Página Inicial

Jornal A Tarde – Salvador, Bahia – sábado, 26/08/2000.
Entrevista a João Carlos Teixeira Gomes


Desde o Junco, veredas do brasileiro Antônio Torres


Esse jovem senhor que está à minha frente – quase 60 anos bem vividos e espalhados por Oropa, França e Bahia, que se completarão em 13 de setembro – é hoje um romancista consagrado, que acaba de receber, pelo conjunto da sua obra, o Prêmio Machado de Assis, conferido anualmente pela Academia Brasileira de Letras. Toda a sua trajetória intelectual iniciou-se nos idos de 1960 no recém-fundado Jornal da Bahia, para começar pelo jornalismo uma vocação que os anos só fizeram confirmar e amadurecer.

Devo personalizar o meu depoimento porque fui seu chefe de reportagem no então novo matutino, que reunia uma equipe brilhante, constituída de profissionais já tarimbados e jovens valores que surgiam com a missão de renovar o jornalismo baiano. Entre estes, Antônio Torres, de início retraído e mesmo tímido, o moço interiorano nascido no longínquo Junco (hoje Sátiro Dias) que vinha tentar a sorte na cidade grande e logo se destacou pela qualidade do seu texto e pela sua curiosidade de repórter, compondo com Humberto Vieira a melhor dupla da sua geração. Dedicados, profissionais competentes.

Irrequieto, o menino Torres, entre todos o mais afável e disciplinado (depois ele confessaria ter-me achado um chefe de reportagem estourado e intransigente, mas disciplinador), não esquentou cadeira no JBa. Sem demora, arrumou as malas e seguiu para São Paulo, onde, ao lado do jornalista, surgiriam o romancista e o publicitário. Pensou de início em fixar-se no Rio, que não pôde sequer ver direito em trânsito pelo aeroporto Santos Dumont, mas sua condição de interiorano impeliu-o primeiro para a megalópole paulista, na qual começou a trabalhar na Última Hora, nos tempos tumultuados que se seguiram à renúncia de Jânio Quadros, estimulada por algumas doses extras de uísque, como o confirma Foster Dulles na sua alentada biografia de Carlos Lacerda.

Na verdade, o sonho do jovem Torres – que os amigos chamavam de “o menino do Junco” ou “Tote” – não era Rio ou São Paulo, mas sim Paris, embalado pelos exemplos de escritores famosos que ali viveram a melhor parte de suas vidas, como Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Não chegaria a morar em Paris, mas na capital francesa recebeu conferido pelo ministro da Cultura em 1998, o título de Chevalier des Arts et des Lettres. Na Europa, seu centro de operações foi Portugal, onde morou em Lisboa e no frio Porto, temido pelas nortadas de que fala Miguel Torga num dos seus poemas, ou seja, as rajadas do vento montanhês que invadem a cidade durante o inverno. Como não se acostumava com elas, nordestino dos trópicos escaldantes, preferiu morar em Lisboa, onde foi hóspede querido do poeta Alexandre O’Neill, para o qual lia regularmente trechos de “Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.”

O’Neill se encantava não apenas com a prosa rosiana, quanto, da mesmo forma, com o sotaque sertanejo de Antônio Torres, que lhe parecia o mais adequado revestimento sonoro para as histórias de Riobaldo, que o poeta gostava de ouvir “em voz alta”. Três anos viveu Torres em Portugal de 1965 a 1968, quando resolveu voltar ao Brasil, apesar dos tempos politicamente tempestuosos instaurados pelo Ato Institucional número 5 e pela crescente radicalização da ditadura militar. Fixou-se novamente em São Paulo e começou aos poucos a descobrir o Rio, para onde se transferiu definitivamente em 1978, dividindo suas atividades entre a ficção e a publicidade. Em 1972, casou-se com a professora universitária Sonia Carvalhal, com a qual tem dois filhos; Gabriel, um craque da área da informática, com livro publicado, e Tiago, um jovem músico, baterista com músicas gravadas.

