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Saudade*


Esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Alexandre O’Neill

Para isso fomos feitos.
Por isso temos longos braços para os adeuses.
Vinicius de Moraes

Eis o meu inescapável destino: ser ambígua por natureza. Trago no coração alegria e martírio, de que decorre uma tristeza que rima com beleza, a enovelar um sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações bem vividas. Em outras palavras: privação da presença de alguém ou de algo que muito se quer, ou a ausência de certas experiências e prazeres do passado, que se deseja reviver. Saudade assim até que não é ruim, eu tiro isso por mim, cantava o saudoso Luiz Gonzaga, o rei do baião, numa música popular que também dizia que saudade faz doer, amarga que nem  jiló. Pode me chamar de uma faca de dois legumes, que corta na alma, ui!

Modéstias à parte, sou uma palavra para muita prosa e verso, ponteio de viola, conversa mole, papo perfunctório (perdão, leitores), devaneio, pieguice, riso e lágrima. E é aí que mora o perigo. O de ser a musa inspiradora dos suspiros e ais das mais compungidas almas deste mundo: Saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor... Daí um célebre vate dantanho haver me definido como a presença da ausência. Outro, de gosto mais duvidoso, cravou-me um espinho cheirando a flor. E tome metáfora enternecedora servida em frasco de xarope e frases lapidares como as tumbas: Punge-me agora trágica saudade...   

(Com a palavra um professor, saudoso das aulas de civismo, que incluíam a cantoria de hinos patrióticos e a declamação de poemas tão inolvidáveis quanto os boleros que ele gostava de dançar).

O professor pigarreia, para desembargar a sua emocionada voz. E ensina: “Quem poderá aprofundar melhor do que qualquer outra pessoa as singularidades poéticas que se enrodilham na essencialidade dos sentimentos humanos e suas expressões vocabulares, se não um poeta? E não precisa ser dos maiores. Basta que seja poeta”. Os meninos: “Ai que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”. Vossos aplausos, por favor.

Ora dizem que sou intraduzível. Ora, que estou entre as dez palavras da língua portuguesa de mais difícil tradução. Ambiguidade é isso aí: altamente valorizada para consumo interno, não possuo valor de troca no mercadão universal das Letras. Tirando-se nuestros hermanos de habla hispânica, que têm lá a saudosinha Soledad, os demais tradutores devem me achar uma encrenca, uma pedra na língua deles. Mas quer saber mesmo? Meto-me em sapatos altos, vaidosíssima, toda vez que ouço essa história de que sou uma autêntica filha da última flor do Lácio, significando isto que tenho o latim no meu DNA. Descendo de Solitas e Sólus, quer dizer, de uma família chamada Solidão. É preciso dizer mais?

Mas digo: vindo há muito do tempo, não posso afirmar com exatidão em que dia, hora, mês e ano nasci, e se foi já no século VII, quando surgiu um conjunto dialetal galego-português no noroeste da Península Ibérica, ou mais tarde, quando os portugueses investiram contra os árabes, para a reconquista de suas terras dominadas por eles, e com isso o idioma alastrou-se pelo sul, lá pelas bandas dos Algarves, separando-se do galego e tornando-se o veículo de expressão de um novo reino; ou se foi quando o português se consolidou como língua literária, entre os séculos XV e XVI, cujo coroamento viria a acontecer com a publicação de Os Lusíadas, em 1572. Antes disso ele, o português, já havia feito muita travessia pelos mares, na voz dos intrépidos marinheiros que atingiram o Cabo Bojador em 1434, chegaram à foz do Congo em 1483, dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1487, e deram com seus costados no Brasil em 1500. Eu fiquei em terra e me fiz ao mar ao mesmo tempo, a recitar: Cantando [me] espalharei por toda a parte, se a tanto me ajudar o engenho e a arte. Em terra, com os olhos cansados de olhar para o além, cantava La barca, um bolero que ainda ia ser inventado, séculos adiante, enquanto outra parte de mim seguia as pegadas em Ceuta do soldado Luís de Camões, e nos quinze anos mais em que ele se meteu em guerras na Índia, tendo sido ele próprio um herói da epopéia que escreveu. No regresso, pegou o mote Se me levam águas, nos olhos as levo, e disso saiu um poema que começa assim: Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão... E nessas suas linhas, que podem me servir se não de certidão de nascimento, mas de batismo, ele via no espelho das águas a minha condição ambígua: Todas são salgadas, porém as choradas, doces me parecem. Enfim, se eram do mar, da saudade seriam. Navegar era preciso.

