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Anotações sobre a poesia


(Texto de introdução às oficinas literárias – de poesia, crônica e conto - realizadas na Casa do Saber do Rio de Janeiro, às sextas-feiras, de 18/9 a 23/10).


O que é poesia? “A arte de compor ou escrever versos”, assim a definem invariavelmente todos os dicionários brasileiros da língua portuguesa. Mestre Houaiss acrescentou: “Composição em versos (livres e/ou providos de rima) cujo conteúdo apresenta uma visão emocional e/ou conceitual na abordagem de idéias, estados de alma, sentimentos, impressões subjetivas etc., quase sempre expressos por associações imagéticas”.

Isto diz tudo?

Parece que não, a julgar pela extensão do verbete do célebre filólogo, que prossegue: “Composição poética de pequena extensão”. Comentário: o que dizer então de “A Odisséia”, “A Ilíada” e “Os Lusíadas”, sendo este o poema que inaugurou o nosso idioma? Ou do “The waste land”, de T. S. Eliot? Logo, nem toda poesia é uma composição de pequena extensão. Há exceções monumentais, como é o caso de “A Divina Comédia”, de Dante. Longos poemas também são “Cobra Norato”, do brasileiro Raul Bopp, e “Uivo”, do beatnick Allen Grinsberg, por exemplo. Mas vamos em frente: “Arte dos versos característica de um poeta, de um povo, de uma época”. Nada a comentar. Continuemos: “Arte de excitar a alma com uma visão do mundo por meio das melhores palavras em sua melhor ordem.” Excitar a alma? Recorramos ao próprio Houaiss: “Excitar = provocar ou ter uma reação (física ou psicológica)”. No que se inclui, naturalmente, o desejo sexual, que faz a alma cantar. E passemos a outras variações sobre o mesmo tema: “Poder criativo, inspiração; o que desperta o sentimento do belo; aquilo que há de elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas”.

Bem, já não se fazem musas inspiradoras como antigamente. E assim a inspiração parou no tempo, envolta nas brumas do romantismo, banida da modernidade juntamente com o elevado ou comovente sentimento do belo. Hoje, negam-se poderes mágicos ao fazer poético, que em princípio requereria apenas o amalgamento destes elementos básicos: talento criador e rigor no trato com as palavras, levando-se em conta que a expressão poética tem um quê e um como, ou seja, o quê vai ser dito e a forma como se o dirá. O sortilégio que se estabelece entre conteúdo e forma pode ser entendido como o equilíbrio que deve ser buscado entre emoção e razão. E aqui já não estamos mais consultando um dicionário, mas lendo T. S. Eliot, o poeta e ensaísta que tanto influenciou a poesia do século 20: “O poema é um organismo dotado de vida própria, e é o seu significado, a sua organização de materiais utilizados, as relações existentes entre suas partes e cada uma delas e a sua estrutura global, que é necessário estudar”.

Do seu livro “A essência da poesia” destacamos também o seguinte:

“Não acredito que a tarefa do poeta seja, primordialmente e sempre, levar a efeito uma revolução da linguagem. Não seria desejável, ainda que fosse possível, viver em estado de perpétua revolução – a ânsia pela novidade contínua na dicção e na métrica é tão doentia quanto a adesão obstinada à linguagem dos nossos avós. Há épocas para exploração e épocas para o desenvolvimento do território conquistado”. Eis aí um recado para os que parecem se sentir obrigados a reinventar a poesia a cada verso que escrevem.