Em seu amplo apartamento da Sá Ferreira, em Copacabana, num dia europeu de um incaracterístico e muito frio inverno carioca, Antônio Torres recebeu-me para uma entrevista exclusiva a A Tarde Cultural, quem em seguida vai transcrita em forma de perguntas e respostas.


J. C. Teixeira Gomes – Você começou no jornalismo como repórter, no Jornal da Bahia recém fundado, que tinha uma equipe brilhante. O jornalismo ajuda a fazer o romancista?

Antônio Torres – No meu caso ajudou. E muito. Ser escritor foi meu sonho de criança, desde quando bati os olhos no livro de leituras da professora Teresa, na Escola Rural Prof. Anísio Teixeira, lá no Junco, digo, Sátiro Dias. Entrei para o Jornal da Bahia como quem entra num campo de treinamento. E lá havia escritores já tarimbados, como Ariovaldo Matos e você mesmo. Aprendi muito com vocês e com toda aquela redação maravilhosa. Tinha realmente um time brilhante, formado por nomes como João Batista de Lima e Silva, Flávio Costa, Muniz Sodré, Jeovah de Carvalho, Juracy Costa e muitos outros.

JCTG – O que foi mais marcante para você, no seu tempo de “foca” na Bahia?

AT – A minha estréia no jornal. Você, que era o chefe de reportagem, me mandou cobrir o movimento do porto. Cheguei lá, anotei as chegadas e partidas de navios, e dei o assunto por encerrado. No dia seguinte, você me mostrou o que os outros jornais noticiavam, e que eu não tinha visto no porto: contrabando, tiroteio, o diabo. Pela bronca, achei que minha carreira de repórter havia terminado ali mesmo, no primeiro dia. Ainda assim, fui merecedor de uma segunda chance – por piedade sua, talvez, diante da minha vergonha por tamanho fracasso. E aí você me mandou para o Necrotério Nina Rodrigues, onde dei de cara com o cadáver de um negão muito jovem que havia se suicidado. A visão do corpo do morto, estirado num estrado, começava pelos pés. E era apavorante. Mas pensei: “Hoje o Joca não me pega”. Isso porque me lembrei de um poema de Godofredo Filho sobre o absurdo de se morrer aos 18 anos. E assim comecei a matéria, que você passou para Jeovah de Carvalho, o chefe da reportagem policial. Para meu azar, Ariovaldo Matos, o chefe supremo da Redação, ia chegando à mesa de Jeovah naquele momento. Ari a leu e, de dedo em riste, disse: “Você pensa que está aqui para fazer literatura? Isto aqui é jornal, rapaz!” De nada adiantou Jeovah defender a minha matéria, dizendo que era bonita, que tinha “poesia”. Ari não quis conversa. Foi à sala dele, pegou um livro norte-americano intitulado Introdução ao Jornalismo e me passou o livro dizendo: “Só volte aqui depois de ter lido isto”. Bom, não foi um castigo dos piores. Li o tal livro. Grande Ari! Foi ele, sim, quem me deu a chave do tesouro.

JCTG – Quando sentiu que o seu caminho literário era a ficção? A experiência do publicitário absorveu o romancista mais do que devia ou lhe estimulou a criatividade?

AT – Quando eu era menino, se me perguntassem o que queria ser quando crescesse, a resposta seria: “Castro Alves!” Comecei rabiscando versos, que escondia debaixo do colchão, para que os adultos não os descobrissem. Isso lá no Junco. Mas foi no Ginásio de Alagoinhas que um professor me disse: “Seu negocio não é a poesia. É a prosa.” Pelo visto, ele estava certo. Agora, quanto à minha experiência na publicidade, foi extremamente enriquecedora para o meu texto. No jornalismo, aprendi a ver o mundo. Na publicidade, a contar o que vi com poucas palavras. Quer um exemplo? Eu tinha material bastante para fazer do Meu Querido Canibal um livro de mil páginas. E o fiz com menos de duzentas! A publicidade me ensinou a arte da síntese.

JCTG – Antônio Torres é um continuador ou herdeiro da tradição regionalista da ficção brasileira, consagrada com o romance nordestino de 30?