Eu nasci para marinheiro,
Mas pus os óculos e fiquei em terra.
Alexandre O’Neill

A esta altura parece claro que minha biografia começa mesmo é no tempo das grandes navegações. Quanta aventura, tanta desventura, conquistas e espantos, cobiça e sonhos. Feliz o tempo que passou, passou. Tempo tão cheio de recordações... Bota saudade nisso.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

(Lágrimas de Portugal? Cá entre nós, isso não parece lavrado numa tabacaria da zona portuária, por um bardo alambicado que queria se passar por outra pessoa? E pessoa cujo estro iria deixar a posteridade a babar nas gravatas?).

Mas sim, assim me vêem, por séculos, seculorum, amém. Uma enlutada viúva à beira do cais, a salgar o mar de fados, boleros e guarânias, sambas-canções, toadas, valsas, xotes, maracatus e baiões, e a acenar para o navio que lá vai à linha do horizonte, já a adentrar a fronteira da nostalgia. E, enquanto o mundo gira e a lusitana roda, Portugal volta a cantar um dos maiores sucessos de sua música ligeira: Ó tempo, volta pra trás. Quem anda em busca do tempo perdido está sentindo o que? Sodade, mô bem, sodade.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa

Do heróico tempo ficou-se a ver navios. E com olhar esfíngico e fatal. E a fitar o futuro do passado, vendo entre a cerração um vulto baço, que torna. E de quem seria esse saudoso vulto cujo retorno se esperou, dia após dia, ano após ano, século após século? De quem poderia ser se não de O Desejado, o rei morto no campo de batalha em Alcácer-Quibir, no dia 4 de agosto de 1578, seis anos depois da publicação de Os Lusíadas?! Este, sim, salgou o mar com o mais transatlântico saudosismo legado ao mundo que o português criou, ao passar além da dor.

Eis-me aí: passar além da dor. Agora, sim, dá saudade da pessoa que escreveu isto, e não aqueles bafios marinhos lacrimosos e filosofantes, tudo vale a pena se a alma não é pequena, valei-me minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Haverá santa que me salve da poesia barata, a que deveras afaga e consola, e da qual nem aquela venerável pessoa ficou imune? Mas vamos combinar: uma coisa é o saudosismo individual, para consumo privado, sem perturbações da ordem pública; outra é o coletivo, que vem em cruzadas assustadoras em busca do futuro do passado, heil! Ideologicamente, porém, não favoreço apenas as margens direitas do mundo. Estou em todos os lados, todas as torcidas, correntes de pensamento, credos etc., onde quer que haja um coração que a seu modo sente saudade de tempos mais felizes – eis aí porque atualmente estou arrebentando nas bolsas dos sentimentos, nas quais a minha cotação atinge índices nunca dantes imaginados.

Recentemente encontrei num romance brasileiro um personagem a dizer para o retrato oval do seu finado avô – um fervoroso fiel à igreja católica, apostólica, romana -, que só sentia saudade de duas coisas: o tempo dos boleros e o tempo dos comunistas, embora não soubesse exatamente por que; talvez houvesse mais sonhos naquele tempo, ele acabou por concluir, ao final de seu solilóquio. Pode-se deduzir que uma saudade como essa é conseqüência dos estilhaços projetados pela queda do Muro de Berlim, acontecida em anos recentes do passado. Mas veja: um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta. Quem escreveu isso foi Oscar Wilde. E ele morreu no ano de 1900. Eu vim de longe e para longe vou, porque o ser humano está sempre sentindo falta de alguma coisa que acha que já teve melhor.

O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera.
Castro Alves

Presumivelmente cheguei ao Brasil acompanhando o movimento utópico dos barcos. Aqui me espraiei. Tanto mar, tanto chão, quanta selva. Então me desdobrei em duplo sentimento: oceânico e telúrico. Juntando os dois em um, dá a solidão de um país grande. No ano de 1836 tive a subida honra de ser homenageada em um livro que entraria para a história literária como o marco inicial do Romantismo brasileiro. Título: Suspiros poéticos e saudades. Chamemos isso de um desconvite à leitura. Autor: Gonçalves de Magalhães. Era o precursor de uma corrente que cantava o desgosto da vida, a infância, o amor impossível, a melancolia, a tristeza, ufa! O inefável poeta veio a se superar em outro volume, intitulado Cantos fúnebres.