De anotação em anotação, retroagiremos à “Arte poética” de Aristóteles, presumivelmente escrita entre os anos de 338 a 336 antes de Cristo. Para ele, a poesia é uma imitação pela voz e distingue-se assim das artes plásticas que imitam pela forma e pela cor. A partir desta definição, Aristóteles estabelece diferentes formas poéticas, desde a dança que imita apenas pelo ritmo, até a poesia lírica, a tragédia e a comédia, que imitam pelo ritmo, pela linguagem e pela melopéia. As formas intermediárias seriam as imitações em prosa, as elegias, a poesia épica, a música vocal. E conceitua a arte poética como “uma disposição suscetível de criação acompanhada de razão verdadeira”, quer dizer, ele já estava falando da necessidade de equilíbrio entre emoção e razão. E acreditem: em seu tempo também já se discutia as características do belo. Aristóteles tendia a defender os elementos racionais mais do que os sensoriais. Logo, na arte poética o conflito razão-emoção é bem antigo. E, segundo Aristóteles, o belo reside na grandeza da ordem. Suas formas são a unidade ou coordenação – a proporção ou simetria -, a determinação ou precisão.

Na minha busca insaciável de entendimento da matéria aqui apresentada, esbarro em duas linhas do francês Michel Leiris que, na introdução ao livro de Jean-Paul Sartre sobre Charles Baudelaire, define a poesia como “veículo de uma mensagem”, e, que, portanto, é preciso “referir com clareza qual é o mais amplo conteúdo humano desta mensagem”. Bem, tal análise foi perpetrada no tempo do existencialismo, que se pretendia um novo humanismo.

Mas cesse tudo que a antiga musa canta, pois agora passaremos a palavra a Octavio Paz, o poeta e ensaísta mexicano que ocupou um singularíssimo lugar na literatura latino-americana do século 20. Destaquemos de “A consagração do instante”, terceiro capítulo do seu livro “Signos em rotação”, os seguintes ensinamentos:

1. “O que caracteriza o poema é a sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la. Esta circunstância permite uma indagação sobre sua natureza como algo único e irredutível, e, simultaneamente, considerá-lo como uma expressão social inseparável de outras manifestações históricas. O poema, ser de palavras, vai mais além das palavras e a história não esgota o sentido do poema; mas o poema não teria sentido – e nem sequer existência – sem a história, sem a comunidade que o alimenta e à qual alimenta”.

2. “A poesia não se sente: diz-se. Ou melhor: a maneira própria de sentir a poesia é dizê-la. [...] O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mesmo quando nos fala de outros mundos: as imagens noturnas são compostas de fragmentos das diurnas, recriadas conforme outra lei. O poeta não escapa à história, inclusive quando a nega ou a ignora. Suas experiências mais secretas ou pessoais se transformam em palavras sociais, históricas. Ao mesmo tempo, e com essas mesmas palavras, o poeta diz outra coisa: revela o homem. Essa revelação é o significado último de todo poema e quase nunca é dita de modo explícito, mas é o fundamento de todo o dizer poético”.

3. “A experiência poética não é outra coisa que a revelação da condição humana, isto é, desse transcender-se sem cessar no qual reside precisamente a sua liberdade essencial. Se a liberdade é movimento do ser, transcender-se contínuo do homem, esse movimento deverá estar referido sempre a algo. E assim é: um apontar para um valor ou uma experiência determinada. A poesia não escapa a essa lei, como manifestação da temporalidade que é. Com efeito, o característico da operação poética é o dizer, e todo dizer é dizer de algo. E que pode ser esse algo? Em primeiro lugar esse algo é histórico e datado: aquilo de que o poeta fala efetivamente, sejam os seus amores com Galatéia, o sítio de Tróia, a morte de Hamlet, o sabor do vinho numa tarde, ou a cor de uma nuvem sobre o mar. O poeta consagra sempre uma experiência histórica, que pode ser pessoal, social ou ambas as coisas ao mesmo tempo”.

Um breve histórico

No princípio, a poesia tinha um caráter social. Associada aos cantos religiosos e ao entretenimento, servia para animar efemérides públicas e privadas, incluindo-se nisso as saudações a personalidades, e as loas aos grandes feitos militares, nas guerras de conquistas. Era usada também para a cura de doenças. Esse uso chegou até ao sertão baiano em que nasci. Ali, sempre que havia alguém doente, chamava-se uma rezadeira, ou benzedeira, que, pela urgência do chamado, chegava toda esbaforida. Com três galhos de arruda numa das mãos, ela os movimentava na cara do enfermo, fazendo o sinal da cruz, enquanto recitava:

Com dois te botaram
Com três eu te tiro
Com perna de grilo
Que vem do retiro

É de metetéia
É de manenanha
Que esse menino fique bom
De hoje para amanhã!

