as técnicas novas de cultivo e de financiamento bancário, que resulta em um conflito eterno entre o moderno e o antigo – como também a luta de quaisquer comunidades pobres, com os sonhos dourados da sociedade de consumo (o automóvel, o televisor, os gastos facilitados) e a miséria sabiamente controlada por computadores. Antônio Torres dá um grande salto de “Um Cão Uivando para a Lua” para este “ESSA TERRA”. Menos discursivo, contido e sóbrio em sua linguagem, ele sabe agora conter-se no essencial de sua narrativa, reproduzindo com mais verdade e menos demagogia (no sentido clássico, irmão) a realidade social resultante do entrelaçamento daquelas vidas do Junco. O mesmo que dizer que os tipos não são aqui vistos por uma perspectiva ideal, mas reproduzidos em toda a sua grandeza e suas misérias; como se o autor tivesse melhor dosado as suas emoções, sem deixar se dominar por elas, mas conduzindo-as no sentido de uma recomposição de momentos básicos para uma montagem a mais exata dos quadros de sua denúncia.

E ai esta a palavra: Antônio Torres não escreve por diletantismo, nem por simples e utilitária profissão. E um pesquisador atento. Na raiz de seus trabalhos esta a ansiedade do artista que busca decifrar-se e decifrar aos seus iguais (para não ser devorado). Depois de ter esperado e sonhado, como Totonhim, ele compreende: e tendo compreendido, não pode mais ficar indiferente, acomodar-se, aceitar a velha e insustentável problemática de sua existência. Ele também precisa partir (o eu significa tentar a mudança). Para o homem comum, que é Totonhim, é imprescindível atravessar a ponte entre a Realidade e o Sonho, para reconstruir-se (ou buscar a reconstrução), definir-se.

Para o escritor resta (ainda) a palavra. Ele compreendeu, ele denuncia essa problemática social: a dissolução da família, pela miséria, pelo desamor, pela prostituição; a exploração da ignorância, o abismo entre gerações e entre pólos culturais e econômicos; a violência e o esfacelamento do homem que perdeu as raízes e despersonalizou-se. E denuncia. Como quem enxerga além dos véus das aparências.



"Desde João Guimarães Rosa não se apresentou nenhum escritor brasileiro que descrevesse, poeticamente e com vivência, o panorama belo-horrível do Sertão: o isolamento da noite tropical, quando o espírito dos mortos vem à superfície e os morcegos voltejam na penumbra, o revérbero do mormaço do meio-dia, o impiedoso calor causticante. Antônio Torres, que como menino escrevia cartas para os moradores da vila ou lhes lia as que raramente chegavam das distantes capitais, consegue neste curto romance uma verdadeira obra-prima."

Wolfgang Eitel, no Süddeutsche Zeitung, Alemanha



Tribuna da Imprensa – Rio de Janeiro, 11-12 de dezembro de 1976.
Leonor Basseres

A Terra Nossa de cada dia

Quem sou eu?

Quem é você?

Que receita foi usada na produção do seu vizinho? Aquele a quem você sorri vagamente todo dia à mesma hora no elevador?

Quantas colheres de sopa, de mãe, o fizeram tão gordinho? Quantas, de pai, lhe deixam assim a fronte úmida mesmo nos dias de temperatura amena?

Quantas pitadas de tio bêbado, quantas gotas do louco da cidade?

O tempo necessário de colocá-lo na batedeira?

Do que é feito gente, em nome de que pai, que filho, que espírito, que santos?

Fiquei surpresa ao ler Essa Terra, de Antônio Torres. Baiano de Alagoinhas (o que só soube por mero acaso recentemente), nunca foi um autor regional. Aí estão as provas, Um Cão Uivando Para a Lua, seu livro de estréia e o admirável Os Homens dos Pés Redondos. Neles aceitou dissecar o homem qualquer que fosse o seu universo: o limitado de um hospital psiquiátrico, ou o amplo de um país em plena efervescência política, preste a explodir. E que explodiu. Proféticas previsões de artista.

Custei a entender. Mas quando o consegui foi um só deslumbramento.

Busco nas estantes os livros mencionados. Não os encontro. Minhas estantes são de alta rotatividade: não sou avara nem ciumenta das minhas jóias. Os homens dos Pés Redondos, talvez estejam com Nina. Lembro que não parou de folheá-lo num jantarzinho aqui em casa. Um Cão, talvez eu o tenha levado para Petrópolis, para reler nas noites frias de inverno. Assim, despojada, não posso citar trechos que confirmem a minha idéia. E você, leitor, tem que confiar apenas na minha lembrança e vago instinto. Ou então, compre-os para ler. Estará adquirindo clássicos, não enchendo sua casa de lombadas vazias.