Passos mais adiante, eu viria a me sentir muito mais bem tratada (ou retratada) nas mãos do maranhense Gonçalves Dias, que se consagrou como o primeiro grande poeta romântico do Brasil, e que sentia orgulho de ter em seu sangue as três raças formadoras do povo brasileiro, por ser filho de um comerciante português com uma mestiça de índios e negros. Pelo menos dois de seus poemas puxam a brasa para a minha sardinha: Ainda uma vez, adeus e Canção do exílio, este escrito quando ele cursava direito na Universidade de Coimbra e morria de saudades do Brasil: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Com essa estrofe fica a sugestão de mote para o seguinte capítulo: Do quanto a saudade esteve, está e sempre estará no coração dos exilados. Mestrandos e doutorandos, mãos às teses.

Sim, sim, também tive alguma influência na lírica do pop star do Romantismo made in Brazil, e sua mais bela cabeleira, o baiano Castro Alves, que, embora tivesse colocado a sua pena a serviço de um mundo mais justo, comprometida com a construção de uma nova ordem social, e com a causa republicana e abolicionista, não deixou de ser também um flamejante poeta do amor e da melancolia. Na sua obra há pelo menos uns sete poemas com um Adeus no título. Em Horas de saudade, escreveu: No piano saudoso, à tua espera/ Dormem sono de morte as harmonias/ E a valsa entreaberta mostra a frase/ A doce frase qu’inda há pouco lias. Castro Alves e Gonçalves Dias foram os românticos brasileiros que deixaram saudades.

No Brasil se diz: “Triste é não ter de que sentir saudade”. E mais: “Saudade não tem idade”. Aqui me mimam, fazem-me cafunés, carregam-me nos colos, ora como vó coruja, ora como mãe gentil, ou mana do peito, ou filha querida, amada amante. E até me puseram no andor das 100 palavras para melhor conhecer o Brasil, espécie de breve dicionário afetivo japonês-português, publicado em 2008 dentro das comemorações do centenário da imigração japonesa. Não deu para entender nos caracteres nipônicos que palavra corresponde à saudade, mas o certo é que ganhei um verbete amoroso, assinado por Paulo Nathanael Pereira de Souza, um educador paulista já premiado pela Academia Brasileira de Letras. Arigatô.

Aqui tenho data: 30 de janeiro. É o Dia Nacional da Saudade. Por que 30 de janeiro? Naveguei (nada a ver com uma volta às minhas origens, pois, pois) na Internet e não encontrei nenhuma pista. Escolheram uma data e pronto, estamos conversados. Homenagem é igual a cavalo dado: não se olha os dentes. Além do mais, em vez de continuar a pesquisa em outras vias, liguei-me catatonicamente a um programa dedicado ao assunto, na televisão. Um repórter saiu às ruas para saber de que as pessoas mais sentem saudades. Um nordestino que mora no Rio disse que de sua terra natal. Um carioca mostrou-se saudoso do tempo em que sua cidade vivia em paz, sem a violência atual. Outros, de um passado mais glorioso no futebol brasileiro. La nave vá. Ontem os heróis eram os dos mares. Hoje, os dos gramados.

Por fim, mas não por último, registre-se que há brasileiros que passam por mim fingindo que não me conhecem. Para estes, saudade e melancolia são sentimentos retrógrados, reacionários, bregas. Múmias paralisantes. Melhor devolvê-las a Portugal - de onde nunca deveriam ter saído -, aos cuidados da alma imortal de Fernando Pessoa, aquele que em vida carregou nos dedos três anéis irreversíveis: a tristeza, a desgraça, a solidão.

Chega de saudade, decretou a dupla Vinícius de Moraes-Tom Jobim, ao compor a música tida e havida como o marco da Bossa Nova. Mas olha que coisa mais linda, mais cheia de graça: saudades do tempo de Tom e Vinicius. Cordiais saudações.

*Do livro Dicionário amoroso da língua portuguesa. Organização: Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá/ Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2009.