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Salvador, domingo 19/09/2010
Diego Damasceno


“Não sou sambista de uma nota só”


Pode ser o tempo, pode ser a distância. A verdade é que, ao viajar do Rio de Janeiro, onde mora, para a cidade de Sátiro Dias, sua terra natal, Antônio Torres sentiu-se como alguns de seus personagens: fora do lugar. “Já não há mais aquela sociabilidade dos fins de tarde, a rua fica deserta, todo mundo em casa, pendurado na televisão”, disse. Situada a cerca de 250 km de Salvador, Sátiro Dias também não é um nome familiar para Torres. Quando ele nasceu, em 13 de setembro de 1940, o local se chamava Junco, e foi assim que passou para suas histórias. Um exemplo é  Essa Terra, romance que mostra o retorno de um retirante e seu livro mais conhecido. Foi traduzido em sete países e acaba de entrar na lista do vestibular da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). O sucesso também trouxe a pecha de escritor regionalista. “Faz sentido até certo ponto”, diz, lembrando livros como O nobre seqüestrador, de inspiração histórica, e sua estréia na literatura, Um cão uivando para a lua, um relato urbano. Autor de 11 romances, Torres compareceu ao seminário Narrativas e viagens do Junco ao mundo: 70 anos Antonio Torres, na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Lá, o autor conversor com Muito.

Aos 70, novas histórias continuam aparecendo?

Sempre, sempre. Eu vivo de escrever falar sobre isso. Vivo viajando e falando disso. No caminho dessas viagens, você vai sempre se municiando de novas paisagens, novos cenários, novo imaginário, novos personagens, novas histórias. Acho que elas sempre aparecem desde a que agente esteja vivo.

Então pretende continuar escrevendo-as? Trabalha em alguma nova?

Eu dei um tempo. Entre 2006 e 2007, eu publiquei três livros. Pelo fundo da agulha, um livro infantil muito bonitinho – bonito que eu digo é graficamente; Minu, o gato azul; e um livro de crônicas, perfis e memórias chamado Sobre pessoas. Então foram três livros em um ano. Aí, decidi dar um tempo para mim mesmo, até para “reassuntar” a minha própria literatura.

O senhor acredita que o tempo mudou seus motivos para escrever?

Acho que sim, porque de alguma maneira você faz parte do tempo. Você percebe o tempo, percebe o que está mudando. Talvez essa minha parada estratégica seja para repensar minha própria literatura. Minha editora me perguntou: quando você vai fazer um novo romance? E eu falei: eu estou tentando colocar os pés no nosso tempo. Nesse mundo. E aí ela falou assim: não ponha os dois, não. Basta um (risos).

O que acha de ser chamado de escritor regionalista?

O que leva a isso é o meu título mais forte até hoje, que é o Essa terra (1976), que gerou uma trilogia com O cachorro e o lobo (1996) e com o Pelo fundo da agulha (2006). Também tenho mais dois romances dentro dessa espécie de polígono das secas literário. O Carta ao bispo (1979) e o Adeus, velho (1981) . Mas eu não sou um sambista de uma nota só, quer dizer, luto para não ser um sambista de uma nota só. Passeio também por ambientes urbanos, em livros como Um cão uivando para a lua (1972) e  Um táxi para Viena d’Áustria (1991), só para dar dois exemplos, e por romances que fazem uma espécie de interface da história, como no caso de Meu querido canibal (2000) e  O nobre seqüestrador (2003). Logo, essa impressão de que eu sou um escritor regionalista faz sentido até um certo ponto. Quem leu só o Essa terra ou a trilogia pode ficar com essa impressão. Mas se buscar mais do meu trabalho verá que não é bem assim.

A que atribui o sucesso de Essa terra?

Para mim, é um mistério, porque é um romance que tinha tudo para ser um fracasso. É a história da viagem de volta de um personagem que acaba se matando. Não entendo como é que essa história de fracasso virou sucesso. Eu não saberia explicar. Um crítico uma vez me disse que era pelo tom emocional do livro. E pelo seu lado poético também. Eu não sei, a crítica tem dito coisas assim, tem aventado essas possibilidades. Ou pela carga de realidade que está por trás dele. Só que é um realismo brutal, e eu sinceramente fiquei surpreso, até hoje eu sou.

Porque a forma do romance o atrai?

