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Anotações sobre o romance


Introdução às oficinas literárias Para gostar de ler (e escrever) romances, realizadas na Casa do Saber do Rio de Janeiro, às terças-feiras de julho de 2009.


1.

Segundo o mestre Aurélio, o romance é a “transposição artística da vida em longa narrativa dos atos e sentimentos de personagens imaginárias”.

2.

Mestre Houaiss: “Obra narrativa escrita em língua românica, em prosa ou em verso”.
“Prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em fatos reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc.”

3.

Outras definições:

“Composição poética narrativa do romanceiro popular, em particular a de tema amoroso”.

“Descrição marcada pelo exagero e pela fantasia (vai fazer um romance para contar um simples incidente...)”.

“Fato real que, por ser muito complicado, parece inacreditável.”

Etc.

4.

Grande Enciclopédia Larousse Cultural: “Gênero literário em prosa relativamente longa, caracterizado pela narração de acontecimentos fictícios, mas geralmente verossímeis, relacionados a uma ação centrada num enredo, na análise de personagens, ou no exame de uma situação”.

Portanto, o romance requer narrador/narradora, personagem central/ protagonista (ou narrador/personagem), personagens secundários, cenário, trama, subtramas, fabulação, começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem.

5.

De Honoré de Balzac: “É preciso desfolhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, porque o romance é a história secreta das nações”.

6.

Roland Barthes: “Ato de sociabilidade, o romance institui a literatura”.

7.

Alain Robbe-Grillet: “Só a escrita romanesca constitui a realidade”.

8.

Antes de sabermos que o romance é tudo isso e mais alguma coisa (por exemplo: que em parte é um legado da Antiguidade, e sucedâneo do poema épico, mas que na Europa medieval considerava-se romance um fenômeno de língua, ou seja, tudo o que não era escrito em latim), pois antes que fôssemos informados de tudo isso, a palavra já descia melodiosamente em nossos ouvidos, por significar namoro, caso amoroso etc., deixando-nos a imaginar enredos que incluíam encontros fortuitos e lenços perfumados. Nas tertúlias ancestrais aos pés dos fogões, para espantar o medo da noite num remoto sertão, romance era uma história de amor e aventura cantada ao som de uma viola, como a do Pavão misterioso, ou de bravura, como A chegada de Lampião ao inferno. Não é por acaso que a poesia de cordel, forte legado ibérico ao Nordeste brasileiro, popularizou-se como rimance, significando isto romance com rima.

9.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Assim começa o Evangelho Segundo São João. Para nos dizer que o dom da palavra é uma graça divina. Ao dar fala ao homem, Deus o teria distinguido no reino animal. Afinal, Ele o criara à sua imagem e semelhança. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito Pai, cheio de graça e de verdade”.

Recorro a este memorável texto bíblico por dois motivos. Primeiro, pela sua beleza literária. Segundo: considerada o livro dos livros, o mais lido de todos os tempos, no mundo ocidental, a Bíblia é um caso exemplar de fabulação, a começar pelo Primeiro livro de Moisés chamado Gênesis, o mito dos mitos, que verdade científica alguma conseguiria suplantar no imaginário humano. Revisitemos o seu início, ainda que tão somente pelo prazer de reler o mais admirável de todos os textos:

  No princípio criou Deus os céus e a terra.
         E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sob a face do abismo; e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
         E disse Deus: Haja luz. E houve luz.
         E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre luz e as trevas.
         E Deus chamou a luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.
         Etc.

Tão conhecida quanto essa história é a da própria Bíblia.

Nascida no deserto com Moisés, no século 13 antes de Cristo, ela reúne uma coletânea de livros escritos por diferentes autores ao longo de vários séculos. Os que se relacionam à aliança de Deus com o povo judeu estão no Antigo Testamento. Já o Novo Testamento apresenta os relatos concernentes à aliança de Jesus Cristo com todos os povos. O conjunto dessa obra sagrada tem exercido uma poderosa influência na literatura. Nem é preciso um grande esforço de memória para lembrar alguns títulos de romances e de contos de inspiração bíblica. Cinco casos exemplares: “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, “Absalom, Absalom” e “Desça, Moisés”, de William Faulkner, “O hóspede de Job”, do português José Cardoso Pires, e o recentíssimo “Caim”, da nossa contemporânea Márcia Denser.

Esse poder de sedução da Bíblia, para os escritores, se explica. Além de suas revelações, que fundamentam as crenças cristãs, nela encontram-se todas as matrizes literárias: a mítica, a trágica, a épica, a lírica, a dramática. E tudo com fabulação, estilo, uso estético da linguagem, no que se inclui a qualidade poética, sem a qual não se chega à literariedade.