Ainda vivemos num país de panelinhas literárias, de “donos da bola”. Livro chocante, grosseiro, meramente episódico, dá manchetes, infinitas badalações. Talvez porque fujam a esses negocinhos pára-literários, Antônio Torres e Ignacio Loyola Brandão, alguns dos mais límpidos e indiscutíveis talentos da nova geração, sejam tão pouco badalados. Talvez, num nível mínimo para não dar na vista.

Loyola ainda tem a glória pitoresca de ter sido publicado primeiro na Itália. E só depois encontrado uma jovem editora brasileira com peito e com visão bastantes para lançá-lo no Brasil.

Torres, desde o começo, teve mesmo que enfrentar os tupiniquins...

Essa Terra não é a historia de uma terra mas do seu produto humano.

O que fizeram dele e com ele.

E daí? pergunta você, leitor. Não tentaram todos os grandes explicar através do ambiente a criação do santo ou do monstro?

Sim tentaram. Do “Pére Goriot”, de Balzac, a Raskolnikov de Dostoyesky. Todos condenados antes de que a ação do livro se iniciasse. Repositórios de um caldeamento maldito e inelutável.

Então, qual é o grande achado, a novidade descoberta e desenvolvida por Torres?

Tão simples quanto inacreditável!

Todos os seus antecessores, na cauda da Renascença, jogaram o jogo do “chiaro oscuro”: sociedade alienizante e castradora, de um lado: personagem/ pessoa/ produto/ vitima, do outro.

Essa Terra não é nada disso. As pessoas e os cenários se somam, se absorvem, criam um organismo único que tem a obrigação de desafiar ou pactuar com a vida. Não há perdão, porque não há culpa. Nenhum ser leito, é conspurcado, vilipendiado. Todos vão ter que viver com o que são, e o que são é o terem sido.

O narrador de Essa Terra introjetou tudo. É tudo. Até a lembrança do irmão, primeiro vitorioso, depois morto. Que nunca consegue morrer completamente já que nunca viveu de vida própria, independente. E só perdura em Totoninho, enquanto lhe cravam os cravos do caixão.

Devorou, absorveu, transformou, somou ao seu quadro genético a loucura da mãe, as ladainhas do pai, cantadas ao amanhecer. O chefe de policia, diluído e vencido. Amores mal gastados, vinganças sem sentido.

Tudo, num só sentido. Que ele os viva todos. Ou que não se viva nenhum.

Não há vários personagens em Essa Terra. Há um só. Que, às vezes, como se descasca uma cebola, consegue se descascar e deixar um rastro sangrento. Consciente de que tudo será assim. E desse assim deve partir.

Porque ele é. E quando mais doa, mais será.

Estranho livro nordestino onde a natureza e o meio nunca são culpados. Apenas fatores de precipitação das paixões humanas.

Tempo e lugar importa? Se somos todos um mosáico cujo padrão podemos modificar apenas ligeiramente num esforço de consciência e auto-reconhecimento.

Se não há o crime original, pode haver castigo?

Piedade, paternalismos?

Livre arbítrio? Conversa, há séculos impingida e venerada.

Torres respeita os seus personagens. Contra eles não comete a injúria da pena. Quem pode realmente optar, se no escuro o sentido da palavra é escamoteado?

Com tudo isso, não quero dizer que Antônio Torres seja um fatalista. Longe disso. Apenas não procura esconder a cabeça na areia e, assim, sair lavado do pecado original.

Acho que desde o inicio da sua obra literária persegue o mesmo fio da meada. Se agora montou o seu coreto na Bahia, é porque lhe parecia um universo mais compacto, palmilhado. Tão limitado e vasto cenário como uma Grécia de Eurípedes.

É preciso, de vez em quanto, que a gente se olhe no espelho, que assista aos traços diluídos sôfregos por se adaptarem à máscara.

Forçar a isso é a obrigação e a meta do artista.

Nem sempre precisamos ser fantoches, se assumirmos essa parte nossa e, portanto, compreendermos de quê os fantoches são feitos. Em geral, do nosso sangue, da nossa ansiedade. Do nosso, nosso, que nos inibe de levantar a espada em causa própria.

Aí estaremos livres para dar os primeiros passos adiante.