AT – Creio que tenho um pé na tradição e outro fora dela. Nos meus anos mais vulneráveis e juvenis, li muito os romancistas de 30. Mas também li Guimarães Rosa e Clarice Lispector, tanto quanto os meus contemporâneos.

JCTG – Vários de seus romances, sobretudo os iniciais, fundem regionalismo com memorialismo, na linha de 30, traduzindo suas vivências familiares e rurais no Junco. O memorialismo é fundamental na sua obra?

AT – O meu primeiro romance, Um Cão Uivando para a Lua, é urbaníssimo (ultra-sofisticado, no dizer do escritor baiano Marcos Santarrita). O segundo, Os Homens dos Pés Redondos reflete uma experiência minha em Portugal, nos estertores do salazarismo. É no terceiro, Essa Terra, que começo a viagem de volta às origens, São Paulo-Bahia, abrindo um ciclo que prossegue com Carta ao Bispo e Adeus, Velho, e ao qual retorno em O Cachorro e o Lobo. Nestes, sim, há uma fusão do rural com o urbano, o regional com o cosmopolita. Já sobre o memorialismo, comecemos pela receita que o doutor James Joyce passou aos romancistas, para os quais recomendava “memória, silêncio e astúcia”. E nunca me esqueci de uma frase a respeito, de William Faulkner, em Luz em Agosto (na tradução de Hélio Pólvora, se não me falha o bestunto): “É a memória, e não a dor, que faz você se lembrar de ruas selvagens e ermas.” E há ainda o título de Carl Gustav Jung, que não me sai da cabeça: Memórias, Sonhos, reflexões. Sonho que meus romances contenham um pouco disso.

JCTG – Quando você ingressou no jornalismo, no final da década de 50, estavam em voga as teorias da literatura engajada, estimulada pelas idéias de Sartre, o triunfo da Revolução Cubana e a convicção da vitória inevitável do socialismo. Isto o influenciou ou suas origens interioranas o tornaram naturalmente engajado?

AT – Não. Não me considero um escritor engajado, nesse sentido que você está dando. Li Sartre, num tempo em que todo mundo estava lendo Sartre. Mas também era leitor de Camus. E, para falar a verdade, os escritores que mais me marcaram foram os norte-americanos: Scott Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, Truman Capote, o Norman Mailer dos primeiros tempos etc. Hélio Pólvora e Léo Gilson Ribeiro perceberam isso, já na estréia.

JCTG – Seu último romance, Meu Querido Canibal, desvia o seu percurso regionalista-memorialista ruma à ficção de fundamentos históricos, tocando inclusive a linha hoje rara do indianismo. Trata-se de nova tendência ou manifestação isolada?

AT – Não gostaria de ver o meu trabalho preso a um rótulo, como o de regionalista-memorialista, por exemplo. Sou da roça e sou da cidade. Sou do Junco e do Rio e Paris. Gosto de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e de Miles Davis, todos os trompetes havidos e a haver. Escrevi Meu Querido Canibal porque me encantei com um personagem chamado Cunhambebe, o primeiro herói deste país, e com a história da Confederação dos Tamoios, a grande epopéia da nossa colonização. Agora escrevo uma minisérie para a TV Globo, como escritor convidado do Doc Comparato. Mas já tenho planos de mais um personagem da nossa História. Gosto de variar, só isso.

JCTG – Você hoje é um autor plenamente integrado no Rio, cujos meios editoriais e culturais não raro constituem guetos fechados, preconceituosos em relação sobretudo ao que se produz no Norte e Nordeste, paraísos exóticos, tratados à francesa como se fossem “lá bas”. Glauber Rocha sentiu isto e chegou a qualificar o Rio de “balneário escroto”. É bem difundida – inclusive nos programas humorísticos de TV – a ironia carioca com a alegada “preguiça baiana”. Antônio Torres é hoje baiano, carioca ou baiano-carioca? Tal simbiose é possível? Se suas raízes estão intactas, qual o papel do Rio na sua ficção?

