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Entrevista para a Revista Iararana n° 6, de Salvador, BA. Por Antônio Brasileiro, Cid Seixas, Aleilton Fonseca e Rubens Pereira


Antônio Brasileiro – Você é simpaticíssimo, cativa as pessoas, é tido como uma pessoa que incentiva os outros. Isto é uma característica muito pessoal, ou se deve ao fato de você ter nascido no Junco, ter vivido a infância no interior da Bahia?

Torres – Jamais pensei ser visto assim, com tanta simpatia. É possível que eu seja um tanto gregário, por ter nascido no sertão, numa família muito grande – eu sou o primeiro de uma fila de onze irmãos, só de tios do lado materno eram dezessete. E aquela criação na vida rural, ao natural... O trabalho tinha um sentido coletivo. Quando eu era garoto, meu pai contratava trabalhadores para trabalhar na lavoura, e eu ia trabalhar junto com eles. Na hora do rancho, sentávamos todos nós debaixo de um pé de umbuzeiro para comer. Os trabalhadores dormiam em nossa casa, nas redes, ou na casa de farinha, onde espalhávamos esteiras. Fui criado assim: todo mundo junto. Isto, de alguma maneira, deve ter tido alguma influência no meu temperamento, no meu comportamento. É uma coisa da experiência humana, das relações de trabalho e convívio. Como era que se fazia farinha? Era todo mundo junto, raspando mandioca e proseando. Como era um mutirão para fazer a casa de um compadre? Era todo mundo junto. Como era a despalha do milho? Uma festa! Bater o feijão? Era todo mundo batendo e cantando! Tudo era um trabalho comunitário na minha infância. E hoje sinto falta disso, porque nosso tempo urbano e cosmopolita é um tempo muito individualista.  cada um na sua. A minha infância me marcou muito. E eu me reencontrei com ela ao fazer o livro Meu Querido Canibal. Quando fui à aldeia dos Guaranis, lá na Serra da Bocaina, no município de Angra dos Reis, levei um susto, ao ver aqueles indiozinhos brincando com gravetos lá em cima daquela pirambeira, mães com criancinhas sujinhas e nuas. Puxa, eu fui índio e não sabia! E quando eu cheguei ao platô, onde a turma da aldeia se reúne, eu vi que os índios estavam levantando uma casa de reza. Era igualzinho ao Junco. Quer dizer, eu fui tribal e não sabia. Eu vim de uma aldeia indígena e não sabia. Fui descobrir isso ao pesquisar para escrever o livro.

Cid Seixas – Quando vi anunciar Meu querido canibal, eu esperava um romance, devido ao hábito de lê-lo como um romancista. O que o levou a não fazer disto um romance, mas sim uma crônica histórica?

Torres – Levei muito tempo para encontrar o meu recorte na história. Primeiro,  pesquisei muito. Eu tinha um grande personagem nas mãos. E, como romancista, a primeira coisa que me encanta é o personagem. E Cunhambebe é tão forte que eu não precisava “ficcionalizá-lo.” Mesmo assim, tive de me valer de estratégias de romancista para preencher os vazios, os buracos da história, não só a de Cunhambebe como a da Confederação dos Tamoios. Ora, como os índios não tinham escrita, não deixaram registros de sua própria história. Aí temos que nos contentar com os relatos dos brancos, que reduziram a existência de Cunhambebe nessa terra a notas de pés-de-páginas ou verbetes mínimos. Referem-se a ele como como o tipo acabado do selvagem mais repelente. Então, eu entrei na história com muita paixão, em busca das trilhas do guerreiro Cunhambebe, sem medo do meu próprio delírio, do que iam dizer do meu delírio. É uma história em que eu  procurei soltar a mão entre o delírio e a indignação. A indignação pelos fatos que eu ia encontrando, e pelo esquecimento, mais do que esquecimento, o fato de terem relegado esta história, de a terem colocado debaixo do tapete. Porque ninguém se preocupou em trazer a história do nativo para a festa dos quinhentos anos. Agora, alguns amigos, como você, tinham a expectativa de que fosse um romance. Alguns estão lendo como um romance, outros lêem como uma crônica, outros lêem como uma biografia. Eu vejo no jornal os comentários. Uns dizem que é uma biografia romanceada ou um romance biografado. Outros dizem que eu ficcionalizei a história e historicizei a ficção. Agora, o que eu te digo é o seguinte: fiz o que o meu coração e o meu querido canibal, o grande chefe Cunhambebe, mandaram.

Aleilton Fonseca – A história tende a fechar no factual, no registro da realidade, enquanto a ficção privilegia a abertura. Como o romancista que se serve da história como matéria equaciona este problema?