Torres não lança mão do absurdo e do fantástico. Disso se encarrega a vida. Ele apenas registra, sublinhando, aqui e ali, a mão forte do “destino”.

Como arma, brande a palavra escrita, sua íntima amiga. E, com ela, para os sonhos de todos nós que, queiram ou não queiram, um dia se transformarão na rica semeadura.

Nesse livro, não há cronologia. As falas se misturam, às vezes num só período. Tudo se trança e se destrança, como na memória. Figura e fundo se alternam na conquista do primeiro plano, exatamente como nesse longo balé que é a vida.

Essa Terra, um brado de verdade de alguém que conseguiu ver, se vendo.

E retoma, não como uma pergunta aflita, mas como o desafio maior da humanidade, a velha frase: “E agora, José?”

Apenas uma amostra um pequeno exemplo:

“... Foi então que comecei a me sentir perdido, desamparado, sozinho. Tudo o que me restava era um imenso absurdo. Mamãe Absurdo, Papai Absurdo. Eu Absurdo. “Vives por um fio de puro acaso”. E te sentes filho desse acaso. A revolta, outra vez e como sempre, mas agora maior, mais perigosa. Não morrerás de susto, bala ou vício. Morrerás atolado em problemas, a doce herança que te legaram...”



Jornal da Tarde – São Paulo, 24/07/1976.
Leo Gilson Ribeiro

Essa terra na cidade que se abre para a morte

A grande cidade não tem lugar no sofá das musas.

De Tchekov a Steinbeck, de John dos Passos a Eça de Queiroz, nos contrates entre “A Cidade e As Serras”, o campo perpetua a saudade dos contatos humanos e da relação artesanal que o homem mantém com seu trabalho, e a metrópole é a imaginação para o anonimato de um trabalho mecânico e sem dignidade. Como no cinema, o epitáfio do trabalhador moderno é a máquina que enlouqueceu o operário de Charles Chaplin em “Tempos Modernos”. Como nos romances naturalistas de Zola, a revolução industrial, no Brasil ou na França, não criou só a multiplicação do lucro: colocaram na linha de montagem, triturando-os, os próprios sentimentos humanos. Ao dividir tarefas, isolou os seres humanos numa produção brutal e mecanizada.

Na literatura contemporânea do Brasil, a transformação de uma sociedade rural em amontoados de favelas, cortiços e bairros elegantes  encontrou em São Paulo seu laboratório ideal. Antônio Torres , com “Essa Terra”, demarca nitidamente o contraste entre o interior – de estrutura feudal , miserável, mas de valores e feições humanamente reconhecíveis – e São Paulo, sem rosto nem forma, um falso Eldorado onde  ganhar a vida  significa perder o seu sentido. A alienação utilitarista do emprego que se dará à energia humana já tinha sido analisada pelo autor em seus livros anteriores, “Um Cão Uivando para a Lua” e “Os Homens dos Pés Redondos”. Neles, tanto o repórter de um jornal como o publicitário de sucesso são engrenagens desse mecanismo maior que eles apenas fotografaram, células desse organismo devastado pela leucemia.

Em “Essa Terra” seu alvo pertinente é o progresso formam, feito de lantejoulas; o homem da roça arruinado pelos empréstimos do banco, deslumbrado com o radinho de pilha, o relógio, o arado substituído pela oficina mecânica e pelo posto de gasolina. As famílias são igualmente pilhadas, de forma crescente: de suas propriedades, que diminuem de geração a geração, de seus filhos que emigraram para São Paulo, da autenticidade das relaçeõs humanas quando as pessoas tinham nomes e não cargos. De forma exacerbada, o escritor sugere que a caneta mata a palavra, o papel asfixia a fala.

Felizmente, Antônio Torres tem suficiente discernimento para não encampar a idéia de que a aldeia, com suas virtudes devoradas pelo asfalto, é aquele mundo inocente, do homem selvagem de Rousseau, ainda não corrompido pela civilização. Ele não vê o meio rural como uma paisagem bucólica, da qual a técnica foi abolida numa volta absurda ao passado anterior à revolução industrial. Como em seus livros anteriores, Antônio Torres acumula elementos para denunciar toda uma estrutura social, que abrange “a cidade e as serras”. Mostra que se a roça não isola seus habitantes, mantendo sua identidade no agrupamento social, por outro lado sufoca com o latifúndio, o conservadorismo, o patriarcalismo, qualquer perspectiva de melhora. O campo brasileiro é o atoleiro da ignorância, da fome, do desmantelamento. A cidade é a troca dessa injustiça particular por uma injustiça mais ampla e mais amorfa. É sintomático que logo no primeiro capítulo Nelo, o irmão que foi da Bahia para São Paulo, apareça enforcado: o suicídio é a impossibilidade de escolher entre as duas monstruosas opções: afinal, ficar ou partir desemboca tudo no mesmo fracasso.