AT – Ufa! Haja fôlego! Mas vamos lá. Não consigo ver o Rio desta maneira. Acho que há até uma certa curtição do carioca pela Bahia, e não só pelo lado exótico. As piadas sobre a Bahia são simpáticas, nada ofensivas. Diria até afetuosas. Escritores baianos (para não se falar dos músicos, cineastas etc) sempre tiveram muito espaço aqui. Foi no Rio que Glauber Rocha encontrou patrocinadores para alguns de seus filmes mais importantes. Aqui ele aconteceu mesmo. Oh, Joca, e onde os seus livros estão publicados? E os do Ruy Espinheira Filho e Ildásio Tavares? Pouquíssimos autores daqui têm espaço que João Ubaldo e eu temos. E de onde viemos? Não pense que basta ser do Rio ou estar nele para se ter as portas da edição e divulgação abertas. Há muita gente boa no eixo Rio-São Paulo que não consegue acontecer. Claro que há uma absurda concentração nesse eixo. Mas por que o Nordeste não reage, criando seus próprios meios de produção e difusão, em âmbito nacional, como faz o Rio Grande do Sul? E pergunto mais: não será que é o próprio Nordeste, numa política “for export”, que procura se vender pelo lado exótico, “Sun, sex and sea?” Quanto a mim: sou baiano e brasileiro, carioca, paulista e estrangeiro. E isto, de alguma maneira, sempre vai embasar o que escrevo.

JCTG – O Brasil continua o “arquipélago cultural”, constituído por ilhas isoladas, denunciado por Viana Moog em ensaio famoso?

AT – Sim, porém hoje é um arquipélago internetado e ligado na Rede Globo. Acabo de fazer uma longa viagem por 17 cidades, de Pirapora, em Minas Gerais, a Fortaleza. E o que vi foi um país em rascunho. Rascunhos de Miami ou sei lá o quê. Fora das capitais, não vi livraria nenhuma, em cidades até grandes ou inchadas. Mas todas elas têm casas de vídeo pornô, atulhadas de fregueses. E em todos os restaurantes se come de olho na televisão, a todo volume, catatonicamente. Em Paulo Afonso, na nossa Bahia, não consegui dormir com a barulheira das buzinas e dos sons dos rádios dos carros, a noite toda, repetindo sem parar a gravação dos gols do Flamengo, que havia ganhado um jogo... no Rio! O arquipélago está agora batendo um sorvete na testa, oligofrenicamente!

JCTG – Como um romancista regionalista vê o romance de fundamentos psicológicos? Por que nunca tentou a poesia?

AT – Meu Deus! Lá vem você de novo com essa história de regionalismo. Por que ninguém chama o Faulkner de regionalista? E ele era do Sul dos Estados Unidos... Quanto ao romance psicológico: há personagem sem fundamentos psicológicos, na era pós-Freud, pós-Dostoiévski, pós-James Joyce? Já em relação a poesia, é nela que bebo o que se chama de literariedade. Mas não me arrisco a escrever poesia, por total incapacidade. Contento-me em ser leitor dos poetas.

JCTG – Obras de ficção podem ajudar o Brasil e o mundo? No ano 2000, como um romancista deve conceber o seu real papel na sociedade?

AT – Primeiro, lemos obras de ficção pelo prazer da leitura, digamos, o prazer estético. Depois, sem que percebamos, essas obras vão nos transformando. Sim, a ficção pode levar o Brasil a se conhecer mais profundamente, já que o romance é a história secreta das nações, como dizia Balzac. O real papel de um romancista? A do intelectual de modo geral: lutar pela sobrevivência da espécie. A esta altura da peleja, chega a parecer que somos uma fauna de extinção.

JCTG – Há um grande desencanto popular hoje no Brasil com o governo FHC e com a classe política geral. Como o escritor Antônio Torres vê o drama histórico do nosso povo? Qual a atitude do escritor e jornalista diante das elites egoístas e corruptas, que gastaram milhões de dólares para eleger e manobrar candidatos? Há verdade eleitoral no Brasil?