Portanto, se no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, o Verbo se fez literatura, já como uma criação do homem, a quem Deus deu a fala. E ele, o bicho-homem, fabulista, fabulador, fabuloso por natureza, da palavra falada chegou à escrita. E ela, a literatura, se desenvolveu com o próprio desenvolvimento da espécie, pela sua necessidade de contar histórias e de preservar a sua memória. Mas a literatura só ganharia existência concreta, ou seja, corpo, forma, difusão e perenidade, a partir do advento da imprensa, no século 15 depois de Cristo.

Povos primitivos já desenvolviam uma rica produção de lendas, mitos e histórias, por vezes associada à música, à dança e à dramatização, em espetáculos religiosos e profanos. E assim se formou a tradição da literatura oral, que gerou grandes poemas épicos, os textos sacros e as representações dramáticas das civilizações antigas da Europa e da Ásia. Na Idade Média, baladas, poemas, contos, gestas, adágios e adivinhações da cultura popular passaram à forma escrita, através de mãos eruditas. O avanço seguinte viria com a palavra impressa. E aqui cabe um tributo ao alemão Johannes Gensfleisch Gutenberg, o inventor dos caracteres móveis que dariam origem à tipografia, e daí às artes gráficas, à imprensa, sem as quais a indústria editorial não viria a existir.

Resultaram desse processo obras como o “Mahabharata” e o “Ramayana”, da Índia, a “Odisséia” e a “Ilíada”, de Homero, o “Edda” escandinavo, e a própria Bíblia.

10.

O primeiro verdadeiro romance da literatura universal foi o “Dom Quixote”, que teve a sua primeira parte publicada em 1605, sendo que a segunda sairia em 16l5. E com ele Cervantes pôs em xeque as ilusões e princípios estéticos de toda a literatura anterior à sua. O tempo agora era outro. A Espanha deixara de ser um conquistador do mundo para tornar-se o país da burocracia. Todo o seu heroísmo de conquistador havia se degradado. Dom Miguel de Cervantes fez mais: expandiu as fronteiras do romance, tornando um espaço entre o real e a imaginação, levando o leitor ao terreno da dúvida. “O engenhoso fidalgo da Mancha” viria a fazer o mais patético dos empedernidos a rir-se de si mesmo. E a partir dele, o romance passou a ser um desestabilizador das certezas humanas. Além disso, Cervantes inaugurou a figura triangular herói-mediador-objeto do desejo, e com isso compôs a estrutura profunda do romance ocidental.

A sinopse do “Dom Quixote”:

Um fidalgo provinciano que passava o tempo todo a ler romances de cavalaria, acabou por se identificar com os heróis de suas histórias preferidas. Um dia, vestiu uma velha armadura, armou-se de espada e lança, e partiu para uma louca aventura. Ao encontrar um bando de tropeiros de bestas, parou para conversar com eles. E tentou persuadi-los de que ali pelos arredores havia uma camponesa chamada Dulcinéia, que era a mulher mais bonita do mundo e a senhora de seus sonhos. Os tropeiros deram-lhe uma surra e o levaram de volta para casa, onde o padre do lugar, ajudado por um barbeiro, queimou solenemente todos os seus livros. Sua loucura, porém, era incurável. Ele voltou a montar em seu cavalo, o Rocinante, e partiu de novo, desta vez na companhia de um fiel escudeiro chamado Sancho Pança, que tudo faria para remediar as consequências dos desatinos que a desvairada imaginação do amo acarretavam. Vencido em combate, foi forçado, por juramento, a abandonar a sua aventura, quando, então, percebeu a fatuidade da sua quimera, e morreu, deixando a Sancho Pança a realidade de uma existência desprovida de heroísmo e fantasia.

11.

Certo, o romance moderno nasceu na Espanha, no século 17, mas cresceu na Inglaterra do século 18, com a revolução industrial, quando o campo marchava para a cidade e Londres se tornava a maior capital do mundo, enchendo-se de bordéis, criando o cartão de ponto e o comportamento padronizado da vida operária. Expandiu-se no século 19, quando chegou ao apogeu, pelo conjunto da obra de um elenco de gigantes: Tolstoi e Dostoievski, Eça de Queirós e Machado de Assis, e Flaubert, Sthendal, Balzac, Dickens...

12.

No século 20, um irlandês pede a palavra. Ora muito bem, estava tudo muito bom, mas chegara o momento de dar uma sacolejada nessas histórias com começo, meio e fim. Afinal, a mente humana não funciona de forma tão linear, mas por fluxos de consciência. O mundo já estava em plena era da psicanálise, que tanto se valeu da literatura. Pois agora a literatura iria se valer da psicanálise. Ao tempo cronológico interpõe-se o tempo psicológico e os monólogos interiores. E esse tempo não era mais o do grego Odysseus, o homérico Ulisses, rei de Ítaca, e sim o de um outro Ulisses, representado pelo anônimo corretor Leopold Bloom, que não tinha nenhuma Tróia para conquistar epicamente, montado num cavalo de pau. A aventura desse outro Ulisses resumia-se a gastar as solas dos seus sapatos, perambulando pela cidade de Dublin, por todo o dia 16 de junho de 1904, cruzando pelo caminho com a mulher, Molly, e um jovem chamado Stephen Dedalus.