Todo o livro passa a ser então uma evocação do passado que se alterna com o presente, em trechos de eficiente utilização estilística do flash-back. O irmão sobrevivente, narrador que alinhava os acontecimentos trágicos, se sente “como dois ponteiros eternamente parados” de um relógio: ameaçado pelos pastos que diminuem, gradativamente, é enxotado da terra pelo mero instinto de conservação.

Antônio Torres traz como elemento novo, de função inesperada, a mulher, a mãe que é o motor de transformação, o alvo da propaganda mentirosa e que incita o filho a emigrar, a procurar no formigueiro da grande cidade o poderio do salário, a força concreta do dinheiro como fuga daquele pântano cotidiano. O pai é que se apega à terra, como se ele fosse o porto seguro diante do naufrágio. Ponto de tensão entre esses dois extremos, o “filho pródigo”, na trágica ironia do autor, é o elo que se parte.

Na trajetória de seus três livros já publicados, o escritor, se aprofundou sua análise, no entanto não disciplinou o tom emotivo. Se obteve páginas excelentes na descrição patética dos personagens e na viagem da mãe para o asilo de loucos, foi infelizmente incapaz de eliminar expressões que abalam a força do relato. É o caso patente de “Papai nem queria ouvir se tocar no assunto - gargalham os dentes do passado” ou “Mais pesado do que o ar não era o sino. Era o coração dos homens”. Isoladas , essas frases involuntariamente “ Kitsch” não chocam tanto. Só na passagem em que a qualidade decai a um nível inesperado é que o autor, num diálogo imaginário com Deus, atribui-lhe características de um Clóvis Bornay, a desfilar na passarela do carnaval:

“Me visto de sol e de lua, me adorno de estrelas e tenho um raio em cada braço. Quer saber a verdade mesmo? Sou o campeão nacional de qualquer concurso de fantasia. Deve ser por isso que dizem que Eu Sou Brasileiro”.

Frases como esta desmerecem qualquer livro que não tenha sido assinado por José Mauro de Vasconcelos, Num escritor sério, de talento comprovável, causam mal-estar, embaraço, perplexidade. Destoam da colaboração elegíaca desta narrativa que se inicia com um suicídio que serve para iluminar outras vidas já mortas. Enfraquecem este painel comovedor em certos trechos da ineficácia da emigração como solução final para a miséria, deste teorema que se reconhece o falso progresso.

O romance social é possivelmente o gênero mais difícil pelos ardis maniqueístas que oferece ao escritor. De um lado o bem róseo, de outro o Mal monolítico e todo “do lado de lá”. Antônio Torres não sucumbe á tentação ingênua de propor soluções ideológicas que extravasam a diagnose radiológica que a leitura pode fazer de uma sociedade. Reconhece por detrás de qualquer materialismo, histórico ou não, o materialismo histérico que mina tantas visões primatas da complexa condição humana. Sabe que entre o Gorki de 1914 e o Brasil de hoje passaram-se décadas decisivas que reformularam as fórmulas da farmacopéia para os males que os homens infligem uns aos outros. E é justamente por ter a lucidez de não desembocar no proselitismo panfletário que seus livros deixam sua marca na literatura que se faz hoje no Brasil.

No entanto, é indispensável que o autor reduza de muito o âmbito de dizer. Caso contrário, o excesso de temas, abordados sem profundidade, como o do louco e o do veado, enfraquecerá inevitavelmente a importância do que ele tem a testemunhar para ao leitor. Não se trata de uma luta simplista entre a caneta e a enxada: a máquina de escrever coexiste com o trator. Por não se insurgir contra a mecanização da lavoura nem por advogar uma panacéia cifrada na volta pura e simples à Natureza agro-pastoril é que a sua criação precisa restringir-se para adquirir substância maior. Na lavoura como na literatura, o latifúndio e o minifúndio são tão enganadores como o binômio cidade-campo.

Senão, para continuar com o vocabulário agrícola, o melhor será esperar. Assim como as terras se esgotam, sem rotatividade de culturas, os autores também se beneficiam quando um intervalo de meditação fecunda sua própria gleba de talento.