AT – Nas minhas pesquisas para escrever Meu Querido Canibal, dei com os olhos numa carta de um vice-rei do Brasil (acho que foi Luís de Vasconcelos), que relatava para a Corte de Lisboa a sua estupefação em relação ao que Portugal havia enviado para cá: aventureiros que não vieram para construir um país, mas para se enriquecerem rapidamente, ainda que para isso tivessem que arrasar a terra. Nessa carta ele falava também da corrupção que campeava por aqui. Judiciário corrupto. Clero corrupto. Comerciantes corruptos etc. Qualquer semelhança com a atualidade... não será mera coincidência! Ou seja: a mentalidade preparatória continua. Eleição após eleição é sempre a mesma história: nosso povo acredita nos candidatos, se ilude com eles, vota neles. E o resultado é o que se sabe. Nossa atitude diante disso? Já nem sei. Denunciar faz efeito?

JCTG – Você é muito estimado pelos seus velhos amigos da Bahia, mas me disse recentemente que a imprensa baiana não lhe tem dado o relevo conferido pela de outros Estados. Responda sem deixar que o diplomata se sobreponha ao escritor.

AT – Acho, sinceramente, que a Bahia hoje está mais para o Carnaval – e o Carnaval baiano é imbatível, diga-se –, e outras manifestações da cultura popular, do que para as atividades literárias. Alguns escritores baianos, meus amigos, partilham também deste meu sentimento. Lançar livro em Salvador é decepcionante: vão aqueles velhos camaradas e só. A imprensa não dá destaque. Fica uma coisa meio perdida, no tempo e no espaço. Senti muito mais vibração, por exemplo, num salão de livro em Caiena, na Guiana Francesa, do que na Feira do Livro da Bahia.

JCTG – A literatura baiana não repercute no Rio e em São Paulo, apesar de os lançamentos se sucederem em Salvador, onde moram e trabalham grandes poetas, contistas, historiadores, pesquisadores etc. Qual a causa desse novo enigma baiano?

AT – Volto a bater na mesma tecla: você pensa que tudo o que se produz no Rio e São Paulo tem repercussão? Ledo Ivo engano. Eu mesmo sou hoje publicado, e muito bem, pela Record, uma editora que lança no mercado 30 livros por mês, um por dia! Você acha que todos vão repercutir? É uma briga de foice por espaço, na imprensa e nas livrarias. Não se esqueça que este País tem menos livrarias do que a cidade de Buenos Aires. E que o Nordeste inteiro, da Bahia ao Maranhão, representa apenas 14% das vendas de livros. Isso não enfraquece muito a posição dos autores da região? Causa-me preocupação esse atual sentimento baiano de exclusão. E me pergunto: por que uma cidade como Salvador, com todo o peso da sua tradição, toda a sua importância, e tantos criadores literários, não tem uma editora competitiva, em nível nacional?

JCTG – Defina a literatura que se escreve hoje no Brasil.

AT – Tenho andado assoberbado de trabalho, sem tempo de acompanhar o que se escreve hoje, como gostaria. Do pouco que tenho lido, gosto muito do poeta cearense Adriano Espínola, do ficcionista pernambucano Raimundo Carrero, dos baianos Ruy Espinheira Filho e Ildásio Tavares, do paulistano Bernardo Ajzenberg, do carioca de São Paulo Bernardo Carvalho. Os baianos têm o sabor do lirismo bem temperado, de fatura clássica. Os outros buscam caminhos mais cosmopolitas, de inserção na pós-modernidade. E mais não posso dizer, por falta de tempo para acompanhar.

JCTG – Ter ganhado o Prêmio Machado de Assis é sinal de que o romancista Antônio Torres já está com um pé (ou os dois) dentro da Academia Brasileira de Letras, reforçando a bancada baiana?

AT – Ganhar o Prêmio Machado de Assis deste ano 2000 foi para mim uma grande surpresa. Qual o escritor deste País que não ficará contente com um prêmio com este nome? Mas pensa em entrar para a Academia já é uma questão delicada. Prefiro não pensar nisso, por toda a delicadeza que o assunto envolve. Delicadamente, permita-me ficar por aqui.