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Entrevista com Antônio Torres


Antônio Torres nasceu no pequeno povoado do Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940.

Aos 32 anos lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo Os Homens dos Pés Redondos, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando publicou Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.

Hoje considerada uma obra-prima, Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal.

Em resumo: autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, Antônio Torres é um dos nomes mais importantes da sua geração, com um obra expressiva que abrange 11 romances, 1 livro de contos, 1 livro para crianças, 1 livro de crônicas, perfis e memórias. além de dois projetos especiais (O centro das nossas desatenções, sobre o centro do Rio de Janeiro – e que rendeu um documentário para a TV Cultura, São Paulo -, e O circo no Brasil, da série História Visual, da Funarte, Fundação Nacional de Arte).

*Texto adaptado do  site oficial  do autor.


A seguir, uma pequena entrevista concedida por Antônio Torres ao nosso blog:

CLISERTÃO - Você estará na mesa “Sertão: espelho, miragens – O Nordeste Mítico e o Nordeste Contemporâneo na Literatura”. O que você pode adiantar da discussão que será trazida para a mesa?

Antônio Torres – O que posso adiantar é que será um prazer participar do Clisertão, em Petrolina – ou seja, à beira do São Francisco e de cara para a Bahia, o meu estado natal. Alegria maior é estar à mesa com o meu querido amigo Raimundo Carrero, escritor que muito admiro e parceiro de tantas jornadas. Quanto ao tema – O Nordeste mítico e o Nordeste contemporâneo na literatura, é uma oportunidade para refletirmos sobre as permanências do legado literário nordestino e suas transformações, em função das mudanças de paradigmas no nosso tempo.

CLISERTÃO – Você tem uma trilogia célebre, iniciada por “Essa terra”, de 1976, seguida por “O cachorro e o lobo”, de 1997, e finalizada com “Pelo fundo da agulha”, de 2006. Todos os livros são ambientados no sertão da Bahia, mas um sertão que muda ao longo dos romances, se moderniza, conhece o progresso. Como o senhor vê e trabalha o sertão?

Antônio Torres – Frequentemente recebo notícias do sertão em que nasci, dando conta da realidade de violência que o assalta, deixando-o em pânico. O que me leva a pensar que o sertão que migrou acaba retornando carregado dos estereótipos (urbanos) da modernidade, sendo o mais notório deles o do tráfico de drogas. No quadro atual, o sertão mítico, ao que me parece, cede o seu lugar de referência a uma cultura de massa imposta pela lógica do consumo – o que afinal está por trás dos índices de violência que conhecemos. A minha sensação é que o mundo está todo igual – no que tem de pior.

CLISERTÃO - No último livro da trilogia a questão da identidade perdida é muito explorada. O personagem sertanejo já não se encaixa nas suas memórias. Fale um pouco do “Pelo fundo da agulha”.

Antônio Torres – Esta é a história: um homem na cama, na primeira noite de sua aposentadoria. Só que era São Paulo esta noite, a cidade onde você é capaz de suportar tudo, quase tudo, menos a falta do que fazer. Eis o conflito básico do personagem cujas marcas (sertanejas) de origem afloram em sua memória. E toda a história passa a girar em torno de uma imagem: a da mãe dele, já velhinha, enfiando uma linha pelo fundo de uma agulha – sem óculos. E tudo o que ele deseja naquele momento é ir ao seu encontro, para saber como ela via o mundo através daquele ínfimo buraco. “Pelo fundo da agulha” é também um balanço da vida de um nordestino, com um certo olhar amoroso para a cidade que lhe acolheu, lhe deu espaço de sobrevivência e experimentações, mas também com a sensação de não-pertencimento.

CLISERTÃO – O fato de você ser nascido no sertão, no povoado de Junco, terra natal também do personagem principal da trilogia, influencia a literatura que você produz?

Antônio Torres – Um ponto de partida: um caso real que me contam, uma lembrança de um rosto, de uma voz, de uma situação que me marcou. Mas o começo depende da primeira frase. Ela é que vai dar o tom do texto, e puxar a fabulação. Muita gente pensa que tudo, ou quase tudo, que escrevo é autobiográfico. Bom, não acho que tenha uma vida capaz de caber em 11 romances, um livro de contos etc. Mas que minhas vivências têm me dando um adjutório considerável, isso tem.

CLISERTÃO – Por que, em sua opinião, o sertão é matéria-prima tão recorrente na literatura brasileira?

Antônio Torres – Imagino que é porque o sertão gerou muitos escritores. Mas não foi um sertanejo que disse: “Escreva sobre tua aldeia que escreverás sobre o mundo” – bem, estou citando isso de memória.

CLISERTÃO – “Sobre Pessoas”, seu último livro, é de crônicas, perfis e memórias. Como foi trabalhar com esse novo formato?

Antônio Torres – Foram uns exercícios efêmeros, como um descanso entre um romance e outro. Mas gostei de publicar um livro com textos, digamos, mais leves, enquanto ganho fôlego para um voo mais largo. O que já venho ensaiando há tempos.

No CLISERTÃO, Antônio Torres estará na mesa redonda “Sertão: espelho, miragens – O Nordeste Mítico e o Nordeste Contemporâneo na Literatura”, no dia 15/05,juntamente com o escritor Raimundo Carrero (PE). A mediação será da  Profª Elisabet Moreira (UPE/IFE).