"Torres, como Graciliano, optou pelo mais honesto: escrever sobre o seu Nordeste. E assim como Graciliano identificava as personagens de Vidas Secas mostrando que saíram de sua família, Essa Terra tem no lastro biográfico a sua força original." - Affonso Romano de Sant'Anna/Veja



Correio das Artes - João Pessoa, PB, 3 e 4/11/2001.
Aleilton Fonseca

Essa Terra um clássico contemporâneo

O romance Essa terra, de Antonio Torres, chegou à 15ª edição, pela Editora Record, comemorando 25 anos de circulação, já traduzido para cerca de dez idiomas, estudado em artigos, ensaios e teses no Brasil e no estrangeiro. O sucesso do livro começou já na estréia, em 1976, com edições seguidas, ao merecer da crítica a saudação como uma ficção madura e primorosa.

Essa terra focaliza, na experiência de uma família do sertão baiano, o drama da migração nordestina para São Paulo e suas conseqüências psicológicas e sociais. Sob a ótica do narrador Totonhim, o irmão mais novo, conhecemos a trajetória do protagonista. Nelo é o migrante que, ao deixar sua terra, sua família e sua identidade para trás, entrega-se à metrópole paulistana e nela se perde, desenraiza-se e termina derrotado. Ao retornar ao lar paterno, encontra-se doente, abandonado e desiludido. Não suporta o peso da frustração, ao sentir que não contemplara as expectativas da família, sobretudo de sua mãe, que o imaginava rico e vencedor. O suicídio de Nelo é, portanto, o nó do enredo, síntese do impasse, do desenraizamento e da frustração que destroem o personagem. Este drama pungente constitui uma ficção precisa, de grande força estética, uma espécie de depoimento sobre um aspecto dramático da sociedade brasileira de meados do século XX. Pode ser visto ainda como um memorial consubstanciado no contraste gritante entre os grandes centros desenvolvidos e o sertão esquecido à própria sorte, em que a redenção do homem se reduzia ao horizonte das tristes estradas.

Essa terra tem o toque mágico dos grandes livros, desperta no leitor o senso de reflexão comiserada acerca do semelhante e a suas condições de existência, açula a vontade de compreensão e a solidariedade, provoca uma visualização mais profunda do ser humano. Este romance nos faz enxergar mais profundamente a realidade dos excluídos, reconhecendo-os enquanto sujeitos e pacientes de um drama histórico. Ao lê-lo sentimos aquele mesmo apelo de Vidas secas, assim como a marca da hombridade que se capta no sertanejo de Os sertões. Trata-se de uma escrita densa, de economia formal medida, tecida com a maestria de um romancista que consegue aliar precisão técnica à ternura do relato, mantendo, apesar da tensão, uma “camaradagem” equilibrada com seus personagens. Enfim, esta é uma prosa que alicia o leitor fazendo-o mergulhar afetivamente na leitura e nos dramas as personagens.

A migração é um fenômeno universal, assim como o desenvolvimento desigual dos lugares. Campo, cidade, metrópole, essa é a rota que exibem todos os países, num fenômeno mundial. O drama da viagem, do desenraizamento, da diáspora, da perda de valores fazem de Essa terra um romance universal, pondo em relevo a feição particular que este assume em território brasileiro, na trajetória sertão/metrópole, como uma viagem de ida e volta, não só em termos concretos, no deslocamento dos corpos e das vivências, mas na transição de valores, comportamentos, imaginários e condições de vida.

É auspicioso para a literatura brasileira ter um romance dessa dimensão, surgido na abertura do último quartel do século XX. Um livro que se coloca na mesma linhagem de O quinze, Vidas secas e Vila Real, naquilo que esses romances têm de esforço para compreender a saga do nordestino, em condições tão adversas. Nesse sentido, pela fortuna crítica amealhada em suas 15 edições, pela saga em terras e universidades estrangeiras, em apreciadas traduções, Essa terra merece registro entre os grandes romances brasileiros. Um clássico contemporâneo que se tornará cada vez mais visível na pequena lista de livros que jamais caem no esquecimento, porque se tornam objeto constante de estudos, referências, matéria de exames e concursos, fazendo parte do cânone escolar corrente, lugar das obras consagradas. O romance de Torres tem a rara qualidade de ser ao mesmo tempo profundo e acessível a um público mais amplo. Rico em significações não só estéticas, mas também sociais, dialoga com diferentes dimensões do saber, interessando também aos estudiosos da cultura, da história, da geografia humana, entre outras.