Paródia da “Odisséia”, o “Ulisses” de James Joyce quebra a estrutura tradicional do romance, e, ao combinar características de lenda, reportagem, farsa, drama, sinfonia, tratado escolástico, referências simbólicas emprestadas da mitologia, da história e da literatura, ele faz da experimentação de linguagem, invenção de palavras e inovações estilísticas a sua grande novidade. Foi um escândalo.

13.

O século 20 foi também o de Marcel Proust, Virgínia Woolf – que a crítica situa entre Joyce e Proust -, Franz Kafka, Thomas Mann, Ítalo Calvino, Cesare Pavese, Sartre, Simone e Camus, Marguerite Duras e Boris Vian, e da tropa de choque norte-americana, comandada por William Faulkner, John dos Passos, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, os antecessores de William Styron, Norman Mailer, Truman Capote, Carson McCullers, Saul Bellow, Flanery O’Connor, Salinger, Phillip Roth. Sem esquecermos a Beat Generation de Jack Kerouac, que botou o pé na estrada em ritmo de jazz, muita birita e marijuana, ouvindo Allen Ginsberg recitar: “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa...”

 E, de lá para cá, Paul Auster, Don Delillo. 

14.

América hispânica: ninguém escrevia ao coronel. E aí o coronel escreveu “Cem anos de solidão”. E a utópica “pátria grande” sonhada pelo cubano José Marti entrou no mapa do mundo, no qual García Márquez, Borges, Cortazar, Vargas Llosa, Juan Rulfo, Juan Carlos Onetti, Cabrera Infante e etc. se tornaram nomes familiares.

15.

No Brasil, os modernistas de 1922 (Mário e Oswald de Andrade à frente), propugnavam por um rompimento com a norma lusitana, e que viéssemos a escrever de acordo com a nossa fala. Mas foram os romancistas de 30 – Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego -, que o realizaram com um grande poder de fogo. Os traços dessa geração: Rachel – o depoimento vigoroso e solidário, contra um quadro social deplorável. Jorge Amado – a extraordinária capacidade de criar personagens, de contar histórias; a linguagem desabusada. Zé Lins – a fabulação. Graciliano – o estilo.

16.

Vida que segue: João Guimarães Rosa – o grande rio que nasce em Cordisburgo, Minas Gerais, e deságua no Mississipi, onde William Faulkner fundou um território mítico e nele inscreveu a sua legenda. Os dois eram primos. E aparentados de James Joyce, mas, em relação a este, tiveram a vantagem das vastidões continentais, dos espantos de um continente que, se já não era mais o Novo Mundo, mundo ainda novo era.

E que mistérios tem Clarice?
Os dos rios que correm para dentro de si mesmos.
E era nesses rios que ela mergulhava, até as profundezas de outras audazes mergulhadoras, chamadas Virgínia Woolf e Katherine Mansfield.

17.

Quando Clarice chegou, cá estava Lygia Fagundes Telles, assentada no seu trono de rainha paulistana das Letras. Autora de um best-seller, “As meninas”, é no conto, porém, que ele se torna ainda mais admirável, como podemos conferir em “Antes do baile verde” e “A estrutura da bolha de sabão”. Lygia pertence à geração de Fernando Sabino, Autran Dourado, José J. Veiga, Antonio Callado, José Cândido de Carvalho, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Carlos Heitor Cony, os cirurgiões plásticos que fizeram as costuras finais nas extirpações, iniciadas pelo Modernismo de 22, às adiposidades da última flor do Lácio, ou seja, os barroquismos, a verborragia e o empolamento de linguagem que herdamos dos colonizadores portugueses.

18.

Minha geração encontrou a estrada da modernidade asfaltada. Da Manaus de Márcio Souza à Porto Alegre de Moacyr Scliar, e, um pouquinho depois dele, João Gilberto Noll. E todas as veredas levavam às Minas Gerais de Oswaldo França Júnior, Ivan Ângelo, Wander Piroli, Roberto Drummond, Carlos Herculano Lopes. Ao Rio de Nélida Piñon, Sérgio Sant’Anna, e do gaúcho-carioca Flávio Moreira da Costa. À Bahia de João Ubaldo Ribeiro, Marcos Santarrita e Sônia Coutinho. À São Paulo de Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Raduan Nassar. Ao Paraná de Domingos Pellegrini Júnior, ao Pernambuco de Raimundo Carrero etc., etc., etc.

19.

Agora, temos mais escritores por metro quadrado do que leitores. Tanto que ficou difícil saber quem é quem. Mas todos podem ser encontrados nos cadernos culturais da imprensa, nas livrarias e em mais de um milhão de blogs de tudo quanto é canto do Brasil.