No sertão, quando eu era menino, se falava do “rimance”, o romance em verso, que vem a ser o cordel. Daí, “rimance”. Isso causou um encanto, a palavra desceu tão redonda que eu quis ser romancista. Isso é uma explicação, mas não é toda. Você pode ter uma sensibilidade mais afinada com uma história curta ou já vir com a mente adequada para o poema. Meu primeiro romance, a idéia era escrever um conto. Não sei como se processa dentro de nós, talvez cada indivíduo tenha já dentro de si uma inspiração qualquer para um gênero. Não é comum grandes romancistas serem grandes contistas. Ou o contrário. Claro, Machado de Assis joga bem nos dois. Mas não dá para comparar o Jorge Amado romancista com o contista, o Gracíliano romancista... Talvez eu escreva romance por incapacidade de escrever um poema ou uma música. Tocar um computador não faz o mesmo efeito de um piano. Mas busco no computador alguma sonoridade ao ouvido do leitor.

O senhor tem criticado o escritor-celebridade. A Flip (Festa Literária internacional de Paraty) é um evento criticado por supostamente estimular esse papel. Como foi sua experiência na feira, em 2007?

Acho que eu não criticaria mais... Não mantenho essa visão da sua pergunta. Porque acho que estamos em um momento muito delicado para a literatura. Os espaços nos jornais estão diminuindo, a competitividade estrangeira é muito forte, a sedução dos produtos que nos trazem o imaginário global é avassaladora, e eu acho que o escritor brasileiro tem que encontrar o seu espaço nesse mundo. E aí, as feiras, as festas literárias, têm sido um bom palco para o escritor. Minha experiência como Flip foi a melhor possível. O Público que vai para lá vai à procura dos autores. E eu fiquei realmente impressionado, que eles vão para comprar seus livros, não vão só para ouvir você. Não é só o aspecto da badalação. Ao contrário. Nesse caso, a badalação em torno da Flip beneficia os autores convidados porque os leva a serem mais lidos.

Sem crítica, o que a literatura perde?

Perdemos os nossos interlocutores. Nossos mediadores. Nossos avaliadores. E isso nos leva a uma tremenda solidão. Não há literatura que cresça, que possa crescer sem a contrapartida da critica, eu sou um exemplo disso. Devo muito de meu desenvolvimento literário a críticos como Hélio Pólvora, Carlos Nelson Coutinho, Marcos Santamita, que escreveram elogiando ou mesmo apontando defeitos dos meus livros de forma muito objetiva, o que me levou a pensar meu próprio caminho de escritor. Eu fui muito ajudado por esses críticos, imagine uma nova geração toda que está surgindo aí e que vai pouco a pouco perdendo esse dialogo como a crítica. Espero que voltemos ter espaço para a crítica.

Como nasceu sua candidatura à ABL?

Foi o Aleiton [Fonseca, poeta e professor universitário]. Ele foi ao Rio, teve uma longa conversa comigo, dizendo que era uma vaga da Bahia, que eu tinha que concorrer. Só que eu entrei atrasado. E me disseram isso de cara. Mas acharam muito boa minha candidatura. Não me arrependo, Relaxei também quando vi que não ia ganhar.

Voltaria a se candidatar?

Isso é para o futuro. É um assunto delicado, sobre o qual a gente não deve falar.

Como foi essa história de reescrever 33 vezes o mesmo capítulo?

Foi com Um Táxi para Viena d’Áustria. Eu tenho obsessão por reescrever, por isso meus livros demoram tanto. Quando acabei o livro, mandei para a editora, na época a Companhia de Letras, aí o editor [Luiz Schawarcz] me escreveu, disse que gostou do livro e pediu para eu dar uma olhada no capitulo tal. Quando olhei, eu disse: poxa, bendito editor. Aquele capítulo todo em diálogo estava meio cansativo. Aí fiquei reescrevendo, reescrevendo... Levei 33 vezes, e foi aí que começaram a surgir coisas. Bendito editor que me levou a achar o texto. Então, quando um editor disser para você, meu jovem escritor, ”dar uma olhada”, não se zangue.

Em suas idas e vindas, em algum momento sentiu-se desenraizado como alguns de seus personagens?

Sim. Ipatinga, Minas Gerais. Feira de livros em um shopping. Eu entro naquele shopping, fico me perguntando se estou no Brasil ou se estou em Amsterdã. Há um aspecto do nosso mundo hoje, parece que a singularidade desapareceu. Mesmo no Junco, cheguei lá ontem, as moças parece que estão em Ipanema. O jeito de vestir, o comportamento, o estilo. E aí eu me sinto meio estrangeiro nesse tempo, no sentido existencial. Parece que estamos num grande aeroporto o tempo todo. Em Junco, não tem shopping, mas tem a presença da internet, da televisão, já não há mais aquela sociabilidade dos fins de tarde, as pessoas na calçada, a rua fica deserta, a praça deserta, todo mundo em casa pendurado na televisão, Dá um estranhamento.