Torres – Meu querido canibal foi produto de uma obsessão. Eu fiquei obcecado pelo grande guerreiro Cunhambebe, que era um gigante, tinha quase dois metros de altura e se orgulhava de ter nas veias o sangue de mais de cinco mil inimigos. Eu me fascinei por este tipo. O meu fascínio veio da percepção que eu tive, que virou um mote para mim. Eles, os índios, não tiveram escolha. Era a escravidão ou a morte. E o fato deste país ter tido um guerreiro que levou todo o seu povo a morrer de pé para não se deixar escravizar, se tornou uma questão emblemática para mim. Comecei a me perguntar se não é de Cunhambebes que este país precisa. Embarquei neste delírio do herói. Encontrei nele as possibilidades para desenvolver um relato. A outra questão é a seguinte: eu sempre busco o sonho de não ser um sambista de uma nota só. O fato de eu ter feito determinados romances em uma determinada linha não significa que eu vou ficar a vida inteira trilhando aquela picada. Porque pra mim não vai ter graça, não é para o leitor não, é pra mim, como criador. Eu quero experimentar relatos variados. Eu começo o livro: “Era uma vez um índio”. Pronto. Já coloquei o livro em tom de fábula. Isto vai me levar a ir buscar as fábulas, os mitos e as lendas dessa história. Porque a maioria dos livros que eu li não me ajudaram em nada. Foram livros importantes, que explicam a história, com interpretações brilhantes, mas cadê as fábulas, os mitos?  Aí que foi o meu trabalho. O de fazer ligações, levantar hipóteses, criar brincadeiras até, para construir este personagem. Foi aí que entraram as estratégias do romancista para cobrir os vazios da história e criar um relato.

Brasileiro – Você tem sua raízes na Bahia, mas isto não impede que você tenha aberto o coração para escrever um livro sobre o Rio de Janeiro. O que o levou a escrever este livro, amorosamente?

Torres – O Rio de Janeiro é uma cidade adorável. Cheguei lá depois de ter rodado o mundo, ter vivido muito tempo em São Paulo, três anos em Portugal, corrido a Europa. Quando finalmente cheguei ao Rio, como última etapa de uma longa perigrinação, senti que essa cidade aceita bem todo o país. Os melhores cronistas do Rio - depois do carioca Machado de Assis, bem entendido - são o capixaba Rubem Braga, o pernambucano Antônio Maria, os mineiros Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, e outro capixaba, Carlinhos de Oliveira. O Rio é a cidade com o maior número de escritores de outros estados. Dos baianos João Ubaldo e Marcos Santarrita ao amazonense Márcio Souza, sempre cabe mais um. E quem instala a sua tenda no Rio, acaba um dia por cantar a cidade, seja em verso, seja em prosa. Fui convidado pelo RioArte, instituto da Secretaria Municipal de Cultura, para escrever um livro sobre o Centro da cidade, para uma coleção chamada Cantos do Rio. Topei. A primeira fornada da coleção tinha o Carlos Heitor Cony, escrevendo sobre a Lagoa; Aldyr Blanc, sobre Vila Isabel; José Almino, sobre o Baixo Gávea; e Geraldo Carneiro, sobre o Leblon. Como já tenho um longo convívio com a cidade, na qual nasceram minha mulher e meus filhos, e como de fato gosto muito do Rio, não foi difícil cumprir a tarefa. E a reação dos leitores cariocas a esse livro foi a melhor possível.

Rubens Pereira – Seu trabalho sobre o centro do Rio surpreendeu os próprios cariocas, no sentido de explicitar aspectos que o olhar do carioca não enxergava mais. Foi um trabalho de estrangeiro, por ser de uma pessoa que não é carioca de nascença?  Você se sente estrangeiro em algum lugar?

Torres -   Deve haver alguma razão muito forte nisto, que eu acho que responde a você. Foi a minha identificação total quando eu li O estrangeiro, de Albert Camus. Eu acho que o criador, o artista, se sente estrangeiro. Mas, de repente, você passeia por um país que, por ser grande demais, cria uma solidão enorme. E as pessoas estão sempre se deslocando de um lugar para outro, e vivendo numa espécie de não-lugar. O baiano que saiu do Junco e foi para São Miguel Paulista, tal qual eu fui, ele estava lá fisicamente, o corpo dele estava lá, mas a cabeça dele estava no Junco. Eu nunca me esqueço de quando eu cheguei lá na primeira vez, em São Miguel Paulista, e a primeira pergunta que me fizeram (os conterrâneos) foi: “Você sabe se está chovendo por lá?”. Eu sabia qual era o resultado da minha resposta. Se eu dissesse: “Tá chovendo”,  nego voltava (para o Junco). E é nesta piração de ir e vir que acabei, ao longo do tempo, tendo o insight para criar o personagem Nelo de Essa terra, o que vai, vem, e se mata. Por quê? Porque ele ficou solto no espaço, num entre-lugar, que é uma teoria pós-moderna que está rolando, mas que eu acho que meus personagens se encaixam perfeitamente nesta teoria. Faz pouco tempo o cineasta Paulo Thiago me ligou, ele queria fazer Essa terra   no cinema, acabou não fazendo... Ele me disse: “Eu reli Essa terra em Miami, e vi teus personagens lá, eles não estão mais em São Paulo, eles já estão em Miami”. Porque aí começa a outra questão da pós-modernidade, que é a fuga do brasileiro para fora do Brasil, um fato absolutamente novo. Este estrangeiro, que era um estrangeiro psicológico, está virando um estrangeiro real.