Pouco importava se a própria rezadeira não soubesse os significados de metetéia e manenanha, palavras que sequer foram dicionarizadas pelos mestres Aurélio Buarque de Holanda e Antonio Houaiss. O importante era o poder daquele poema – e de sua fé nele, claro, assim como a do doente -, para tirar mau-olhado, o motivo de todas as doenças do mundo, ela acreditava nisso. E o comprovava mostrando os galhos de arruda que murchavam completamente, durante sua reza, por haver captado todo o mal incrustado no corpo enfermo.

Também se recorria às tradições daquele mundo para espantar o medo da noite. Ao pé do fogão, e à luz do seu fogo, enquanto as panelas fumegavam, cantavam-se as histórias que passavam, oralmente, de geração a geração. Refiro-me às da literatura de cordel, assim definida por um de seus autores mais populares, o Rodolfo Coelho Cavalcante:

Cordel quer dizer barbante
Ou senão mesmo cordão,
Mas cordel-literatura
É a real expressão
Como fonte de cultura
Ou melhor, poesia pura,
Dos poetas do sertão

A expressão cordel vem da forma como os folhetos dessa literatura eram pendurados nas feiras, para serem vendidos. Pelos sertões adentro, o povo os chamava de ABC e de “rimance”, por se tratar de narrativas rimadas.

De origem ibérica, rica em fabulação, a literatura de cordel é até hoje muito popular no Nordeste brasileiro e até mesmo em certos núcleos urbanos do Sudeste, em função dos fluxos migratórios. E produziu clássicos como “A história do pavão misterioso”, “A chegada de Lampião ao inferno” e “Proezas de João Grilo”. Este se tornaria a matriz do grande sucesso de Ariano Suassuna, “O auto da compadecida”:

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia

O já citado Rodolfo Coelho Cavalcante explica à perfeição o fazer poético cordelista e o seu alcance:

De tudo que acontecia
No país ia escrevendo
Padre Cícero, Lampião,
Ia o povo todo lendo.
Criou hábito no povo
De ler um folheto novo
Para a notícia ir sabendo.

E ele nos ensina mais:

O chamado trovador
Ou poeta popular
Era semi-analfabeto
Porém sabia rimar,
Seus folhetos escrevia
E os sertanejos os liam
Por ser o seu linguajar.

Não foram poucos os poetas eruditos que buscaram inspiração nessa fonte popular. Um exemplo disso é o poema “Cantadores do Nordeste”, de Manuel Bandeira, que está em seu livro “Estrela da Tarde”. E João Cabral de Melo Neto não poucas vezes se utilizou da estrutura, métrica e ritmo do cordel. Basta lembrar o seu famoso auto de Natal “Morte e vida Severina”:

O meu nome é Severino
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas Maria
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias.

E por aí vai.

E se temos por aqui os nossos heróis populares – João Grilo, Lampião, Antônio Conselheiro, Cancão de Fogo, Lucas da Feira – o bandoleiro negro de Feira de Santana, um lendário justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, espécie de versão baiana de Robin Hood, e etc., pois a galeria desses personagens é imensa -, o México tem La Cucaracha, cantada em todo o mundo, e a Argentina o Martim Fierro, que se tornou símbolo da valentia platina, cuja lenda levou Jorge Luís Borges a escrever um conto magistral, chamado “O fim”, que releio sempre, com um renovado encanto.  

Por fim, mas não por último, fiquemos com o poeta português Alexandre O’Neill, o que dizia:

Folha de terra ou papel,
Tudo é viver, escrever.