Essa terra, essa vida, essa busca – uma viagem a que a leitura nos convida, de forma que ao final da trajetória, poderemos exorcizar o drama humano e social de Nelo pela forma narrativa e compreensiva que o narrador Totonhim nos ensina. Ensinar a compreender a vida não é o papel social do escritor, para além de seu irrecusável compromisso estético? Para compreender melhor essas questões, leiamos Totonhim, Totonho, Totinho, simplesmente Antônio Torres.



"Eu admiro muito a ironia, o calor e o estilo de Essa Terra, que tão brilhantemente descreve pessoas cujo destino é mudar de lugar." - Doris Lessing



Gerana Damulakis
gerana@atarde.com.br

ESSA TERRA

No livro Machado de Assis, a ensaísta Lúcia Miguel Pereira, observa que, no grande mestre, vemos confirmada a importância do regionalismo na formação do artista. Com aquela escrita crítica única, ela segue mais longe em suas considerações e lembra que este regionalismo constatado, não é o regionalismo do espírito, mas o da sensibilidade. Vale reproduzir as palavras da própria Lúcia Miguel: "As experiências como que se fixam melhor, são mais profundas, quando o ambiente é sempre o mesmo. Ir lentamente descobrindo o humano no local, partir do particular para o geral, torna mais natural e espontânea a criação".

Tais colocações chegam a calhar aqui para tratar do livro de Antônio Torres, Essa Terra, nada menos do que a 15ª edição. A Editora Record está oferecendo ao público as reedições dos livros do baiano de Junco, com formato e capas dentro de um determinado padrão para quem quiser compor uma coleção: O Cachorro e o Lobo; Balada da Velha Infância Perdida; Os Homens dos Pés Redondos e agora Essa Terra. De 1976 até hoje, Essa Terra vem ganhando traduções mundo afora; além de traduzido para o francês, inglês, italiano, alemão, holandês, hebraico e espanhol, sairá em Cuba brevemente.

Mas é tempo de justificar a chamada de Lúcia Miguel Pereira para ser aplicada a este texto: Essa Terra é ambientado em Junco, hoje Sátiro Dias, interior da Bahia. O regionalismo de Antônio Torres trata desta terra e sua gente e, principalmente, do desejo e da realização mesma de sair do mundo da seca. No seu primeiro livro, Um Cão Uivando para a Lua, de 1972, a miséria do personagem que cresceu em Junco é apenas o começo da trajetória de um repórter rumo a São Paulo. Em Os Homens dos Pés Redondos, um publicitário, também trabalhando em São Paulo, teve sua infância passada em Junco. Finalmente, em Essa Terra, está evidente o tratamento tanto da miséria dos que vivem em Junco, como do êxodo, na figura do irmão do narrador principal, que partiu para São Paulo, ganhou dinheiro, mandou dinheiro de lá para a família que ficou no interior, e voltou, mas não afortunado como se poderia prever, e sim acabado, bêbado e traído pela mulher.

As memórias do personagem, chegadas como fragmentos, são aquelas memórias profundas de que fala Lúcia Miguel Pereira, fixadas no ambiente. E com isto de trazer o Junco para a ficção, Antônio Torres descobre "o humano no local, parte do particular para o geral, torna mais natural e espontânea a criação". Regionalizando sua obra, Antônio Torres ganha na agudeza com que tece o drama e os personagens são mais reais. Em Essa Terra aparece de passagem o Nego de Roseno, dono do armarinho, que é personagem de um conto trazendo seu nome "Segundo Nego de Roseno", do volume Meninos, Eu Conto (Record, 1999). Essas particularidades criam uma cumplicidade imediata com o leitor, fazendo com que se estabeleça uma intimidade muito interessante para a leitura.

>Outro ponto que o escritor sabe também atingir o leitor prendendo-o é o seu uso de frases curtas, sempre muito objetivas, em várias ocasiões chegando mesmo a serem bombásticas — aqui é imediata a lembrança do episódio da mãe do personagem, doente, dentro de um carro em direção a um distante socorro pelo deserto do sertão, a vomitar pela janela; há frases de enorme poder de expressão do momento. Mas o estudo minucioso sobre o livro encontra-se no posfácio assinado pela professora Vania Pinheiro Chaves, da Universidade de Lisboa.

Tendo em vista que alguns títulos estavam esgotados, os romances reeditados de Antônio Torres são oportunidades para o leitor passar a fazer parte dos admiradores deste ficcionista baiano, autor de mais de uma dezena de livros, sempre reconhecido e aplaudido.