Aleilton – O seu romance Essa terra é perpassado pela angústia e o fracasso no ir e vir do sertão para ao centro-sul, vividos pelo personagem Nelo. Vinte anos depois este mesmo cenário retorna, em O cachorro e o lobo,  romance  perpassado pelo ternura da compreensão, da resposta, da experiência. O que representou para o homem e o escritor Antônio Torres a volta ao tema e seu cenário?

Torres – É difícil dizer porque eu voltei. Mas são as buscas permanentes do romancista. Quando eu terminei Essa terra eu me senti muito mal. Não foi nem quando eu terminei. Mais ou menos na primeira metade dele eu fui parar na psicanálise. Eu fiquei apavorado com aquele suicida que havia no livro. E escrevendo na primeira pessoa – e eu costumo escrever na primeira pessoa não porque seja uma narrativa autobiográfica, mas para eu entrar mais no personagem, para eu grudar mais nele. E neste grudar no personagem, eu comecei a me apavorar com aquele suicida. E Essa terra também tinha um quadro de época muito pesado, da ditadura militar, um país muito polarizado, todo mundo vivendo aqueles impasses, luta armada, prisões, assassinatos, todo um quadro político nada suave. Já em O cachorro e o lobo o tempo não era mais leve mas, formalmente, vivemos numa democracia. E, por outro lado, entra a questão da maturidade. Você vai tendo umas certas compreensões de vida. Com os impasses e transes de nosso tempo, você acaba concluindo de alguma maneira que o que nos resta é a salvação pelo afeto. Como se o mundo já tivesse acabado mesmo, e como se eu estivesse andando por ele como mais um zumbi martirizado no tempo. Então eu quero encontrar as pessoas, bater um papo com elas sobre as durezas da vida, mas vamos nos divertir um pouco, vamos contar uma piada, vamos relaxar um pouco. Porque não há muito mais a fazer. Eu penso que tem uma saída por aí. Essa terra é um livro de desencontro, e O cachorro e o lobo é um reencontro. Há um reencontro do personagem, quando ele chega cheio de fantasmas, todo assustado. Mas, com o passar do dia – o livro se passa num dia, ele gira com o movimento do sol, manhã, tarde e noite –, é como se este personagem  fosse recuperando a sua memória, sua afetividade, sua história, a história daquele lugar, e isto lhe faz bem. Mas vocês estão mais preparados pra dizer sobre essas coisas do que o autor, até porque eu parto do princípio de que, quando o autor explica seu trabalho, corre o risco de reduzi-lo.

Rubens – Nesta questão filosófica do ter e do ser, já foi dito que “os artistas são a antena da raça”. Eu queria saber se novas questões filosóficas não surgiriam nesses novos tempos de mundo virtual, da informática, da multiplicação de informações? Será se a pergunta sobre o ser e o ter não se deslocaria para o “tornar-se e o transformar-se”? Como suas antenas, enquanto artista, captam o novo mundo?

Torres – A questão básica do artista me parece que é a busca do autoconhecimento. Essa busca leva à abertura de novas fronteiras dentro de si mesmo. Por esse caminho pode-se chegar ao “tornar-se e transformar-se.” Nestes tempos de pragmatismo desbragado, seria isto uma ilusão de filósofos e loucos? Certo, vivemos uma era mais da técnica do que da arte, e, menos ainda, da filosofia. Tenho um amigo que anda desesperado: sua filha decidiu estudar filosofia... logo num tempo deste?, ele reclama. Bom, creio que ainda é cedo para sabermos que novas questões filosóficas surgirão do mundo virtual. Esse mundo ainda não foi capaz de dimensionar o seu próprio alcance, de criar regras de competividade, legislação etc. Mas já produziu mudanças de mentalidades. E um insuportável deslumbramento, diga-se.

Brasileiro – Você esperava o reconhecimento que tem hoje? O que significa isto psicologicamente, em termos de vaidade, de prazer, de auto-estima?

Torres – Escrever foi o meu sonho de criança, lá no Junco, digo, Sátiro Dias. Todo o chão que bati, todos os caminhos que andei, foram em busca de um texto, que só começou a aparecer depois dos trinta, com Um Cão Uivando para a Lua. Foi uma estréia com uma recepção simpaticíssima, calorosa, animadora. Houve até quem achasse que eu não ia agüentar o rojão: com tão entusiástica crítica, logo no primeiro livro, ia tomar um porre e sumir. Só que eu já estava imbuído do espírito de Scott Fitzgerald, o que dizia que o fim de uma tarefa significava o começo de outra. Tanto que quando um repórter (era do Jornal do Brasil) me telefonou dizendo que queria me entrevistar, achei que era algum amigo me passando um trote. Eu estava tão por fora da vida literária que nem sabia que escritor dava entrevista. Eu só queria escrever e publicar para quem quisesse ler. Mas agora estava enredado num novo romance e o telefone tocava sem parar por causa da boa recepção ao primeiro livro. Claro que fiquei vaidoso, e com a auto-estima em alta. Mas não perdi o ritmo e o rumo das horas: mal terminei o primeiro, voltei a trabalhar no segundo, que já estava começado, antes do primeiro. Conto isso para dizer a você, poeta Brasileiro, que o meu trabalho literário tem sido uma construção, tijolo a tijolo. Todos os meus doze livros, cada um a seu tempo, foram bem recebidos. Não posso me queixar. O melhor de tudo é que o interesse pelo meu trabalho não diminuiu, com o passar do tempo. Tenho a impressão que vem crescendo, até. Só posso dizer que isso me dá um certo conforto dentro do quadro da literatura brasileira contemporânea. No entanto queria aqui falar de outra coisa.  Eu acho até que a literatura está um pouco em baixa no mundo, não é só no Brasil, não. Porque o leitor de hoje não é mais aquele leitor que eu fui. Eu não comprava livro por causa de lista de best-seller, nem por televisão, nem por jornal, eu não sabia que tinha resenha! Como é que eu lia em Alagoinhas? Eu ia lá na biblioteca do IBGE catar, num rodapé que tinha lá, o agente do IBGE gostava de mim e me deixava ficar fuçando, e eu ia descobrindo um Tolstoi. Chegou um professor de Geografia, o Carloman Borges - hoje na UEFS -, e me emprestou Jorge Amado, Mar Morto. Achei uma maravilha! Quando eu devolvi ele me deu Angústia, de Graciliano Ramos. Depois me taca um Tolstoi. Aí eu fui despertando o gosto. Quando fui morar em São Paulo comprei toda a obra de José Lins do Rego, no Viaduto do Chá, vendida no chão. Não foi nenhum jornal que me mandou, não foi nenhuma pressão publicitária. Aí eu chego na avenida São João e tem uma coleção chamada "Violão de Rua", da Editora Civilização Brasileira. Aí descubro Ferreira Gullar, e outros poetas que na época eram muito lidos, como Geir Campos, Ledo Ivo, Moacyr Félix. Então, eu acho que há também uma mudança dos tempos, que a gente está assim meio sem saber para onde vai o bonde desta História. Mas, voltando ao começo, esta coisa de sucesso tem muito de aparência. Sucesso literário no Brasil, para mim, é pura ficção.

PERGUNTA - A recente 15a edição do romance Essa Terra mobilizou a mídia e ampliou o interesse por sua obra. A que você atribui a força desse romance em sua carreira?

Torres - Incrível. O relançamento do Essa Terra, pela Record, está tendo uma repercussão tão grande quanto o seu lançamento, em 1976, pela Ática. Isso é mesmo surpreendente. Até porque existe um tabu de que brasileiro só gosta de novidade, não gosta de reedição. O que mais me surpreende ainda: há uma nova geração de leitores que está descobrindo o livro agora. E o está lendo como se fosse um livro de agora. Já tive provas disso, principalmente em algumas universidades onde tenho feito palestras. Não sei, sinceramente, a que atribuir a força do livro. Mas alguma ele deve ter. A força da terra, talvez. A força do sertão, com certeza.

PERGUNTA - O que o Prêmio Machado de Assis para o conjunto da obra, que lhe foi conferido pela Academia Brasileira de Letras, em 2000, representa para sua condição de escritor?

Torres - Não há como negar: os prêmios literários mais respeitados do Brasil são os da ABL. E o Prêmio Machado de Assis é o mais importante deles, sem dúvida. Também, pudera: o prêmio tem o nome do escritor que fundou a instituição que o patrocina, a Casa de Machado de Assis! Senti o peso dessa premiação ao recebê-la, ano passado. Diria que, no plano nacional, foi o maior incentivo que recebi até agora à minha carreira de escritor. No internacional, foi o título de Chevalier des Arts e des Lettres, que me foi concedido pelo governo francês, em 1998, pelos meus livros publicados na França até então (“Essa Terra” e “Um táxi para Viena d’Áustria”). É isso aí: reconhecimento nunca é demais e faz bem à saúde.